Brasil velho mundo

A degustação de vinhos brasileiros de safras antigas mostra um potencial desconhecido pelo consumidor


Foto: Cristiano Rosa

No "8 da Graciema", no Vale dos Vinhedos (Rio Grande do Sul), na linha Garibaldina, está localizada a vinícola Don Laurindo. Garibaldina é uma das linhas originais nas quais foram divididas as terras dadas aos imigrantes italianos que aqui chegaram no final do século XIX, assim como a linha Leopoldina, também no vale, onde está localizada a vinícola Miolo, em um dos lotes que o patriarca da família recebeu quando chegou, o famoso Lote 43.

Foto: Cristiano Rosa

Dentro da vinícola no 8 da Graciema - que leva o nome do neto do imigrante italiano Laurindo, que completou há pouco seus 80 anos - estão alguns tesouros, descansando tranquilos nas caves de pedra. Mas há também uma arca de madeira que é aberta muito raramente para revelar alguns dos vinhos antigos que o enólogo Ademir Brandelli (filho de Laurindo) gosta de apreciar, como o Cabernet Sauvignon 1991, feito no ano em que Don Laurindo resolveu formalizar a vinícola junto de seus filhos.

Duas dessas garrafas tão raras e especiais chegaram até ADEGA (o Cabernet Sauvignon 1991 e um Tannat 1995) quando foi feita a proposta de falar sobre o potencial de envelhecimento dos vinhos brasileiros. O que se seguiu foi uma série de surpresas, vindas de muitos vinhateiros brasileiros.

"Vinhos brasileiros têm estrutura maior, são mais complexos. Por isso mesmo necessitam tempo maior de garrafa. A maioria dos vinhos do Novo Mundo não são assim", afirma a enóloga Rosana Wagner

O novo mais velho
Quando falamos de vinhos envelhecidos imediatamente nos chegam imagens do Velho Mundo, de adegas escavadas em solos antigos e de tradições centenárias. É muito difícil, senão impossível, pensar na mesma coisa quando vinhos do Novo Mundo estão em pauta, mesmo se falarmos de chilenos, argentinos e dos potentes Tannats uruguaios.

O posicionamento de mercado de muitos dos vinhos do Novo Mundo é precisamente o de conversar com os jovens, de conquistar consumidores que não precisam (e muitas vezes nem desejam) saber de vinhos que podem ser preservados por décadas. Por conta disso, muitas preciosidades permanecem guardadas nas arcas das vinícolas e degustá-las, é conhecer um outro lado de nossa história, uma faceta que parece mais do Velho Mundo do que do Novo.

A enóloga Rosana Wagner, proprietária da Vinícola Cordilheira de Santana, na Campanha Gaúcha, enviou para a degustação quatro de seus vinhos, dois brancos e um tinto (Cabernet Sauvignon safra 2003, Tannat 2004, Chardonnay 2005 e Gewürztraminer 2004) e comentou que tem preferência por vinhos mais evoluídos principalmente para as harmonizações: "Os vinhos brasileiros, de uma forma geral (sem me ater à peculiaridades de cada região), são muito mais gastronômicos do que os chilenos e argentinos. Isso acontece porque os vinhos brasileiros têm estrutura maior, são mais complexos. Por isso mesmo necessitam tempo maior de garrafa. A maioria dos vinhos do Novo Mundo não são assim. Mesmo jovens, eles se apresentam dóceis e agradáveis para serem degustados sem acompanhamento. No entanto, quando acompanhando uma refeição, aquela sensação doce (sweet point) começa a incomodar, chegando a ser enjoativa. Por isso, os vinhos mais estruturados, que passaram um bom tempo em garrafa e cujos taninos estão perfeitamente maduros, apresentam uma elegância ímpar, digna de ser harmonizada com qualquer refeição", afirma Rosana.


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Foto: Cristiano Rosa

Envelhecimento saudável
No entanto, tal como os seres humanos, para envelhecer com saúde dependemos não apenas da genética (no caso dos vinhos, de uma boa uva), mas de como cuidamos de nossos corpos. Com essa mesma metáfora, também podemos pensar que é possível "viver 10 anos a mil por hora", ou seja, um vinho feito para ser jovem pode ser muito bom, mas, para se tornar um vinho longevo, pode ser bem mais difícil. E, assim como nós, os vinhos nascem, desenvolvem-se, têm um auge e morrem, e contra isso nada se pode fazer.

