Lendas do Vinho

John Duval: “É preciso muita cerveja para fazer um grande vinho”


Em 1991 você é premiado “Enólogo do Ano” pela International Wine and Spirit Competition, no Reino Unido. Acumula esse título com o prêmio de melhor enólogo de vinhos tintos. Em 1995, você elabora o primeiro vinho de seu país a ser premiado “Vinho do Ano” pela Wine Spectator. Em 2000, novamente recebe o prêmio de melhor enólogo de vinhos tintos do mundo pela International Wine and Spirit Competition. A esta altura, você se tornou uma lenda entre os enólogos e uma marca de qualidade para a empresa em que trabalha, com emprego garantido para o resto da vida.

Aqui poderia se encerrar a história de John Duval, que elevou o Shiraz australiano, mais especificamente o Penfolds Grange 1990, à categoria de cult wine global. Mas, em 2002, Duval pediu demissão, para iniciar seu projeto familiar. Quem não teve o privilégio de conhecê-lo poderia imaginar um australiano expansivo, pronto a dizer como deveria funcionar o mundo do alto de seu sucesso e prestígio. Mas, na verdade, ele é uma pessoa humilde, que fala baixo, é extremamente educado e dono de um humor inteligente e perspicaz.

Uma de minhas passagens preferidas entrevistando grandes personalidades do mundo do vinho se deu justamente com Duval há 10 anos. Ao saber que, para definir o corte do Pangea (projeto que ele e Felipe Toso conduzem no Chile), eles degustam uma centena de cortes, saem para tomar uma cerveja, e só daí decidem; perguntei como era esse processo e a resposta simplesmente foi: “É preciso muita cerveja para fazer um grande vinho”.

Praticamente uma década depois, sentamos para conversar e degustar com John Duval e Felipe Toso. Toso é enólogo-chefe da Viña Ventisquero, criador de alguns dos projetos mais interessantes do Chile, como Tara, no vale de Huasco, por exemplo. Ele também é uma das pessoas mais generosas que conheço. E veio ao Brasil para acompanhar o amigo nessa conversa. John e Felipe iniciaram seu trabalho com o Syrah Pangea e continuam trabalhando juntos em tantos outros vinhos no Chile, como o GSM, um corte do Rhône, o mesmo dos primeiros vinhos do projeto familiar, John Duval Wines, iniciado em 2003, e que até 2010 focou nos tintos. Em 2010, Duval iniciou a produção de seu único branco e, em seu estilo sarcástico, explica que decidiu fazê-lo, pois “estava cansado de servir vinho branco dos outros nos jantares”. A decisão do que fazer seguiu a lógica de seus tintos, por isso, Plexus White é um corte de variedades do Rhône: Marsanne, Roussanne e Viognier.

 

Depois do Grange

A vinícola fica em Barossa, e as uvas de seus vinhos vêm de viticultores que John conheceu nos 29 anos de Penfolds, que ele diz terem sido cruciais para identificar e acessar as melhores uvas da região.

Seu primeiro vinho foi Plexus Red, safra 2003, e havia grande expectativa sobre o primeiro vinho de John Duval pós-Penfolds. Ele conta: “Muitas pessoas me aconselharam a lançar um Shiraz com preço altíssimo, mas quis que o primeiro vinho com rótulo da minha família, apesar de não ser comercial, fosse acessível para que as pessoas pudessem comprar e beber. Queria estabelecer meu negócio familiar sobre estas bases”. Assim nasceu um GSM, com um pouco mais de Shiraz do que o normal, cerca de 50%.

 

Uma nova onda

Em seus quase 30 anos de Penfolds, John Duval ajudou a liderar a vitivinicultura da Austrália em seu período de ouro no reconhecimento internacional. Infelizmente, esse reconhecimento não aconteceu no Brasil. Entre diversos fatores, atribuo isso principalmente à concentração dos grandes vinhos australianos em uma importadora que não os promoveu. Numa antítese do que aconteceu com outras regiões como o Alentejo. Acredito que é por isso que Duval e seus vinhos permaneçam um tesouro a ser descoberto por aqui. Não vivemos o período dos blockbusters australianos, mas felizmente temos a oportunidade de participar dessa fase em que a força não se perdeu, mas – como sempre foi o caso de Grange e na forma como John Duval desenha seus vinhos – encontrou equilíbrio, vibração e textura.

Duval e Toso são fãs de barricas de formato maior para encontrar a interação perfeita da madeira com o vinho. Toso ama os foudres pelo que aportam ao vinho, mas também por “serem tão lindos. É como um piano da calda na sala de casa”. Ele confessa que conseguiu ter seu piano na sala argumentado a seu chefe que “uma barrica eu uso por cinco anos e um foudre por 10 a 20 anos”. E John Duval acrescenta que “outra coisa positiva é que, no caso dos foudres, se você quiser tirar o piano da sala, é só rolar para fora”.

Plexus, em latim, significa a combinação de elementos para formar uma estrutura. Annexus é o anexo, e ele nasce a partir de Plexus, apenas 250 caixas de Grenache e 250 caixas de Mataró, a forma como os produtores locais chamavam a Mourvèdre. Os vinhedos de Annexus Grenache são as vinhas mais antigas do norte de Barossa, com mais de 150 anos, e ficam a leste de Éden Valley. Segundo Toso, são “esculturas vivas”.

 

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Da redação

Publicado em 16 de Maio de 2020 às 10:11