Brasil Cor-de-Rosa

O país entrou na moda dos rosés, perfeitos para animar o verão e harmonizar com nossa culinária


Sílvia M. Rosa
Os rosés brasileiros são ideais para o dia-a-dia

Se você tem 40 anos ou mais, é quase certo que tem preconceito contra os vinhos rosés. Será que isso é coisa de esnobes ou de gente que se aproxima perigosamente da meia-idade e que deveria gostar de vinhos mais sérios? Não se martirize. Mais uma vez a história do vinho brasileiro não ajudou neste quesito. Os vinhos rosés que eram feitos aqui, ou importados para o Brasil, nas décadas de 70 e 80, eram ordinários. Palavra forte? Não o suficiente para o estrago que fizeram, cujo único equivalente provavelmente seja o estrago feito aos vinhos brancos pela famosa garrafa azul. Como apreciador de vinhos você deve até lembrar dos nomes dessas atrocidades avermelhadas que nosso mercado aceitava. Não vou citá-los, pois é realmente bom que eles sejam esquecidos.

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Felizmente, quem aprecia vinhos de verdade sabe que o novo pode sempre nos surpreender. Vamos deixar o preconceito junto das coisas que não foram boas em 2007 e começar o ano de taça cheia e rosada. Aproveitar que o Brasil entrou de vez (e desta vez da forma correta) na moda, e provar que o mercado tem muito a oferecer. É essencial, porém, avaliar a maioria dos rosados brasileiros pelo que eles são: vinhos leves e fáceis, ideais para o dia-adia, perfeitos para uma significativa parte de nossa culinária, desde o sanduíche de mortadela (sim, é verdade), passando pelo tender com frutas das festas de final de ano e complementando os frutos do mar de nossa enorme costa. Devem ser bebidos gelados, como aperitivos, para acompanhar uma refeição ou ainda para completar aquele pôr-do-sol na praia, quando as cores todas parecem explodir juntas.

Não serei simplista a ponto de afirmar que todos os rosés do mundo são leves. Alguns dos mais renomados e deliciosos Champagnes são rosés (e preparados por meio da difícil mistura de vinho branco com vinho tinto). Existem duas áreas na França cuja produção maior é de rosés nobres e elegantes. Uma delas é a Tavel, no Rhône, com seus vinhos robustos e picantes que combinam bem até mesmo com os pratos que pesam no azeite, no alho e nas ervas frescas. A uva mais importante da região é a Grenache. Outra área famosa por seus rosés é a Provence. A simples menção do nome já traz à memória a brisa suave do Mediterrâneo, as cores pastéis e o estilo de vida lânguido do verão. Nada a estranhar, então, que alguns dos vinhos mais importantes da região sejam os rosés, perfumados e frescos. Eles são feitos, em sua grande maioria, com várias uvas, que podem incluir a Grenache, a Mouvédre e as típicas da região, como a Tibouren e a Cinsaut.

É praticamente impossível precisar quando uma moda começa, mas pode-se dizer que, num verão europeu depois do ano 2000, os ingleses (os maiores importadores de vinhos do mundo) criaram uma demanda por vinhos rosés que até então era restrita. Como os vinhos nem sempre decepcionavam na boca e a repercursão na mídia foi positiva, o mundo vitivinícola começou a pensar nos rosés com mais seriedade e a produzi-los com maior rigor. Alguns países, até, surpreendem com seus produtos, como Portugal (com a maior gama de estilos de vinhos rosados, mais encorpados e potentes), Itália, Argentina e Chile.

Mas no Brasil, nos últimos dois anos, a produção de rosés não só saiu de ínfima para expressiva, como a comercialização surpreende. Na Pizzato Vinhas e Vinhos, por exemplo, a safra 2007 do “Fausto Rosé”, de 6.200 garrafas, já está praticamente esgotada. A demanda do mercado fez os vitivinicultores se mexerem, tanto no norte quanto no sul, e os resultados são animadores, pois a grande variedade de estilos dá margem a vinhos muito interessantes, até mesmo entre os já consagrados espumantes nacionais, que resolveram alternar a cor e o sabor. Uma agradável surpresa, por exemplo, é o “Cave Geisse Brut Rosé”, preparado exclusivamente com a uva Pinot Noir. Encorpado e estruturado, foi criado para ser um “rosé gastronômico’”, como explica Daniel Geisse, diretor comercial da Cave de Amadeu. “Os nossos espumantes sempre foram vinhos únicos, quase que preparados para serem bebidos sozinhos. Com esse rosé, fizemos um espumante que se harmoniza bem com os alimentos, ainda que seja muito característico de nosso terroir e do estilo da casa”, conta Daniel.