O enólogo Dr. Celito Guerra, pesquisador da Embrapa Uva e Vinho, em Bento Gonçalves, explica quais são as bases que um vinho precisa ter para ser um bom candidato ao envelhecimento: uma boa estrutura de compostos orgânicos (polifenóis, sacarídeos proteicos, matéria corante, taninos) - tudo isso vindo de boas uvas, álcool potente e boa acidez. "Mas é óbvio que se esse conjunto não apresentar harmonia, esse vinho será apenas um vinho velho. A harmonia é uma riqueza que dá complexidade e que pode vir de uma boa safra, do uso correto da madeira e da habilidade do enólogo dentro da cantina", completa Guerra.

"Hoje, com a tecnologia avançada, controle rígido de temperatura e enólogos mais capacitados, temos mais oportunidades de fazer não apenas bons vinhos jovens, mas também excelentes vinhos que poderão evoluir por anos", acredita o enólogo Flávio Zílio

Essa combinação de fatores, capitaneada por um vinhedo bem implantado, de baixa produtividade e com a natureza a favor (sem excesso de chuvas ou de calor escaldante), é o começo para se fazer um vinho longevo. Mas as escolhas daí em diante precisam ser da empresa e do enólogo. Há mais de 20 anos, a Cooperativa Aurora decidiu fazer um vinho varietal diferenciado (a Aurora foi uma das primeiras empresas brasileiras a trabalhar com barricas de carvalho francesas) e assim nasceu o Cabernet Sauvignon Millésime 1991, de uma das melhores safras que o Brasil já teve.

ADEGA teve acesso a uma das poucas garrafas que sobraram dessa safra emblemática e o vinho encontrado estava evoluído, obviamente, mas vivo e saboroso, elegante em seus 21 anos de vida. Flávio Zílio, um dos enólogos mais antigos da empresa, destaca que o Millésime só é feito em grandes anos, de safras especiais, e que - dentro de uma cooperativa grande como a Aurora - cabe aos enólogos perceberem o potencial das uvas que estão chegando para cada linha de vinhos. "Hoje, com a tecnologia avançada que temos, prensas delicadas, controle rígido de temperatura de fermentação e os enólogos mais capacitados, temos mais oportunidades de fazer não apenas bons vinhos jovens, mas também excelentes vinhos que poderão evoluir por anos, como é o caso do Millésime", completa Zílio.


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Vivo e borbulhante
Uma vez que os taninos e o álcool mais elevado são fatores de suma importância na longevidade de um vinho tinto, a degustação de brancos e espumantes envelhecidos seria uma perda de tempo, certo? Errado, e lá estão os grandes exemplares de Champagne e Chablis que não nos deixam mentir.

"Somos ansiosos e queremos provar tudo muito depressa, não damos tempo aos vinhos nem na garrafa e nem na taça, para uma aeração que favorecerá seus aromas, aprisionados há tantos anos", admite o enólogo Luciano Vian, vice-presidente da Associação Brasileira de Enologia (ABE) e responsável pelos espumantes, brancos e tintos da Don Giovanni, de Pinto Bandeira. A empresa enviou um espumante Brut 1997 e um 2000 e um tinto Cabernet Sauvignon 1991.

Vian, acostumado a fazer espumantes pelo método tradicional e com grande potencial de evolução, explica que, para a longevidade de um espumante, é preciso muito mais do que uvas sadias, equilibradas em acidez. A prensagem também é outro fator importante, a separação do mosto flor (o primeiro sumo das uvas) do mosto prensa, pois o flor tem maior aptidão para envelhecer e é preciso ter um vinho-base de bastante estrutura, e, por último, uma boa segunda fermentação, com leveduras saudáveis, temperaturas baixas nas caves de envelhecimento (em torno de 14oC). E sempre envelhecer com a tampa corona - de metal -, a rolha deve ser colocada pouco tempo antes de o espumante ser consumido. "Um vinho-base Blanc de Blanc tem maiores chances de ter uma maturidade mais expressiva e agradável, com os aromas amanteigados, láticos e de frutas maduras e castanhas, que tornam-se muito complexos e de agradável sensação, principalmente aromática", completa Vian.

