Pequenos grandes vinhos

Diferentes em estilo, em números e até mesmo em conceitos, os vinhos de pequenos produtores existem no Brasil como um elogio à diversidade


"E, arrisco-me a dizer, a vida se torna mais interessante e, sim, mais bela, por causa desse tipo de resistência a regras rígidas de produção, aos ditames daqueles que definem grandeza munidos de réguas, tubos de ensaio e escalas de pontuação"(Neal I. Rosenthal, no livro 'Vinhos de Butique')

O autor da frase acima é um conhecido comerciante e importador de vinhos norte-americano que, em seu livro, conta boas histórias sobre mais de 30 anos de busca de vinhos singulares, em variados países e nos terroirs mais famosos do mundo.

O que ele valoriza em seu negócio (e seus clientes pagam para tomar) é a diversidade, é o vinho que - mesmo falando a linguagem honesta de um terroir - tenha características próprias e nunca faça o que ele chama de "concessão à uniformidade", que ele crê que seja tediosa e limitante, apesar de, em alguns casos, gerar sucesso comercial.


Limitações da modernidade

Tem-se discutido muito, entre mesas de gourmands e de negociação, como a globalização vem limitando os produtos gourmet, categoria em que grandes (e pequenos) vinhos também estão inseridos. Um caso claro e recente é o dos queijos franceses - reconhecidos no mundo por ter um produto diferente para cada dia do ano. Infelizmente, as regras de comercialização da Comunidade Econômica Europeia (CEE) criaram furos nessa massa de leite que resultaram no desaparecimento de alguns queijos apreciados, e até reverenciados, por consumidores exigentes e abastados. Eles simplesmente não se enquadravam nos ditames criados pela CEE e não podiam mais ser produzidos.

São poucos os que começam como "autores" e assim permanecem

Não há por que criticar regras rígidas de controle sanitário (especialmente depois das mortes causadas pela nova variação da bactéria E.Coli na Europa), mas, se elas chegam ao ponto de decretar a morte de um produto que é consumido há anos sem causar problemas na população, fica a suspeita de que o comércio globalizado tende a favorecer a uniformidade em detrimento da diversidade, criando - mais do que regras - impedimentos.

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Desse ponto de vista, muitos vinhateiros ao redor do mundo poderão ter sua morte decretada, causando não só a perda do sustento de muitas famílias, mas de uma diversidade que é, em sua essência, a maior riqueza do mundo do vinho.

fotos: divulgação
Vilmar Bettú, ex-professor de física, faz seus vinhos, literalmente, em uma garagem - como se vê nas fotos à esquerda e direita


Saindo da garagem

No Brasil, o movimento daqueles que ousam produzir vinhos diferentes é mais ondulatório do que retilíneo e, de tempos em tempos, parece correr o mesmo risco de extermínio que os queijos franceses. Verdade seja dita, pouca coisa na indústria vitivinícola brasileira segue as normas estabelecidas no Velho ou no Novo Mundo do vinho. Por aqui, a tendência é seguir a melhor e mais rápida maneira de ganhar dinheiro e fama. Por isso, são poucos os vinhateiros que começam como "autores" e assim permanecem. A tentação de crescer é imensa, mesmo que ela resulte no fato de ser "butique" apenas no nome.

A definição, convenhamos, não é clara, uma vez que os vinhos de garagem, ou de butique, ou de autor, têm em comum apenas a característica de serem produzidos em pequena escala, raramente atingindo grandes mercados, mesmo quando a vinícola ganha espaço na mídia e na taça do apreciador.

Usando novamente o exemplo francês, muitos produtores de regiões nobres entregam boa parte de sua produção aos négociants, que compõem um vinho quase comunal, sob uma denominação específica. Mas parte dessa produção pode ser engarrafada em separado por esse produtor, gerando um vinho especial, fora do comum, mas ainda dentro de uma denominação importante. Seria o equivalente (guardadas as devidas proporções) a uma cooperativa no Brasil pedir a um de seus cooperados que vinificasse em separado sua parcela de vinhedos, e essa produção mais específica fosse engarrafada sob outro rótulo.

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No entanto, o que os enófilos esperam de um vinho de garagem, de autor ou de butique, é que ele seja único e que não tenha quase amarras comerciais. Por isso, a impossibilidade de fazer esse vinho dentro de uma grande empresa e, por isso, também, sua raridade, uma vez que no Brasil as leis e a carga fiscal limitam esses processos em muitos casos. Alguns poucos, felizmente, conseguem escapar desse processo de pasteurização.

