As estrelas de nossos vinhedos

O espumante nacional aproxima os brasileiros de Dom Pérignon, o monge francês que teria afirmado que beber Champagne é como beber estrelas


Cristiano Rosa
Caro leitor, antes de começar este texto quero fazer um convite: se estiver ao seu alcance, por favor, sirva-se de uma taça de espumante brasileiro. Ele irá harmonizar perfeitamente com esta matéria e lhe dará uma idéia mais precisa daquilo que estamos prestes a abordar. Está servido? Eu estou e não há nem necessidade de lhe contar qual é a marca de espumante nacional que preenche minha taça. Para nossa satisfação verde- amarela, no mínimo duas sólidas dezenas de marcas nos brindam com sua alegre efervecência e seu agradável frescor, em variadas faixas de preços.

Um rápido exame visual lhe revelará que nossos espumantes têm uma coloração que varia do amarelo pálido ao amarelo ouro (com alguns moscatéis quase transparentes), e outros novidadeiros em variados tons do rosa ao avermelhado, brilho e transparência muito belos, variadas intensidades de perlage (as tão famosas borbulhas) e a habilidade instantânea de fazer você sentir-se mais feliz.

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Fazer um vinho espumante não é fácil, bem o sabem os franceses que passaram muitos anos tentando tirar as borbulhas da bebida e contrabalancear sua acidez. Quando perceberam que os supostos defeitos eram, na realidade, características únicas, ainda tiveram que esperar por três figuras emblemáticas, o monge Dom Pérignon, a viúva Veuve Clicquót e o cientista Pasteur, para refinar aquilo que hoje é uma das melhores bebidas do mundo, o Champagne. Infelizmente, como em todas as bebidas emblemáticas da humanidade, a ficção se mistura largamente com a realidade, e ninguém é capaz de provar que as deliciosas palavras que estão no subtítulo desta matéria são realmente de Dom Pérignon, uma vez que dados históricos dão conta de que ele não bebia e repetidamente tentou tirar as borbulhas da bebida que fazia no começo do século XVIII.

Os franceses foram rápidos em perceber que sua bebida efervescente era boa e trataram de protegê-la. Dessa forma, somente os vinhos espumantes produzidos no norte da França, na região de Champagne, perto das cidades de Reims e Épernay, podem ser chamados de Champagne. A legislação é dura, antiga e restritiva, mas ninguém reclama, nem dos altos preços, pois a qualidade do produto que as garrafas contém costuma justificar tudo.

fotos: Gilmar Gomes
Dirceu Scottá e Claudia A. Stefenon, enóloga e presidente do Concurso Nacional de Espumantes Visão geral da sala de degustação do concurso

Aqui no Brasil a situação é, em parte, diferente. Os espumantes são considerados os mais sofisticados e românticos dos vinhos. Apesar de lisonjeira, essa fama às vezes afasta as pessoas de sua charmosa e flexível convivência. Ainda mais por aqui onde a bebida é intrinsecamente ligada às comemorações especiais, não ao dia-a-dia. O conjunto fica mais peculiar quando se constata que eles são, atualmente, os vinhos de maior consistência no Brasil. Isso quer dizer que, safra após safra, nossos espumantes só evoluem e são cada vez mais premiados no exterior e, acredite, comparados com grandes rótulos franceses. E embora nossa indústria de espumantes esteja em efervescência, ainda cabe perguntar por que não bebemos mais. Os espumantes são, em geral, um produto leve, de excelente qualidade, com preços competitivos e que combinam muito bem com as particularidades de nossa culinária, inclusive com nossos doces de tradição portuguesa.

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Cristiano Rosa
Roque Faé e Gilberto Pedrucci na Fenachamp (enólogos, Gilberto é o presidente da feira)

Em uma recente visita a um dos restaurantes do complexo enoturístico da vinícola Casa Valduga, no Vale dos Vinhedos (que produz nove rótulos de espumantes, sendo que quatro deles são sazonais), o menu do jantar – composto de “Carpaccio de Abacaxi com Queijo Grana Padano”, “Risoto de Abobrinha e Provolone”, “Entrecôte Grelhado com Batatas Sautê” e “Semifredo de Nozes Glaceadas” –, foi inteiramente acompanhado por um espumante Brut, que fez boa harmonização da acidez do abacaxi ao açucarado da sobremesa. Uma escolha segura para um menu eclético.