Tempo, para os espumantes feitos no método tradicional, parece ser mesmo um fator importante, e Celito Guerra frisou o fato de que as leveduras que são adicionadas à garrafa para promoverem a segunda fermentação morrem quando o açúcar se extingue, mas liberam os polissacarídeos (açúcares de cadeia longa) que preservam os aromas e que favorecem o lado espumoso que se percebe na boca: "Por isso, os espumantes mais elegantes quase nunca ficam prontos antes de dois anos", atesta Guerra.

"Somos ansiosos e queremos provar tudo muito depressa, não damos tempo aos vinhos nem na garrafa e nem na taça, para uma aeração que favorecerá seus aromas, aprisionados há tantos anos",
admite o enólogo Luciano Vian

Foto: Cristiano Rosa

Seguindo essa lógica, a Casa Valduga lançou no ano passado seus novos rótulos, nos quais o tempo que o espumante passou em contato com as leveduras está em um selo frontal. O mais antigo deles é o Extra Brut 60 meses que, com seis anos de idade, ficou lado a lado com o Cave Geisse Brut 1998, o único vinho brasileiro apresentado no evento Wine Future em Hong Kong, no final do ano passado, pela Master of Wine inglesa Jancis Robinson, como um exemplo de produto do Novo Mundo. Na taça, a diferença de idade dos dois não foi empecilho para que cada um brilhasse em seu estilo. Profundos e elegantes, tinham o que todo enófilo procura numa taça: qualidade e vivacidade.


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Na vertical
As quase 30 amostras que ADEGA recebeu para compor o painel desta reportagem formam um painel que abre uma nova página na história do vinho brasileiro, e abrem também um precedente: a possibilidade de realizar as primeiras degustações verticais (tradicionalmente com cinco safras de um mesmo vinho) com produtos da moderna vitivinicultura brasileira. Nesse quesito tomam a frente a Pizzato Vinhas e Vinhos, jovem e promissora vinícola, cujas garrafas safradas em 2000, 2002 e 2003 encontravam-se em perfeito estado, e a Vinícola Miolo, também do Vale dos Vinhedos.

Em fevereiro, a Miolo preparou para um grupo de jornalistas e enófilos uma vertical de seu vinho mais emblemático, o Lote 43. Nela foram degustadas todas as safras existentes, desde a primeira, em 1999 (quando o parreiral da empresa ainda era em sistema de latada), 2002, 2004 (primeira safra na qual o enólogo francês Michel Rolland prestou consultoria para a empresa), 2005, 2008 e uma prova de barricas da safra 2011. Durante a degustação, Adriano Miolo, diretor técnico da empresa, comentou que a primeira safra do Lote 43 não foi feita para ser um vinho de guarda: "Tivemos boas uvas e fermentamos como sempre, e eu, provando de um desses tanques, achei que aquilo poderia ser um vinho diferenciado e talvez um bom assemblagem, mas não tinha nenhuma pretensão, essa é a verdade", contou. Mas, logo em seguida, na safra de 2002, os cuidados começaram a ser diferentes e de 2005 em diante tudo está demarcado, desde os vinhedos de onde poderão sair as uvas para esse vinho até as sutilezas de sua produção, que, nas últimas três safras, já é direcionada para que o vinho amadureça e evolua devagar, resistindo ao tempo.