Tormentas de Marco Danielle, Aracuri sob o cuidado de Cristiano Zorzan, Bettú de Vilmar Bettú e Província de São Pedro de Anthony Darricarrére são exemplos de "vinhos de autor" no Brasil


L'enfant terrible

Amado por alguns (que compram seus vinhos em quantidades que permitem sua sobrevivência), criticado por muitos e até detestado por outros, Marco Danielle é a ovelha negra entre os produtores nacionais.

Dono de um "projeto" e não de uma vinícola, ele quase se curvou ao mercado mais tradicional quando se juntou a uma dupla de investidores para fazer vinhos em volumes maiores e de vinhedos próprios. Não deu certo. "Percebi que é mais fácil comercializar uma pequena produção que seja autoral, e que leve adiante meu projeto, do que querer crescer para atingir um mercado que chegou até mim pela diferença e não pela semelhança, e perdê-lo no meio do caminho", conta Danielle.

Pequenos podem se dedicar a uvas e processos "esquecidos" pelos grandes

Em 2010 (uma safra difícil tanto para pequenos quanto para grandes produtores), o Projeto Tormentas de Marco Danielle engarrafou apenas 1.100 garrafas. Neste ano, a produção foi bem melhor (ao menos o dobro), mas continua pequena e, em sua nona safra (a primeira comercializada foi em 2004), Danielle afirma que o Brasil dificulta a vida de quem quer fazer tudo dentro da lei, pois não faz diferença entre um produtor de 20 milhões de litros e um de 3 mil: "Empresarialmente é muito difícil sair do lugar, pois as regras - que temos que seguir para estarmos dentro da lei - são cada vez mais limitantes. É como se a ganância de alguns criasse uma reserva de mercado que impossibilita a diversidade", afirma.

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Os vinhos de Marco Danielle fazem jus ao nome do projeto. São capazes de atormentar aqueles que esperam bombas de frutas vermelhas, dulçor no final de boca e outras conformidades. Eles não têm adição de SO2, segundo Danielle não por algum efeito dramático, mas, sim, pela crença de que o conservante tem influência negativa no produto final. Os vinhos também não são filtrados e suas uvas não vêm de vinhedos próprios, sendo garimpadas entre produtores do Rio Grande do Sul, nos quais ele confia. São, na realidade, vinhos únicos, não conformistas, que irão bem nas taças dos curiosos sem preconceito.

Vinhedos (10,2 hectares) da Aracuri são próprios, mas vinificação é feita em outra vinícola

Sim, ele existe!

Os pequenos produtores no Brasil existem nas formas mais variadas, seja um apreciador que resolveu dedicar os anos de sua aposentadoria ao prazer adquirido em degustações e viagens (caso da vinícola catarinense Pericó, do empresário aposentado Wandér Weege), seja um empresário cuja renda principal não vem da venda de vinhos (caso de Nathan J. Churchill, que comprou uma barrica de carvalho americano e as uvas de um enólogo amigo para fazer um dos vinhos brasileiros mais notáveis - o Cabernet Franc Churchill), ou amigos que decidem investir em um negócio por vezes diferente de sua antiga área de atuação, como é o caso da Aracuri, no município de Muitos Capões, norte do estado do Rio Grande do Sul, perto de Vacaria.

O jovem enólogo Cristiano Zorzan deixou há três anos seu trabalho na Embrapa para ser contratado pela pequena vinícola cujas micro-vinificações ele mesmo fazia, e cuidar dos vinhedos e dos vinhos. "Os dois sócios são amigos que apreciam vinhos, têm ligação com a terra da região e boas relações comerciais", explica, "e me deram a liberdade de fazer vinhos honestos, delicados e harmônicos, com a cara do terroir de Campos de Cima da Serra".

Embora os 10,2 hectares de vinhedos sejam próprios, a pequena vinícola precisa terceirizar seus processos, colocando seus tanques e barricas em instalações maiores, de outra vinícola. Tudo sob o olhar atento de Zorzan, que controla de perto todas as fases, quase como se a área de produção estivesse em terras próprias.

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Imbuídos do respeito pelo terroir que norteia os dois rótulos que estão no mercado, mesmo tendo sofrido perdas da ordem de 90% de suas uvas nesta safra - por conta da chuva de granizo que caiu sobre os vinhedos em novembro do ano passado -, a Aracuri não comprou uvas de ninguém. Selecionou com mais rigor sua pequena produção restante e pretende engarrafar apenas o que de mais especial ficou: "Faz parte de nosso conceito trabalhar assim, respeitando a natureza e não disfarçando os vinhos", resume Zorzan.

fotos: divulgação

A Europa como norte

Anthony C. Darricarrére é uruguaio de nascimento, sua família tem origem francesa, ele estudou enologia em Bento Gonçalves e casou-se com uma brasileira. Para completar esse quadro com tantas nuances, estagiou em Bordeaux e na Califórnia, na vinícola de Robert Mondavi.

