Folia em terras lusas

Na Quinta da Aveleda, a arquitetura se une à natureza e se torna muito mais do que apenas detalhe. Lá, arquitetura é arte realmente


No século XV, entre as populações rurais lusitanas, pessoas interpretavam uma espécie de dança que teria o poder de transportar a mente para outra dimensão, deixando para trás o corpo e o mundo material. Essa tal dança era a Folia, e naquela época todo momento de inspiração artística passou a ser chamado de Folia.
Em arquitetura, Folia virou Folly - palavra que designa uma edificação de estrutura sem razões funcionais, uma manifestação de puro devaneio por parte de quem a projetou. E onde encontrar Follies nos tempos de hoje, em que tudo precisa ter uma utilidade, uma justificativa além da beleza? Na Quinta da Aveleda, ora pois!

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Residência é rodeada por diversos "enfeites" arquitetônicos conhecidos por Follies

Follies
O que mais impressiona os visitantes dessa quinta talvez seja a perfeita relação entre as estruturas da propriedade e a paisagem natural. A "Residência", por exemplo, é cercada por filas de azáleas, rododendros, camélias e sobreiros. Ao fundo de uma longa avenida, essa construção em estilo afrancesado se camufla entre flores e plantas e só não passa desapercebida graças ao seu tamanho monumental.
Contudo, monumental mesmo, só a "Janela Manuelina". A obra, uma das mais belas da quinta, faz parte do patrimônio nacional português. Veja o porquê em um trecho da publicação "Portugal Pitoresco", de 1885: "Na grande e formosa Quinta da Avelleda, vê-se a janella histórica cujo merecimento artístico é realçado pelo facto de ser d'esse formoso balcão que, no Porto, se fez a aclamação official de D. João IV".

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A janela - que pertencia a um dos prédios demolidos da família Guedes, proprietária da quinta - foi restaurada e hoje se encontra no meio do Lago Grande, numa ilhota, atraindo turistas de Portugal e do mundo.
Numa outra ode à natureza e às antigas gerações da quinta, foi edificada em pedras brutas a "Torre das Cabras", que tem três andares e uma rampa em espiral de madeira para abrigar cabras anãs, símbolos de fertilidade e abundância.

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Fontes de Folia
Além de constituir um notável exemplo de arquitetura em granito, característica da região norte de Portugal, a "Fonte das Quatro Irmãs" representa a dinâmica da vida em constante mutação, o fim que retorna ao princípio. Erguida na década de 1920, a fonte foi finalizada pelo Mestre João da Silva, que gravou nela os perfis em mármore das quatro irmãs Guedes, filhas do então proprietário da quinta, Fernando Guedes.

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Cada senhora personifica uma das quatro estações do ano ou, em outra perspectiva, as diversas fases na dança perpétua da vinha e do vinho, sempre igual e sempre diferente. No seu conjunto, esta

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Janela Manuelina (logo acima) faz parte do patrimônio de Portugal

estrutura é a expressão simbólica da completude de um ciclo, da totalidade que conduz à perfeição. Outra imponente estrutura de granito, dedicada à Nossa Senhora de Vandoma, também se faz notar nos jardins da Aveleda. A fonte, do século XVII, representa um homem de cuja boca brota água cristalina, que corre aos pés num leve murmúrio, bem diferente dos murmúrios que levaram o fundador dessa quinta a trocar tudo pelos vinhos.

História
Um dia, nos idos de 1850, Manoel Pedro Guedes de Silva da Fonseca, então Presidente da Câmara dos Deputados de Penafiel, ficou entediado da vida na capital e da política e foi viver na Aveleda. Ele, então, dedicou-se à propriedade plantando vinhas, fazendo obras, desenvolvendo as estruturas da quinta - construiu até uma adega com capacidade para 300 pipas. O ex-deputado acreditava plenamente no futuro da quinta e foi comprando inúmeras terras para aumentar a propriedade. Hipotecava terras para poder comprar mais terra e desta forma expandiu o patrimônio agrícola até Penafiel.

Em 1946, os netos de Manoel constituíram uma sociedade agrícola para administrar o que o avô deixara. Neste período, a quinta se desenvolveu bastante, graças ao vertiginoso aumento das vendas de Vinho Verde para o Brasil e para as ex-colônias na África. Assim, a propriedade cresceu e os follies se multiplicaram, para a alegria dos que apreciam arte e bons vinhos também.

Luís Carrasco

Publicado em 15 de Julho de 2009 às 05:05


Enoarquitetura

Artigo publicado nesta revista