"Temos que pensar nos taninos, polifenóis e antocianos, pois eles serão o suporte para o futuro tinto", aponta o enólogo Lucindo Copat

Foto: Cristiano Rosa


Quem segue na mesma linha é a Salton, cujos vinhos de sua linha top (Salton Talento e Salton Desejo) foram provados em suas primeiras safras (2002 e 2004 respectivamente) e daqui bem pouco tempo já poderão compor outra degustação vertical brasileira. A diferença é que esses dois vinhos já nasceram com vocação para a longevidade. Segundo o diretor técnico da vinícola, Lucindo Copat, os tintos de guarda precisam de suporte e estrutura para aguentar ao tempo. A uva deve estar já preparada para isso, os vinhedos já pré-dispostos para produzir uva tecnológica, sendo que um dos fatores fundamentais é a baixa produtividade por hectare. Um vinhedo com produção equilibrada proporcionará uma uva com concentração em todos os seus componentes que serão de suma importância no futuro vinho. "Já a elaboração também deve ser conduzida de forma a retirar esses componentes para o vinho. Por exemplo, aqui temos que pensar nos taninos, polifenóis e antocianos, pois eles serão o suporte para o futuro tinto. Podemos tomar como exemplo um edifício, o que o sustenta são as vigas e colunas, exatamente igual ao vinho, se dermos as mesmas condições para que esses elementos entrem no vinho durante a elaboração, teremos o espectro da qualidade e longevidade", explica Copat.

"Os vinhos evoluídos fazem pensar. É como ler um bom livro, emocionam. A complexidade aromática, principalmente dos blends, é fantástica", diz o enólogo Orgalindo Bettú


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Foto: Cristiano Rosa

História recente
Em Santa Catarina, uma região de produção de uvas finas muito mais jovem do que o Rio Grande Sul, já há uma parte importante da história dos vinhos de guarda. Lá foi feito o primeiro Chardonnay com grande potencial de envelhecimento do país, o Lote I da Villa Francioni, que, no melhor estilo francês, ainda ousou ao combinar vinhos de duas safras diferentes (2004 e 2005). Sucesso enorme, suas garrafas se esgotaram e a que chegou até ADEGA é uma verdadeira raridade, ainda mais pelo fato de o vinho estar perfeito e vivo como se fosse muitos anos mais jovem.

O enólogo responsável por esse vinho e por outro 2004 também degustado (o primeiro tinto da empresa), é o gaúcho Orgalindo Bettú, que acredita que o aprimoramento dos conhecimentos, das técnicas e das tecnologias empregadas na vitivinicultura brasileira abrem um leque de possibilidades para vinhos de boa guarda. Entretanto, ele ressalta que cada região brasileira desenvolverá seu melhor produto de acordo com as condições edafoclimáticas, aportando ao vinho, dessa forma, as principais características da região de produção. "Os vinhos evoluídos são meus preferidos. São vinhos que fazem pensar. É como ler um bom livro, emocionam. A complexidade aromática, principalmente dos blends, é fantástica. Sou apaixonado pelos aromas de chocolate, tostado e tabaco; aromas muito comuns nos vinhos maduros. Talvez isso faça com que eu os reverencie. São vinhos que gosto de apreciar sempre que eu tiver no mínimo duas horas de tempo para aproveitá-los ao máximo", confessa Bettú.

Ademir Brandelli, da Don Laurindo, fã de degustações verticais, concorda com Bettú e acrescenta: "A complexidade desses vinhos fala contigo. A cada momento que agitamos a taça e colocamos na boca aparecem sensações diferentes. Não decanto um vinho evoluído, prefiro interagir a cada momento e perceber o que ele tem a dizer".

A sólida presença de variados vinhos com potencial de envelhecimento e de garrafas de alta qualidade com 10 anos ou mais coloca o Brasil em um novo patamar e reforça a constatação de que a indústria vitivinícola nacional não está apenas pensando nos novos consumidores e nos novos negócios, mas está - também - atenta aos produtos diferenciados que pode fazer. Essa é, para uma indústria tão jovem, uma excelente constatação.

AVALIAÇÃO ESPECIAL
Nas próximas páginas, você tem a avaliação de vinhos clássicos da vitivinicultura nacional de safras antigas. Confira como os vinhos brasileiros são capazes de evoluir.