A surpresa maior da Cave de Amadeu, no entanto, é seu rosé tranquilo, safra 2007, preparado para atender aos pedidos dos donos de restaurantes que queriam um vinho rosé de qualidade para ser vendido em taça, num preço convidativo. A escolha da Cave de Amadeu foi comercializar o vinho na embalagem bag-in-box. Talvez você esteja pensando: “Rosé e em bag-inbox? A revista ADEGA não é mais séria”. Pois bem, o combinado foi deixar os preconceitos de lado, não? Dessa maneira, os bag-in-box vão estar na sua vida, em sua casa, mais cedo ou mais tarde. São eficientes, conservam o vinho muito bem, são práticos e funcionais para restaurantes, festas e para você ter na cozinha quando bate aquela vontade de tomar somente uma taça, com aquele sanduíche de pão chiabatta e presunto parma. Obviamente não são para vinhos de guarda. Longe disso. Mas são perfeitos para o vinho nosso de cada dia e para evitar qualquer desperdício.

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Uma das críticas mais poderosas feitas aos vinhos rosés é que eles não são tão potentes como um vinho tinto, nem tão delicados como um branco. E algumas vezes prometem o que não vão cumprir. Daí a necessidade de se avaliar o vinho pelo que ele pode lhe oferecer, não por comparações com outros tipos de vinho. Existem bons vinhos brancos, rosés, tintos e espumantes. Também existem vinhos ruins (e mal feitos) em todas essas categorias. “Certamente, se todos os enólogos se empenhassem como deveriam na elaboração deste vinho maravilhoso, o conceito dos rosés, em pouco tempo, seria reestabelecido até mesmo perante os consumidores mais exigentes”, afirma Orgalindo Bettú, enólogo chefe da Villa Francioni, em Santa Catarina, e criador de um dos rosés mais elegantes do mercado. Apesar de sua aparente simplicidade, os vinhos rosés são difíceis se de fazer. Eles retiram a cor das cascas das uvas tintas utilizadas no seu preparo. Só que diferentemente dos tintos, esse contato é muito breve, capaz de transferir um pouco de matéria corante e alguns microgramas de taninos para um vinho que, depois desse estágio, seguirá a produção como se fosse um branco. A delicadeza está em buscar em cada uva o que ela pode oferecer de melhor a um vinho, que não terá os benefícios completos dos polifenóis dos tintos, de seus taninos e de sua capacidade de envelhecer, melhorando com o tempo. Mas, o fato de estar no meio do caminho entre um e outro, faz dos rosés um par perfeito para a culinária. Não são tão leves quanto a maioria dos brancos, a ponto de sumirem frente a um camarão alho e óleo, por exemplo, nem tão complexos como um tinto encorpado que fica mais feliz guardado na adega, esperando o outono chegar, do que na sua mesa de Natal, acompanhando o peru assado com farofa. Os rosés costumam fazer boa figura com os dois pratos citados, além de serem perfeitos com a culinária asiática.

A seguir, uma amostra de alguns dos vinhos rosés brasileiros disponíves no mercado neste momento. Lembre-se de que eles devem ser consumidos jovens em sua maioria (com até três anos), bem refrescados, quase como vinhos brancos. Entre nossos rótulos existem alguns mais leves e descompromissados, com pouco corpo, ideais para servir como aperitivo, e outros que encaram uma refeição com galhardia. Prove, aprecie as nuances de cor (nenhum outro vinho tem cores tão belas), deguste a complexidade entre acidez, frescor e taninos, e faça seu próprio julgamento.

ESPUMANTES BRUT ROSÉS
Casa Perini Brut Rosé

Casa Perini, Farroupilha - Rio Grande do Sul (R$20,00). Rosado claro, aroma adocicado marcante de cassis, do qual nós brasileiros só reconhecemos por conta do licor. Tem acidez suave e bastante frescor. Perlage delicado e abundante. É uma agradável opção da Perini, na combinação das uvas Chardonnay, Pinot Noir, Merlot e Gammay, e um belo trabalho de Cleber Andrade, enólogo que trabalhava para a Bacardi Martini e usa seus conhecimentos para inovar o portfólio da casa.

Pizzato Brut Rosé
Pizzato, Vale dos Vinhedos - Rio Grande do Sul (R$38,00). Excelente novidade da Pizzato, esta combinação de 80% de Merlot e 20% de Egiodola tem uma coloração rosada intensa, belo perlage e um frescor surpreendente. O aroma de frambroesas e amoras é um tanto selvagem e instigante. É bem verdade que não se avalia o vinho pelo rótulo, mas não dá para deixar de notar a elegância da embalagem, que valovaloriza o líquido, bem equilibrado e agradável. Feito pelo método tradicional, tem 12% de álcool.

Salton Poética Rosé Brut
Salton, Tuiuty - Rio Grande do Sul (R$25,00). Na enorme linha de espumantes da Salton, não poderia faltar um exemplar rosé. A coloração delicada revela borbulhas finas, em boa quantidade. O aroma de frutas vermelhas e cítricas é equilibrado com o de flores, num jogo agradável. Na boca é ácido na medida certa, sem muita persistência, mas com bastante frescor. Leve, tem 12% de álcool.

