Praga ameaça vinhas centenárias e produtores adotam medidas de contenção

por Redação
A filoxera, praga que historicamente devastou vinhedos em todo o mundo, foi detectada pela primeira vez nas Ilhas Canárias, com casos confirmados em dois pontos da ilha de Tenerife. A descoberta ameaça diretamente o patrimônio vitivinícola local, composto por vinhas centenárias e não enxertadas, característica rara mantida por séculos no arquipélago.
De acordo com a Decanter, o primeiro foco foi identificado em 1º de agosto, em um vinhedo abandonado no Valle de Guerra, após suspeita de que a praga tenha se espalhado a partir de mudas infectadas plantadas por um morador em seu jardim.
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Um segundo caso foi reportado recentemente em La Matanza de Acentejo, também no norte de Tenerife. Sem tratamento químico eficaz contra a filoxera, a principal medida de controle é enxertar as videiras de vitis vinifera em porta-enxertos americanos, resistentes ao inseto — prática não adotada na maior parte das plantações locais.
A confirmação levou à realização de uma reunião de emergência em 8 de agosto, reunindo produtores de todas as ilhas vinícolas do arquipélago. A Associação de Viticultores e Produtores de Vinho das Canárias (AVIBO) emitiu orientações para que todos os casos suspeitos sejam comunicados imediatamente e para que se reforcem medidas de prevenção, como desinfecção de roupas, calçados e ferramentas, além de evitar o transporte de folhas e restos vegetais durante a colheita, que já está em andamento.
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O temor é que a grande quantidade de vinhedos abandonados facilite a propagação rápida da praga. Produtores como Agustín García Farráis, da Bodegas Tajinaste, alertam que a prática tradicional de seleção massal e troca de material vegetativo entre vizinhos pode acelerar a perda de vinhedos de raízes próprias, comprometendo um legado construído ao longo de gerações.
O presidente da Denominação de Origem Islas Canarias, Juan Jesús Méndez, classificou a situação como um dos maiores desafios para o setor, defendendo ação coordenada para proteger o patrimônio vitícola. Seu filho, o enólogo Jorge Méndez, destacou que o episódio deve servir como alerta para o controle rigoroso de novas introduções de plantas e para a profissionalização do setor.
Com fluxo anual de 16 a 18 milhões de turistas, as Ilhas Canárias recebem elevado volume de trânsito internacional. Produtores pretendem pressionar o governo regional por regulamentações mais rígidas e mecanismos de proteção, a fim de preservar um patrimônio vitivinícola de 500 anos antes que a disseminação da praga se torne irreversível.