Os vinhos que têm capacidade de envelhecimento são encorpados e necessitam permanecer estocados por um bom período antes de serem comercializados

PARA APRECIAR VINHOS ENVELHECIDOS
Os vinhos (em sua grande maioria) passam pelo amadurecimento na madeira (onde há uma oxigenação muito lenta e a maturação dos taninos) e envelhecem nas garrafas. Mas esse envelhecimento em garrafa não deve ser entendido de maneira negativa, pois, segundo Celito Guerra, é na garrafa que ocorrem as reações de terminação como, por exemplo, o aparecimento do buquê, a evolução dos aromas terciários, aqueles advindos do estágio na madeira, e o alcance do esplendor qualitativo.

Quando o vinho começa seu inevitável processo de decadência, o álcool se separa e seu cheiro fica mais pungente, a cor se precipita (perde brilho e nuances) e os aromas vão se achatando.

A enóloga Rosana Wagner ressalta que a preservação dos vinhos que se pretende deixar para evoluir deve ser cuidadosa: "A característica dos vinhos longevos é sua estrutura. Os vinhos que têm capacidade de envelhecimento são encorpados e necessitam permanecer estocados por um bom período antes de serem comercializados. Assim sendo, as condições de sanitização da cantina durante o período em que esse vinho ficar estocado em tanque ou em barricas deve ser excelente, de forma a evitar o desenvolvimento de componentes secundários indesejáveis. Além disso, uma vez que este vinho, após o enchimento das garrafas, ficará muito tempo estocado nas caves, ele deve receber um fechamento (rolha de cortiça) que garanta uma perfeita vedação, permitindo uma mínima entrada de oxigênio na garrafa (microoxigenação natural) e garantindo que não haja nenhum vazamento durante todo o período de maturação até a chegada à mesa do consumidor. Neste caso, esses vinhos não podem ser fechados com rolhas sintéticas ou do tipo screw cap. A temperatura durante o período de estocagem também deve ser controlada, sem grandes variações e nem elevação de temperatura, de forma que favoreça a preservação do produto".


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VERTICAL DE MIOLO LOTE 43 DAS SAFRAS: 1999, 2002, 2004, 2005, 2008 E 2011 (ainda não lançado)
A safra 1999 já apresentava coloração bem evoluída, mas, na boca, a acidez e os taninos ainda estão presentes. A safra 2002 ainda tem cor rubi e aromas que puxam para o chocolate, mas, na boca, o vinho fala de frutas maduras e de frescor. Para os apreciadores de vinhos evoluídos, é uma raridade importante. 2004 é um ano em que o vinho se transforma por conta da evolução do parreiral e do estilo mais europeu. Sua coloração é rubi com ligeira evolução para o granada e seu final de boca é longo e delicado, embora os aromas estejam menos vivazes. A safra de 2005, emblemática para o país, mostra nesse vinho com sete anos de vida o auge que o estilo desse rótulo pode chegar. Acidez, frescor e intensidade nos lugares certos.

Um vinho muito saboroso. As safras de 2008 (recém-lançada) e de 2011 (ainda em barricas, amadurecendo) são jovens demais para essa comparação, mas falam de bom potencial de guarda.

ANGHEBEN TANNAT 2002
88 PONTOS

As uvas vêm de Encruzilhada do Sul e são vinificadas no Vale dos Vinhedos, pelas mãos hábeis de Idalêncio Angheben e seu filho Eduardo. Esse Tannat tem a rara combinação de complexidade e delicadeza, com aromas de fruta concentrada e ligeiro amadeirado. Sutil na boca, tem retrogosto de anis e cerejas em álcool e fundo de boca com ligeiro amadeirado. Muito redondo e saboroso.

COOPERATIVA AURORA 75 ANOS SAFRA 2002
87 PONTOS

Esse blend comemorativo, feito em 2002 para celebrar os 75 anos da empresa em 2006, tem coloração rubi ainda bem escura com ligeiro toque âmbar e aromas ainda rústicos no começo, mas que evoluem para um frutado rico, em um vinho equilibrado, saboroso e fácil de beber, como se a idade nada mais lhe desse do que flexibilidade. Muito gostoso.


