O Brasil se expande

Um ano especial para a vitivinicultura brasileira. A safra 2010/2011 vai mostrar na taça a excelente combinação de trabalho humano, clima e tecnologia



Fotos: Divulgação

O outono bem definido vai deixando suas cores nas folhas das parreiras que, neste ano de 2011, suportaram seus cachos por um longo tempo. Em algumas regiões brasileiras a colheita ainda nem terminou e isso, por si só, é um dos sinais de uma safra bem diferente das últimas.

O inverno de 2010 foi rigoroso na maior parte das áreas que produzem uvas viníferas no país, propiciando uma dormência produtiva. O enólogo gaúcho Márcio Brandelli, dono de uma das mais jovens vinícolas brasileiras, a Almaúnica, no Vale dos Vinhedos, explica: “A planta precisa desse tempo frio para aprofundar suas raízes e assim extrair diferentes componentes do solo, e o frio também limita a ocorrência de pragas”. É durante o inverno, na poda seca, que os enólogos determinam qual é a produtividade que vão querer para a próxima safra, fazendo o que pode parecer uma aposta arriscada, considerando-se os caprichos da natureza.

No Brasil, nos últimos anos, a produtividade (ou carga, como é chamada) de cada parreira vem diminuindo, aproximando-se do que é praticado nos países com grande tradição vitícola. “Hoje alguns produtores já falam a mesma língua de seus colegas estrangeiros, deixando de lado as toneladas por hectare e falando em cachos por planta. Esse é um dos indicativos de qualidade”, explica Jefferson Sancineto Nunes, enólogo e agrônomo de Flores da Cunha.


Viticultura madura
A resistência a diminuir a produção por hectare foi um entrave ao ganho de qualidade. Mas a mudança – mesmo difícil – era essencial e muitos viticultores acabaram aceitando mexer em seus parreirais. Os resultados não tardaram a aparecer nas taças. “Todo enólogo sabe que o bom vinho começa no vinhedo. É impossível atender as exigências dos novos mercados e enfrentar a concorrência sem o olho posto no vinhedo”, diz Dirceu Scottá, diretor técnico da vinícola Dal Pizzol, em Faria Lemos.

Olhos nos vinhedos era precisamente o que Scottá e sua equipe tinham em meados do mês de fevereiro, quando uma chuva contínua baixou sobre grande parte da Serra Gaúcha e da Encruzilhada do Sul, importantes pólos de produção de uvas, bem próximo da colheita das tintas como a Merlot. Enquanto isso, o oposto ocorria na Campanha Gaúcha, onde a seca tomou conta do extremo sul do estado por quase dois meses.

Felizmente, a maior parte das uvas utilizadas para os vinhos base de espumante já haviam sido colhidas. O enólogo responsável pela vinícola Don Giovanni de Pinto Bandeira, Luciano Vian, contou que a safra de 2011 das uvas para espumante foi tão boa que superou a de 2005, emblemática para a produção brasileira, e os tintos estão seguindo o mesmo caminho. “As uvas estavam com excelente qualidade, bom equilíbrio entre acidez e maturação. Teremos produtos surpreendentes neste ano”, disse Vian.

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Foto: Gilmar Gomes

Garantindo o mercado
Produzir boas uvas para espumantes é hoje vital para as vinícolas, uma vez que a expansão do mercado consumidor passa necessariamente pelo produto. “O consumidor brasileiro tem recebido muito bem nossos espumantes, e as vinícolas têm tido que controlar seus estoques para não correr o risco de desabastecimento. Mas, em 2011, o volume de produção vai crescer, apoiado na boa qualidade das uvas e no mercado aquecido”, conta Christian Bernardi, presidente da Associação Brasileira de Enologia e enólogo da WinePark.


Alguns enólogos acreditam que a safra de 2011 pode superar a emblemática 2005

No ano passado, segundo dados do Ibravin, a venda de espumantes produzidos no Rio Grande do Sul – que concentra a maior parte da indústria nacional – cresceu 12%, com vendas que alcançaram 12,5 milhões de litros da bebida. As empresas que trabalham forte nesse mercado querem continuar crescendo este ano, e por isso estão investindo. É o caso da Salton, que recebeu 10 milhões de quilos de uvas brancas viníferas para a elaboração de vinhos e espumantes, prevendo um crescimento de 20% nas vendas e está implementando uma nova linha de engarrafamento.

As cooperativas Aurora e Garibaldi também estão investindo em equipamentos. A Aurora comprou 20 tanques de inox com controle de temperatura para seus vinhos top. João Rigo, agrônomo da Aurora, contou que a safra deste ano estava um pouco atrasada, mas a qualidade das uvas era bem acima da média dos últimos anos. “Todas as variedades de nossa produção deverão gerar vinhos de alta intensidade aromática, de cor e de açúcar (componentes essenciais para conseguir grandes vinhos)”, afirma Rigo. Já na Garibaldi, a colheita deste ano cresceu 32% em volume, com muita qualidade. Eles pretendem investir R$ 1,5 milhão no parque industrial, com compra de uma linha de engarrafamento para vinhos e sucos e de novas autoclaves para fermentação de espumantes Charmat.


