Perfil

A perda do vinho e da gastronomia natural

Marcel Lapierre influenciou o modo de ser fazer vinho no mundo com seus produtos naturais e, mais do que isso, influenciou também a gastronomia


Marcel Lapierre, grande vinhateiro de Beaujolais, morreu (muito precocemente, aos 60 anos) devido a um câncer. Era um homem de convicções que, sob sua aparência rude escondia sua real bondade. Sempre disponível, generoso, curioso, aberto a todos, era sobretudo, e antes de tudo, um produtor fenomenal.

Sem Lapierre, o vinho natural, tal qual o conhecemos atualmente talvez não existisse. Herdeiro de Jules Chauvet (vinhateiro de Beaujolais e teórico do vinho dito natural do pós-guerra), grande amigo de Pierre Overnoy (um dos papas do vinhos de Jura), ele, desde meados dos anos de 1970, personificava esse movimento nascente.

Repensar a cultura da vinha e da uva, colher a uva madura (baixo rendimento), manipulá-las quanto menos puder (utilização de gás carbônico) para tirar o máximo da fruta, não colocar enxofre (somente quando necessário). Fazer um vinho para beber jovem e também para guardar, um vinho para se deliciar, para se embebedar, para desfrutar, um vinho de sede e de espírito.

Lapierre restaurou uma certa forma de vida a Beaujolais e fez milhares de pessoas compreenderem que essa região não era unicamente sinônimo de um vinho novo adulterado, e muitas vezes intragável. Para ele, a Gamay era uma grande cepa e Morgon um grande terroir, igual a seus vizinhos borgonheses.

Influência além de Beaujolais
Em 1991, o sobrinho de Lapierre, Philippe Pacalet foi recrutado por Henri Roch (co-gestor de Romanée-Conti) para vinificar os vinhos de sua domaine (Prieuré Roch). O "método Marcel Lapierre" entrava na Borgonha, algo estranho para o mercado borgonhês ultra-conservador, que sempre desprezou seus vizinhos ao sul. Há quem pense que os métodos "importados" por Pacalet e aplicados no Pinot Noir tiveram grande influência nos vinhos atuais do Domaine de La Romanée-Conti.

Lapierre acreditava no potencial da uva Gamay

Seja em Côtes du Rhône, em Bordeaux, na Alsácia, no Vale do Loire, todos os "históricos" produtores de vinhos naturais - René Jean Dard e François Ribo (Dard & Ribo / Rhône), Philippe Laurent (Gramenon / Rhône), Christian Binner (Alsácia), Thierry Puzelat (Clos du Tue-Boeuf / Loire), François Dutheil de la Rochère (Château St Anne / Bandol), sem contar Beaujolais com Jean Foillard, Jean Paul Thevenet, Yvon Métras, Thierry Breton, Philippe Jambon, Georges Descombes, Jean Claude Chanudet etc - todos devem muito a Lapierre. Isso sem falar dos produtores que vieram depois.

Mathieu e Marie, respectivamente filho e esposa de Lapierre, já asseguraram a sucessão (foi Mathieu que introduziu as técnicas biodinâmicas na propriedade) e vão presidir o destino do domaine a partir de agora.

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fotos: Alvaro Yañez
Lapierre restaurou uma certa forma de vida a Beaujolais e fez milhares de pessoas compreenderem que essa região não era unicamente sinônimo de um vinho novo adulterado, e muitas vezes intragável

Influência na gastronomia

Yves Camdeborde

Ele não era apenas um vinhateiro que amava o vinho e as festas, mas era, também, um grande apreciador da boa comida. Grande amigo do lendário chef Alain Chapel (Mionnay), ele era amigo de muitos cozinheiros. Yves Camdeborde, chef do Comptoir du Relais e ex-chef do mítico La Régalade, aplicou - a seu modo - a filosofia "Marcel Lapierre" à "bistrologia".

Em 1993, este ex-chef do Crillon (da época de Christian Constant) abriu seu restaurante baseado em princípios simples: cozinha de produto, carta de vinhos naturais, menu a menos de 200 francos (31 euros). Foi uma revolução, uma vez que o restaurante estava quase sempre cheio (mesmo depois de ter mudado de local). E ele, com isso, também criou diversos "imitadores" como Thierry Faucher (L'Os à Moelle), Thierry Breton (Chez Michel), Rodolphe Paquin (Le Repaire de Cartouche), Stéphane Jego (L'Ami Jean) etc.

Os vinhos de Marcel Lapierre (e todos os outros vinhos naturais) sempre tiveram um lugar de destaque nas cartas desses estabelecimentos. Todos esses chefes iam costumeiramente a dois eventos anuais organizados no Château Cambon, perto da vila de Morgon, por Lapierre (e Marie, sua esposa): a degustação en primeur de Beaujolais (novembro) e o "Cochon", em 14 de julho, que eram verdadeiros festivais báquicos, ocasiões em que se reuniam centenas de amantes do vinho de Beaujolais e da boa comida.

Yves Camdeborde era muito ligado a Marcel Lapierre. Em seu discurso na igreja durante o funeral, ele fez com que as pessoas percebessem a importância dessa perda e tudo o que havia desaparecido. O ponto comum entre Camdeborde e Lapierre é a generosidade e humildade de ambos. Personalidades conhecidas (encontramos os vinhos de Lapierre no mundo todo e Camdeborde, hoje, é um chef que estrela as transmissões culinárias na televisão francesa, no programa "Master Chef"), eles nunca mudaram.

Camdeborde e Lapierre são duas faces da mesma moeda. Cada um a seu modo trabalhou consideravelmente para mudar radicalmente nossa forma de beber e comer, e suas influências, suas abordagens, suas ideias se encontram por todos os cantos atualmente (no que se tange à gastronomia e ao vinho).

Incitados, enciumados, invejados, eles batalharam duramente para chegar a esses resultados. E o que parece óbvio hoje, não foi ontem. Agora que Marcel Lapierre nos deixou, aconselhamos que, na próxima viagem à França, você vá ao cruzamento (carrefour) de l'Odéon em Paris, comer no Comptoir du Relais, e beber uma garrafa de Morgon de Lapierre. É garantia de satisfação.

Serviço:
Domaine Marcel Lapierre
Les Chênes - 69910 Villié-Morgon
00 33 4 74 04 23 89

Le Comptoir du Relais
7-9 carrefour de l'Odéon - 75006 Paris
00 33 1 44 27 07 97

Marc Grand D'Esnon

Publicado em 9 de Novembro de 2010 às 06:38


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Artigo publicado nesta revista