CORDILHEIRA DE SANTANA CABERNET SAUVIGNON 2003
89 PONTOS

Vindo do pampa gaúcho, esse Cabernet tem sua cor rubi carmim bem preservada e aromas frutados que são quase jovens, apesar do álcool se sobrepor ligeiramente. Muito elegante na boca, é onde mostra sua maturidade, com maciez, acidez e a complexidade dos vinhos evoluídos. Fundo de boca com discreto mentolado que é muito atraente.


SALTON DESEJO MERLOT 2004
88 PONTOS

Rubi denso e escuro, tem aromas evoluídos com mescla de madeira e frutado elegante. Na boca, está evoluído para o lado bom, com delicadeza de sabores, frutado discreto ainda perceptível e vivacidade que lhe dá um longo retrogosto e final de boca de cerejas negras. Muito bom de beber e, provavelmente, em seu auge.


GRAN RESERVA BOSCATO CABERNET SAUVIGNON 2004
86 PONTOS

A coloração rubi intensa e os aromas de frutas frescas falam de um vinho consideravelmente mais jovem, feito em Nova Pádua pela tradicional família de vinhateiros Boscato. Na boca, as frutas doces aparecem marcadas e os aromas intensos se desfazem aos poucos.

Macio e de final adocicado, faz quase parecer que parte do álcool evaporou, dando-lhe a densidade e o dulçor final de alguns vinhos chilenos dessa cepa. Final de boca que mescla floral e baunilha.

GRANDE RESERVA MARCO LUIGI CABERNET SAUVIGNON 2006
88 PONTOS

Ainda no mercado, esse vinho feito no Vale dos Vinhedos, parece muito mais jovem do que é e dá a entender que poderá ser guardado por vários anos ainda. Boa fruta no nariz e madeira bem aparente, tem taninos intensos, longa permanência em boca e excelente tipicidade. Esse é um dos que merecem ser provados daqui alguns anos para observar sua evolução.


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Vinhos avaliados

Tintos

AURORA MILLÉSIME CABERNET SAUVIGNON 1991
90 PONTOS

Rubi atijolado, mas ainda com bom brilho, esse vinho tem, para esta degustadora, um apelo muito pessoal, pois é um dos vinhos de minha memória, consumido muitas vezes nos anos 1990 e sempre com enorme prazer. Essa garrafa, portanto, teve uma parte de degustação e uma parte de lembrança feliz, pois encontrar o vinho, evoluído sim, mas em perfeitas condições de consumo, é uma alegria a mais. Os aromas falam de madeira, cerejas e ameixas em álcool e, na boca, a delicadeza impera, com harmonia entre acidez, tanino e fruta. Uma preciosidade da vinicultura nacional.

PANCERI MERLOT 2006
87 PONTOS

Das terras altas e frias de Santa Catarina, esse vinho, que ainda está à venda no mercado, tem bela cor rubi e aromas que, a princípio, estão fechados e se beneficiam muito da aeração na taça. As frutas negras maduras antecipam no nariz um sabor elegante, encorpado, de fruta muito viva e saborosa.

Não é muito longo, mas vale pelo frescor e pela redondez final.

PIZZATO CABERNET SAUVIGNON 2000
88 PONTOS

Rubi com reflexos acastanhados, o vinho tem excelentes aromas com a madeira aparente, mas sem se sobrepor. Servido fresco, um ligeiro ponto de oxidação aparece no paladar, mas longe de comprometer seu sabor, ele agrega profundidade a um vinho que ainda está vivaz e muito elegante, com excelente presença no paladar, fazendo-o ser muito agradável de beber e um luxo para quem aprecia vinhos evoluídos.


SALTON TALENTO 2002
87 PONTOS

A primeira safra de um vinho que nasceu para ser o ícone da empresa, esse Talento ainda tem cor rubi viva, com ligeiro toque âmbar e boa transparência. A rolha estava meio úmida, mas íntegra ainda. Os aromas formam um concentrado atraente de frutos maduros e madeira bem integrada. Na boca, os taninos finos e evoluídos ainda estão presentes, garantindo-lhe caráter e prazer.

DON LAURINDO CABERNET SAUVIGNON 1991
89 PONTOS
Outra joia cor de tijolo de nossa vinicultura, esse Cabernet tem aromas elegantes de cacau e café, com fundo de baunilha, que falam de sua idade e evolução. Na taça, quase parece um Pinot Noir, embora sem as frutas negras. Ainda equilibrado e fresco, é um livro de história, mais do que um vinho, mas muito bom de beber também.