Da Campanha até Santa Catarina

“Estamos finalizando esta safra com chave de ouro”, afirmou aliviado o enólogo Adriano Miolo, durante a última semana de colheita das uvas tintas na Campanha Gaúcha. Em um dia quente e límpido do começo do outono, na propriedade Seival Estate, em Candiota, eram colhidas as uvas Petit Verdot, que entrarão no corte da segunda safra do ícone Sesmarias. O enólogo-chefe dessa unidade da Miolo, o português Miguel Ángelo V. Almeida, estava cansado e feliz com os últimos dias: “A Cabernet Sauvignon será colhida por último, pois a estiagem nos permitiu levá-la até o ponto ideal para os nossos vinhos”, contou Almeida, ao colocar as uvas recém desengaçadas em um dos novos tanques de criogenia, onde iniciam a vinificação sob baixíssima temperatura. Uma das inovações do Seival.

Do outro lado da Campanha, a Almadén terminava a colheita de seus 600 hectares. “Foi a primeira colheita mecanizada de uvas finas do País, utilizamos a máquina em 200 hectares de vinhedos, especialmente preparados para isso”, contou satisfeito o gerente Afrânio Morais.

Subindo em direção da Serra, a região de Encruzilhada do Sul sofreu com alguns reveses da estação de chuvas, mas nada capaz de prejudicar muito a produção de vinícolas como a Chandon, Angheben e Casa Valduga por exemplo, que têm terras por lá.

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Vinícolas estão investindo pesadamente, como é o caso da Miolo, com seus tanques de criogenia

Produtores comemoram bom ano para o vinho base de espumantes

Na Domno (em Garibaldi), uma das empresas do grupo Valduga, o otimismo com a safra é contagiante: “O vinho base para espumantes deste ano é quase perfeito”, comentou o enólogo Daniel dalla Valle, “até porque não existe perfeito”. “O verão de 2011 foi generoso na Serra Gaúcha, com sol suficiente para o bom acúmulo de açúcar nas uvas. Somando-se alguns dias nublados e chuvas esparsas que favoreceram o desenvolvimento de uma boa acidez e preservaram os aromas, características ideais para a produção de espumantes”, completou.

Já em São Joaquim (SC), as nuances climáticas foram diferentes, com granizo no final da primavera e algumas perdas que aconteceram bem no começo da brotação, diminuindo a produtividade em algumas regiões. Mas, enquanto o mês de abril se aproximava de seu final, a colheita mostrava bons resultados: “Conseguimos, com um trabalho intenso nos vinhedos, fazer com que as uvas iniciassem a maturação apenas em abril, garantindo assim (com a seca prevista para abril e maio) uma ótima qualidade. Isso significa a sanidade das uvas e a segurança de uma excelente safra”, contou o enólogo Orgalindo Bettú, da Villa Francioni.

Do outro lado da cidade de São Joaquim, a Fazenda Pericó comemora os bons resultados de uma safra com muita inovação. Nos vinhedos a 1.300 metros de altitude, as uvas Cabernet Sauvignon aguardam a temperatura baixar. “Já tivemos as primeiras temperaturas negativas aqui, mas ainda precisa baixar para 7 graus negativos para termos a possibilidade de pensar em repetir o Icewine”, comenta o proprietário da vinícola, Wandér Weege.

Neste ano a empresa vem aplicando tecnologias inovadoras em seu vinhedo, como a TPC (Thermal Pest Control), um controle térmico de doenças e pragas. Uma máquina à base de ar quente passa entre as parreiras imunizando as plantas e eliminando ou reduzindo significativamente o uso de agrotóxicos e pesticidas, sem causar danos à videira. Essa tecnologia foi trazida ao Brasil em 2008 pelo enólogo chileno Mário Geisse e já está em 22 vinícolas do País. “Neste vinhedo tivemos a possibilidade de fazer as escolhas que consideramos mais eficazes, como a de manter as plantas com maior área foliar, não utilizar coberturas mesmo com o risco de geada para maximizarmos a luz solar e o controle do TPC, que permite um vinhedo muito são, refletindo na qualidade das uvas”, explica o enólogo da Pericó, Jefferson Sancineto Nunes.

O vinhedo da Pericó também faz uso de pequenos carrinhos, com apenas 60 cm de altura, que passam entre as fileiras das videiras e são guiados por quem colhe as uvas. Sentados, com as mãos exatamente na altura dos cachos, a colheita fica mais fácil, confortável e permite que as uvas sejam melhor selecionadas.

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Fotos: Divulgação
Máquina antipragas da vinícola Pericó

Na também fria Flores da Cunha, parte das uvas tintas Merlot, Cabernet Franc e Sauvignon colhidas na vinícola Luiz Argenta estão dispostas sobre redes dentro da centenária casa da propriedade e submetidas ao livre fluxo de ar de enormes janelas, levando a uma secagem parcial. Esse processo, conhecido pelos italianos como “appassimento”, concentra o açúcar e permite a obtenção de um vinho de sobremesa muito distinto, inédito no Brasil. Deunir Argenta, um dos donos da vinícola, conta que a ideia para esse vinho foi do enólogo da casa, Edegar Scotergagna, que estudou e trabalhou na Itália: “Tivemos uma safra excelente, superior à de 2005, por isso resolvemos que era o momento de ousar”, disse Argenta.

Trabalhar com seriedade e comprometimento pode, nos anos em que a natureza ajuda, fazer com que a velha máxima “a gente colhe o que planta”, funcione a nosso favor. Nesta safra, ao que tudo indica, colhemos bons frutos.

Silvia Marcella Rosa

Publicado em 3 de Maio de 2011 às 08:27


Terroir Brasil

Artigo publicado nesta revista