Miolo Brut Rosé
Miolo, Vale dos Vinhedos - Rio Grande do Sul (R$20,00). A versão rosé do espumante brut da Miolo mostra uma coloração bela e mais carregada. A combinação de uvas é Chardonnay, Pinot Noir e Merlot, preparado pelo método champenoise, com envelhecimento de seis meses na cave subterrânea da empresa. No nariz revela os aromas de morango e groselha, com um leve toque de cereja. Na boca tem uma leve cremosidade, com excelente acidez. É bastante versátil e agradável, com um toque de exotismo bem vindo.

Conde de Foucauld Rosé Brut
Cooperativa Vinícola Aurora, Serra Gaúcha – Rio Grande do Sul (R$16,00). Lançamento da Aurora dentro da linha Conde de Foucauld, este espumante rosé é uma combinação das uvas Merlot, Cabernet Franc e Pinotage. Tem uma coloração rosada intensa, muito bonita. O perlage é médio, mas persistente. O aroma frutado e doce contrasta com a acidez, que ganha um destaque pelo uso exótico da uva Pinotage. Com certeza uma combinação diferente e de bom preço.

ROSÉS TRANQÜILOS
Fausto Rosé Pizzato 2007

Pizzato, Dois Lageados - Rio Grande do Sul (R$22,00). Linda cor cereja clara, muito límpida e brilhante. Os aromas de frutas vermelhas, como cereja , amora e framboesa, tem um quê de cítricos, que contrabalança o peso dos aromas mais adocicados. Na boca é doce em princípio, para depois revelar uma acidez média e um corpo agradável, que se torna bem harmônico. É elaborado com uvas 100% Merlot e tem 12,8% de álcool.

Miolo Rosé Seleção 2006
Miolo, Vale dos Vinhedos - Rio Grande do Sul (R$15,00). A combinação das uvas Cabernet Sauvignon, Merlot e Pinot Noir resulta em um vinho de coloração muito alegre, com forte aroma adocicado de morangos silvestres. Na boca é bastante leve, excelente como um vinho descompromissado, para servir de aperitivo, pois tem frescor e brilho.

Núbio 2006
Sanjo, São Joaquim - Santa Catarina (R$26,00). Um vinho diferente. Com 14% de álcool, é preparado somente com uvas Cabernet Sauvignon extra maduras, colhidas no meio do mês de maio a 1250 metros de altitude. A coloração é rosada clara, quase um salmão. O aroma é bastante frutado e intenso e a quantidade elevada de álcool realça o sabor adocicado, que tende para uma compota de morangos. Quando a temperatura ideal de consumo (entre 8º e 10ºC) for atingida, o vinho mostrará sua agradável acidez.

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Aurora Varietal Merlot Rosé 2006
Cooperativa Vinícola Aurora, Serra Gaúcha - Rio Grande do Sul (R$16,00). A linha dos varietais da Aurora recebe esta novidade muito fresca e leve, preparada somente com uvas Merlot. Com apenas 10,5% de álcool, o vinho é um aperitivo refrescante, sem, no entanto, mostrar a tipicidade da boa Merlot, como era de se esperar. A acidez e o amargor são equilibrados, mas o corpo é leve.

Malina/Stock.Xchng

Villa Francioni Rosé 2007
Villa Francioni, São Joaquim - Santa Catarina (R$52,00). O preço assusta, mas o vinho só agrada. Desde a elegante garrafa, passando pela coloração clara e brilhante com linda transparência. No aroma aparecem a Merlot e a Pinot Noir, mas a combinação de uvas ainda leva Cabernets Sauvignon e Franc, Malbec, Syrah e Sangiovese. Mais uma ousadia bem sucedida de Orgalindo Bettú, enólogo chefe da casa, inspirado pelos rosés da Provence. Ele é muito delicado, com um pouco de tanino – que favorece as opções de enogastronomia – sabor complexo e final longo e aveludado.

Do Lugar Rosé 2006
Dal Pizzol, Vale dos Vinhedos - Rio Grande do Sul (R$18,00). A bela coloração avermelhada intensa apresenta um vinho bastante aromático, com marcantes notas de frutas vermelhas e de cerejas, em especial. É muito fresco e tem um final de boca ligeiramente amargo, que não chega a incomodar e pode acompanhar bem uma refeição. A combinação das uvas é Merlot e Cabernet Franc – uma informação que não consta no rótulo.

Reserva Amadeu Rosé
Cave de Amadeu, Pinto Bandeira - Rio Grande do Sul (R$50,00). Embalagem com três litros. A embalagem bag-in-box foi a escolha da vinícola Cave de Amadeu para seu primeiro rosé não espumante. O objetivo é atender o pedido dos restaurantes e bares, com um vinho de boa qualidade e bom custo. A mistura de 65% de Merlot e 35% de Cabernet Sauvignon resulta num vinho leve e fácil de beber, de coloração rosa suave e brilhante. Tem delicado aroma de frutas vermelhas e boa acidez, mas carece de mais personalidade e peso.

Sílvia Mascella Rosa

Publicado em 18 de Dezembro de 2007 às 08:01


Terroir Brasil

Artigo publicado nesta revista