DON LAURINDO TANNAT 1995
90 PONTOS

Uma tristeza para os consumidores que esse vinho não mais esteja no mercado.

Delicioso do primeiro ao último gole, mostra ainda potência de frutas maduras e excelente equilíbrio. Aos 17 anos, perdeu um pouco de acidez, mas isso não o denigre e ainda é um vinho que dá vontade de continuar tomando e que revela a paixão de Ademir Brandelli pelos vinhos de guarda, especialmente da uva Tannat, que em suas mãos sempre encontram outras dimensões.

VILLA FRANCIONI TINTO 2004
89 PONTOS

Cor rubi intensa. Seus aromas são frutados no começo (cerejas), mas, em seguida, entram em cena a madeira e um fundo interessante de pimenta negra. Bom corpo e delicadeza interagem na boca com bom volume e madeira bem integrada que, se o vinho for servido menos fresco do que o ideal, aparece em demasiado. Deverá viver na garrafa por mais alguns anos e evoluir bem, pois tem força para isso. Esse é um dos raros vinhos da prova que se beneficiam com a decantação.


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DON GIOVANNI CABERNET SAUVIGNON 1991
90 PONTOS

Rubi com ligeiro tom acastanhado, muito brilhante e límpido. No nariz, os aromas são de uma delicadeza extrema, com frutas secas, castanhas e madeira em sutil (mas presente) harmonia. Boca saborosa e equilibrada, que convida ao próximo gole, mesmo com seus sabores evoluídos. É um vinho raro e que, mais do que degustá-lo, é bom bebê-lo.

VALMARINO RESERVA DA FAMÍLIA 2004
87 PONTOS

Um dos últimos vinhos feitos por Orval Salton (primeiro enólogo formado que a Salton teve, que deixou a empresa para fazer seus próprios vinhos), esse blend é intenso. Rubi escuro e denso, tem amadeirado no aroma e boca, que não deixa dúvida que é um vinho para guardar, com taninos ainda vivos, certa rusticidade e mineralidade. No retrogosto, aparece um mentolado agradável que limpa o paladar. Não é fácil e nem óbvio, mas é muito bom.

VALMARINO CABERNET FRANC 2002
87 PONTOS

Em Pinto Bandeira, a Cabernet Franc é uma das protagonistas entre as uvas tintas, produzindo vinhos como esse que, mesmo aos 10 anos, ainda mostra a força da cepa, seja em sua coloração rubi vivaz, seja em seus sabores rústicos e intensos. No aroma, o que mais está ressaltado agora é sua integração com a madeira, que lhe dá aspectos de cacau e café. Saboroso e intenso.


PIZZATO CABERNET SAUVIGNON 2004
89 PONTOS

Rubi escuro, com aromas frutados em boa mistura de frutas vermelhas e negras com fundo ligeiramente amadeirado. Tem excelente corpo e elegância e várias camadas de sabores em bom equilíbrio com a presença da madeira.

Com oito anos, é denso e profundo no paladar, parecendo estar no auge, com seus taninos firmes e retrogosto muito vivaz.

PIZZATO CONCENTUS 2002
88 PONTOS

Essa foi a primeira safra do único vinho blend da vinícola e o nome faz referência ao "consenso" de todos os familiares na escolha do corte. Seus aromas iniciais mostram mais o álcool e fumo seco, dando a ideia de que está mais evoluído do que deveria.

Mas, na boca, a história muda, pois o vinho está íntegro, saboroso e parecendo quase fechado ainda. Na taça, com a aeração, mostra boa adstringência, taninos vivos e acidez em equilíbrio. Macio e gostoso, tem final de boca curto.

PIZZATO MERLOT 2000
86 PONTOS

Coloração rubi com toque acastanhado, seu aroma ainda preserva um fundo de fruta como ameixas secas. Boca bem redonda com taninos ainda presentes e boa acidez.

Evoluído, mas ainda vivo aos 12 anos.