Cabernet Sauvignon é sua uva de escolha e os campos de Rosário do Sul, na Campanha Gaúcha, o seu terroir. Sua pequena vinícola chama-se Província de São Pedro (em parceria com outro descendente de franceses) e dedica-se a vinhos brasileiros de estilo europeu. "Acredito que o Cabernet Sauvignon daqui vai surpreender muita gente. É um vinho com bom equilíbrio, sem excesso de álcool, feito com uvas de excelente maturação fenólica, bem ao estilo do Velho Mundo, coisa que no Brasil é mais fácil de obter em pequenas produções", conta Darricarrére.

Mas mesmo com o estilo de fazer vinho do Velho Mundo e a pequena produção (são apenas 5 hectares de vinhedos e um rótulo comercial), a vinícola não perde de vista algumas das vantagens da modernidade, como as instalações que privilegiam a pouca movimentação do mosto e dos vinhos e a comercialização mais moderna que inclui um olhar atento ao consumidor: "Quero fazer vinhos que meu cliente entenda e aprecie, e que ele consiga tomar acompanhando uma refeição sem se sentir pesado ou cansado do vinho", finaliza.

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Cantineiro e engenheiro

Alheio a rótulos, ou melhor, ele não aprecia ser chamado de garagista por achar que a nomenclatura nem sempre guarda o significado correto, o engenheiro mecânico e ex-professor de física Vilmar Bettú é a controvérsia em pessoa.

Seus vinhos são, literalmente, de garagem. Feitos em parte no subsolo da casa de seu pai, numa área quase rural da cidade de Garibaldi e parte numa garagem ao lado, alguns deles revelam na taça sutilezas de sabores que são, como seu criador, alheios a regulamentos. Encantadores e impossíveis, são tudo, menos óbvios.

Garagistas levam adiante a bandeira da diversidade

Os poucos escolhidos para degustar as criaturas ao lado de seu criador são tomados pela prosa fácil, por vezes irônica, recheada de afirmações que visam reforçar sua independência em relação a tudo que é pré-estabelecido: "Não tenho compromissos, nem pessoais nem profissionais, por isso não tenho preconceitos com uvas ou com estilos, faço o que quero, da forma que acho que vai funcionar melhor", afirma Bettú, com um sorriso maroto.

Explorador de uvas pouco utilizadas no Brasil (como Rebbo, Pinotage e Barbera, por exemplo), de técnicas que muitos consideram rústicas ou antiquadas (como o lagar de madeira onde as uvas são pisadas) e do costume - que aterroriza alguns enófilos - de guardar seus muitos (podem chegar a 30) varietais recém vinificados em garrafões para combiná-los da forma que mais lhe agrada em determinado momento, Bettú é o cantineiro por excelência.

Darricarrére produz apenas um rótulo em seus 5 hectares de vinhedos (foto ao centro) e suas pequenas, porém modernas, instalações. Sua inspiração vem do Velho Mundo, assim como Nathan Churchill, que produz seu rótulo desde 2006

"As grandes empresas não podem se dar a esse luxo ou a esse trabalho, elas precisam estar no mercado mesmo que as uvas não estejam boas como deveriam. Se tenho boas uvas faço o vinho, guardo e combino como quero, ou não", conta.

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Há menos folclore do que pode parecer à primeira vista. Vale dizer que a família Bettú cultiva uvas há décadas e conhece bem muitos produtores da região da Serra Gaúcha. A filha de Vilmar Bettú é enóloga e trabalha em uma importante empresa da região, e seu irmão mais novo é o talentoso enólogo responsável pela vinícola Villa Francioni (de Santa Catarina), Orgalindo Bettú.

Ainda assim, os vinhos de Bettú são transparentes em sua honestidade. Custam caro muitas vezes, não têm apelo comercial forte (embora sejam vendidos em alguns bons restaurantes), mas somam em si os atributos esperados de um vinhateiro original, que compreende e admite que os vinhos precisam evoluir, mas com caráter. "30 anos atrás os vinhos desta região eram intragáveis e isso mudou para melhor em muitos aspectos. Mas, em outros, a indústria tomou conta do que poderia ser original e a mudança achatou os gostos", finaliza.

Bettú em sua garagem, Danielle em seu projeto, Nathan Churchill e seu vinho singular e homônimo e tantos outros enólogos e vinhateiros, que levam adiante pequenos sonhos em forma líquida, são as assinaturas do pacto da diversidade que todo país que deseja levantar sua taça no mundo do vinho deve respeitar e dar espaço. Cada vinho é singular, mas o espaço deve ser plural.

Sílvia Mascella Rosa

Publicado em 28 de Junho de 2011 às 11:37


Terroir Brasil

Artigo publicado nesta revista