Em setembro, a ABE (Associação Brasileira de Enologia) promoveu a 5a edição do Concurso do Espumante Fino Brasileiro, encontro que acontece a cada dois anos, seguindo as regras de avaliação da OIV (Organização Internacional da Uva e do Vinho). Durante dois dias, foram avaliados 144 espumantes inscritos por 50 vinícolas, separados pelo método de produção (Champenoise, Charmat e Asti). Desse total, somente 30% das amostras poderiam ser premiadas com medalhas de ouro, prata e bronze. No entanto, o nível das amostras foi tão elevado que não foram concedidas medalhas de bronze.

Esse resultado apresenta duas facetas. A mais clara é que a qualidade aumentou, graças aos cuidados com o parreiral e o maior controle das técnicas de elaboração. A outra é que os produtores estão atentos ao fato de que o mercado precisa de produtos melhores, não só para competir com os rótulos importados, mas também para criar o costume de beber bons vinhos e aproveitar as benesses de nosso terroir, muito propício para o crescimento das uvas necessárias aos espumantes. “Ficamos satisfeitos com os resultados positivos, mas queremos nos organizar ainda mais, fazer parcerias, investir em pesquisa de qualidade, incentivar o enoturismo profissionalizado”, diz Cláudia A. Stefenon, enóloga e presidente do Concurso.

fotos: Cristiano Rosa
Linha de engarrafamento da Salton Linha de produção da Chandon

Uma parada para voltar à nossa taça. A maior parte das bebidas contemplam somente o paladar, a visão e o olfato, mas os espumantes abarcam também o tato e a audição. No ouvido, o suave e ritmado som das borbulhas na taça, quase como o tilintar de vaga-lumes, antecede o ataque dos aromas, muitos deles provenientes da segunda fermentação e capazes de deixar impressões aromáticas dos fermentos (leveduras) utilizados. Essa coleção de aromas é impulsionada pelo gás carbônico e toca nosso nariz com lembranças de pêssegos, maçãs, limões e laranjas, miolo de pão e brioches, entre outros que variam de acordo com as uvas utilizadas em sua elaboração. Podem variar de intensidade, mas devem ser sempre agradáveis. Quanto ao tato, vamos chegar lá logo mais.

Ricardo Chesini observa sedimentos na garrafa

A indústria brasileira de espumantes têm uma longa história. A Peterlongo foi fundada em 1915 e na década de 40 chegou a exportar seus espumantes para a loja Macy’s, nos EUA. A Georges Aubert veio da França para o Brasil logo após a Segunda Guerra, quando sua cantina foi destruída e ocupada. Começou a produzir em 1951 e foi a primeira a utilizar, no País, o método Charmat (onde a segunda fermentação ocorre dentro de uma autoclave). A Chandon chegou ao Brasil na década de 70 e logo congregou um grupo de enólogos que ainda são figuras chave na vitivinicultura brasileira, entre eles o chileno Mário Geisse, dono da vinícola Cave Amadeu – responsável pela produção do espumante Cave Geisse – e o professor Idalêncio Angheben, que hoje também cuida de sua própria vinícola, a Angheben Vinhos Finos. Dessa turma, quem ainda está na Chandon é outra figura emblemática dos espumantes brasileiros, o enólogo Claudio Cattani, que viu a empresa crescer e se modificar ao longo dos anos, com a presença do francês Phillipe Mevél. O enólogo deixou de fazer vinhos tintos e brancos para se concentrar nos espumantes feitos pelo método Charmat. “A Chandon, que está presente em outros três países, além da França, optou pelo Brasil por criar uma identidade de espumantes, afinal, não estamos produzindo para o mercado europeu, mas sim para o nosso consumo, e seguindo os mais rigorosos controles de produção”, explica Claudio Cattani. A empresa tem cinco espumantes, que somam 1 milhão de litros.

