Região de Mendoza reúne altitude, terroir e diversidade que explicam sua reputação
por Eduardo Milan

A consolidação da Argentina como produtora de vinhos de alto nível passa, em grande parte, pela evolução de regiões capazes de expressar identidade própria. É nesse contexto que o Vale de Uco, na província de Mendoza, ganhou protagonismo ao longo das últimas décadas.
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Até pouco tempo, o país ainda enfrentava resistência quando o assunto era produzir vinhos com forte senso de origem, comparáveis aos grandes rótulos do mundo. Esse cenário começou a mudar a partir dos anos 1990, com investimentos em áreas de maior potencial qualitativo — entre elas, o Vale de Uco, hoje uma das zonas mais dinâmicas da vitivinicultura argentina.
O crescimento foi rápido. No início dos anos 2010, a área plantada já se aproximava de 26 mil hectares, praticamente o dobro do registrado no começo dos anos 2000. Esse avanço reflete tanto a chegada de novos projetos quanto o interesse de vinícolas tradicionais em expandir sua atuação na região.
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Atualmente, cerca de 75% dos vinhedos são ocupados por uvas tintas, com destaque para Malbec, Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon, Merlot e Pinot Noir. Entre as brancas, Chardonnay, Sémillon e Sauvignon Blanc lideram, além de variedades como Viognier e Torrontés.
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Localizado ao sudoeste da cidade de Mendoza, aos pés da Cordilheira dos Andes, o Vale de Uco se diferencia pelas condições naturais. Os vinhedos estão entre 850 e 1.700 metros de altitude, em uma região de clima temperado, com invernos rigorosos e verões quentes, mas com noites frias.
A amplitude térmica — que pode chegar a 16°C — prolonga o amadurecimento das uvas, favorecendo o desenvolvimento aromático e preservando a acidez. Os solos são predominantemente pedregosos, com boa drenagem e baixa fertilidade, além de presença de calcário em algumas áreas, fator associado à produção de vinhos mais complexos.
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Outro ponto relevante é o baixo índice de chuvas, que permite maior controle da irrigação, geralmente feita com água de degelo. Esse conjunto contribui para vinhos concentrados, estruturados e com potencial de guarda.
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O Vale de Uco se estende por três departamentos: Tupungato, Tunuyán e San Carlos, cada um com características próprias.
Localizado mais ao norte, concentra vinhedos em altitudes elevadas, próximas de 1.300 metros. Dentro dele, Gualtallary ganhou destaque nos últimos anos, com solos ricos em calcário e clima mais frio. Os vinhos tendem a apresentar maior frescor, acidez marcada e perfil mais austero.
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Considerado o centro do vale, abriga áreas como Paraje Altamira e Vista Flores. Altamira, delimitada oficialmente em 2013, tem solos calcários e produz tintos que equilibram estrutura e elegância. Já Vista Flores ficou conhecida por vinhos mais concentrados, embora estilos mais frescos tenham ganhado espaço recentemente.
Ao sul, é a área mais antiga da região. Com vinhedos também em altitude, combina tradição e novos projetos, mantendo relevância na produção de vinhos de qualidade.
Um dos fatores que explicam o avanço do Vale de Uco é o trabalho detalhado de estudo de solos. Vinícolas têm investido em mapeamentos para identificar as melhores variedades para cada parcela, prática que ainda está em desenvolvimento, mas já influencia o estilo dos vinhos.
Esse movimento acompanha uma tendência global: menos foco em volume e mais atenção à origem e à especificidade do terroir.
Embora o vinho seja o principal atrativo, o Vale de Uco também se consolidou como destino turístico. A região oferece paisagens de montanha, atividades ao ar livre e visitas a vinícolas, muitas com restaurantes e experiências integradas.
Entre parques naturais, esportes e roteiros gastronômicos, o turismo complementa a atividade vitivinícola — mas, assim como no vinho, o diferencial está na relação entre território, clima e produção.
No fim, é essa combinação que explica por que o Vale de Uco se tornou uma das regiões mais observadas da Argentina: um lugar onde a busca por identidade deixou de ser promessa para se tornar resultado.
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