CORDILHEIRA DE SANTANA TANNAT RESERVA ESPECIAL 2004
88 PONTOS

Rubi com toques de atijolado, com aromas frutados evoluídos, esse Tannat vindo da fronteira com o Uruguai teve oito anos para acalmar seus taninos e, por conta disso, é macio e gostoso de beber, apresentando ainda vivacidade, frescor e harmonia. Ganhou leveza com o passar dos anos, mas sem perder estrutura.


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Vinhos avaliados

Brancos

LOTE I - CHARDONNAY VILLA FRANCIONI
91 PONTOS

Linda coloração amarelo citrino, muito brilhante. Mas o que atrai mesmo são os aromas de frutas cítricas frescas, com fundo de maracujá e noz macadâmia, que exalam tipicidade. Na boca, o frescor está preservado de forma surpreendente, como se o vinho fosse muito mais jovem, mas com elegância e complexidade de sabores que apenas o tempo atribui aos grande brancos.

É uma combinação de vinhos das safras de 2004 e 2005, de uvas de São Joaquim, terra alta e fria de Santa Catarina.

CORDILHEIRA DE SANTANA GEWÜRZTRAMINER RESERVA ESPECIAL 2004
89 PONTOS

Esse vinho vem sendo provado por ADEGA nos últimos anos (pois ainda é possível conseguir algumas garrafas no mercado) e sua evolução é espetacular. Embora os aromas orais ainda estejam bem presentes, começa a mostrar um fundo de geleia de mexericas e pêssegos.

Na boca, continua macio, com sua mineralidade ainda aparente, principalmente no retrogosto. Depois de oito anos engarrafado, ainda tem boa cor, fruta e um agradável frescor nal. Excelente constatação.

CORDILHEIRA DE SANTANA CHARDONNAY RESERVA ESPECIAL 2005
88 PONTOS

Aromas intensos, com mel de laranjeira, bala toffee e damascos. Cor amarelo brilhante e límpida. Na boca, está denso, quase oleoso, longo e elegante. Se parece ter perdido algo aos sete anos, é um ligeiro frescor.

Mas sua estrutura é tão rme e complexa que a boca é uma delícia, que chega ao nal com abacaxi em calda no retrogosto.

Espumantes

GRAN RESERVA CASA VALDUGA EXTRA BRUT 2006
90 PONTOS

Linda coloração amarelo citrino, muito brilhante e com borbulhas delicadas e intensas. É um desses vinhos que ao entrarem na boca pedem um minuto de contemplação, dado seu bom volume e sabor atraentes. Os aromas de leveduras são intensos, mas na boca há frutado, acidez e excelente equilíbrio. Sua baixíssima carga de açúcar reforça o oral no retrogosto. Delicioso.


CAVE GEISSE BRUT 1998 MAGNUM
92 PONTOS

Dizer que esse espumante é amarelo-claro, com perlage intenso e muito no, bons aromas de leveduras, castanhas e frutas tropicais, além de excelente acidez e volume de boca, é quase uma injustiça, embora tudo isso seja verdade. Esse Brut, que ainda está à venda no mercado, será "degorgeado" apenas quando a compra se concretizar. Até lá, ele permanece em seu sono de beleza nas caves de pedra em Pinto Bandeira. Mas, ao abrir a garrafa Magnum, o líquido que se sorve é puro prazer, intensidade, crocância e corpo, uma raridade que só melhorou com o tempo.

DON GIOVANNI BRUT OURO SAFRA 2000
89 PONTOS

Para preservar sua estrutura, o dégorgement desse vinho foi feito em fevereiro de 2012. Cor ouro como o nome, tem perlage intenso e muito miúdo.

Os aromas das leveduras recém-liberadas tomam o nariz de assalto, mas evoluem namente para um cítrico oleoso, como casca de laranja. Boca fresca e volumosa, com ligeiro amargor nal. De sabor excelente, tem belo corpo e nal de boca quase doce, com oral no retrogosto.

Sílvia Mascella Rosa

Publicado em 16 de Março de 2012 às 11:38


Terroir Brasil

Artigo publicado nesta revista