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Não se fala em crise também nas enormes instalações da Vinícola Salton, no distrito de Tuiuty, em Bento Gonçalves. A empresa, fundada em 1910, é a líder de vendas em espumantes no País, com de 2,4 milhões de litros, em 2006, de uma linha de seis rótulos. “Temos uma dádiva da natureza nesta região, que favorece as uvas para espumantes e investimos pesadamente em todos os detalhes que fazem um grande produto”, revela Lucindo Copat, enólogo e diretor técnico da Salton, que está na empresa há 23 anos. Entre os grandes players do mercado está a Miolo Wine Group, que coloca no mercado uma linha de quatro espumantes, um deles feito no Vale do São Francisco, além de um Milésimé (classificação francesa utilizada para espumantes de uma safra específica).

Cristiano Rosa
Pupitres da Adega Chesini

Mas nem só de grandes e poderosos nomes e números vive a indústria brasileira de espumantes. Algumas empresas menores têm produtos de qualidade excepcional por se dedicarem quase que unicamente aos vinhos não-tranqüilos. A AVIGA (Associação de Vinicultores de Garibaldi) congrega 11 empresas conhecidas como microchampanherias. Algumas delas já vinificam seus próprios espumantes, mas a maioria utiliza as instalações das grandes empresas para alguma fase de sua produção. “Outra característica nossa é que, diferentemente das grandes empresas, vamos limitar a produção de nossos espumantes a um máximo de seis mil garrafas por ano, para mantermos um traço mais artesanal”, explica Ricardo Chesini, da Adega Chesini, que já teve sua primeira safra de espumante moscatel premiada pela ABE. Do outro lado do vale, encontra-se a associação dos vitivinicultores de Monte Belo do Sul. Juntos eles produzem 42 milhões de quilos de uva por ano, uma boa parte é comprada por empresas como a Chandon, o resto é vinificado em conjunto e resulta em cinco marcas de espumantes, como a do enólogo Roque Faé. “Trabalhamos em parceria com as vinícolas de toda a região, para que as uvas produzidas aqui tenham a qualidade necessária para cada tipo de espumante” conta ele.

Além dos prêmios e da enorme cadeia produtiva que os espumantes envolvem no Brasil, há outro fator que aproxima a bebida de sua fama, a FENACHAMP (Feira Nacional do Champanhe), que acontece entre os meses de setembro e outubro, a cada dois anos, no parque de exposições da cidade de Garibaldi. Neste ano ela foi renovada para contemplar um público mais dirigido, e valorizar mais ainda o produto emblemático da cidade. O presidente da feira, Gilberto Pedrucci, que é também um produtor premiado de espumantes, explica que as edições anteriores da feira deixavam alguma coisa a desejar, tanto para o público quanto para os produtores, fazendo com que o número de pessoas não fosse significativo. Agora a situação mudou, na festa de 2007 somente a primeira taça de espumante é cortesia, as demais são compradas a preços diferenciados, e as pessoas pagam uma entrada simbólica que possibilita a realização de shows musicais de qualidade e a montagem de uma infra-estrutura que favorece os produtores. “Ainda não fechamos os números, mas estamos acreditando que nos três finais de semana da festa tivemos um público de cerca de 40 mil pessoas e servimos 10 mil garrafas somente num desses finais de semana”, conta Gilberto Pedrucci.

Gilmar Gomes
Espumante Brut e Rosé

Ninguém se sente realmente à vontade para incentivar o consumo de bebidas alcoólicas, mas existe uma grande diferença entre beber muito e beber bem. Felizmente para nós, a indústria brasileira de espumantes finos vem trabalhando com afinco para que seja possível beber cada vez melhor. Assim, levamos nossa taça à boca e nos deliciamos com o sabor levemente ácido, com o “peso” das borbulhas sobre a língua (uma diferenciada sensação táctil), com sua elegância efêmera. Permitimos ao nosso paladar que se delicie com sua refrescância, com seus diferentes graus de açúcar e, finalmente,com sua habilidade do nos fazer parar de pensar. Muito obrigado pela companhia e um brinde a nossa saúde, a nossa felicidade e ao aniversário de ADEGA!

Sílvia Mascella Rosa, De Garibaldi (Rs)

Publicado em 18 de Outubro de 2007 às 14:06


Terroir Brasil

Artigo publicado nesta revista