Ouvideira

Versos Vinhos

Em suas lendas, em suas cantigas, adagiário e em seus versos mais nobres, os lusitanos nos inebriaram com saudações memoráveis ao vinho e seus efeitos


João Paulo

No folclore do Baixo Alentejo, há uma velha lenda. Logo após o Dilúvio Universal, um homem, sua esposa, seu irmão e sua cunhada - dois casais com numerosa prole - habitavam uma cabana feita de paus e colmo.

Não sabiam ainda cultivar a terra. Os homens caçavam e as mulheres colhiam do que crescia espontaneamente. Cereais e árvores frutíferas e arbustos, como a vinha, lhes serviam.

Em setembro, os roxos cachos eram fartos. E aquelas donas primordiais provaram de seus bagos e os acharam doces e saborosos. Fartaram-se deles e os deram a seus filhos. Guardaram uma parte do que apanharam e a reservaram num tronco oco, tampado com uma madeira fina encimada de pedras pesadas.

Esqueceram- se disso. Passadas semanas. O tampo frágil cedeu ao peso das pedras, que caíram sobre os cachos, esmagando as uvas. Tempo depois, uma das mulheres foi recorrer ao vasilhame para depositar nele outras colheitas. Atestou, com espanto, em seu fundo, um líquido rubi e os bagos esmagados, com os engaços secos. Bebeu-o por curiosidade, achando-o bom.

Chamou a cunhada que também dele tomou. De gole em gole, ficaram tontas e sem equilíbrio, mas tomadas de uma alegria interior sem explicação, que as levou a gargalhar. À noite, quando regressaram os maridos da caçada, espantaram-se com o estado das rudes mulheres.

Deram- lhe para provar e eles, embevecidos, igualmente o aprovaram. "Havia sido feita uma grande descoberta, é que aquele líquido proveniente das uvas que havia fermentado, era vinho. Estava descoberto o vinho.

Depois disso, este só veio a aperfeiçoar-se com o processo de o fabricar", como narra Manuel Joaquim Delgado, em "A Etnografia e o Folclore no Baixo Alentejo" (Edição da Assembleia Distrital de Beja).

Quadras

Longe de ser um caso isolado, este conto simboliza uma longa tradição. Os populares vem dedicando, ao longo dos séculos, saborosas quadras à bebida. Já que passamos pelo Baixo Alentejo, comecemos com uma que circula por lá: "Venha o copo, venha a pinga, Venha mais meia canada; Eu sem o copo não bebo, Sem o vinho, não sou nada."

Outro bom exemplo é uma quadra sobre a vindima, recolhida nos anos 20 pelo etnólogo Luís Chaves, em Santa Vitória do Ameixial: "Ó parreira, dá-me um cacho, Ó cacho, dá-me um baguinho; Amor, dá-me um abraço, que eu te darei um beijinho."

Ou ainda, como no cancioneiro popular de Borba, uma variação da quadra alentejana: "Amorzinho, vinho, vinho Água não posso beber; Água fria me faz mal Tenho medo de morrer. Amorzinho, vinho, vinho Deita lá meia canada Amorzinho, vinho, vinho Sem o vinho não sou nada."

Canções de beber

Portugal também tem em sua tradição as deliciosas canções de beber (ou cantigas de bebedores), como esta, recolhida por Michel Giacometti para o "Cancioneiro Popular Português": "Rapazes, meninos fazem de santinhos e bebem os vinhos na venda, Senhor. Nizas e casacos, capas e capotes entornam aos potes na venda, senhor.

Soldados, paisanos, mulheres, raparigas bebem jeropigas na venda, senhor.Também o Quintela com fama de rico, vi molhar o bico na venda, senhor. Até o sacrista, gordinho e contente, emborca aguardente na venda, Senhor.

Adágios

Saborosíssimas, como os adágios que proliferam entre essa gente. Tantos que não caberiam aqui. "Em fevereiro chuva, em agosto uva", "Com o tempo amaduram as uvas", "Cava de agosto enche o tonel de mosto", "Muita parra, pouca uva", "Feitas as vindimas, guardam-se os cestos", "Vinho e amigo, o mais antigo", "Gota a gota o tonel se esgota", "Poda curta, vindima longa", "Quem bebe e canta, seu mal espanta" e assim por diante.

Anedotas

E o anedotário também rende: "Para o vinho ficar bem provado, observam os amigos de Baco a seguinte regra:
O primeiro (copo) bebe-se inteiro,
O segundo, até ao fundo,
O terceiro, como o primeiro;
O quarto, como o segundo;
O quinto bebe-se todo;
O sexto, do mesmo modo;
O sétimo bebe-se cheio;
O oitavo, duas vezes meio..."

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Poetas

Os portugueses, do camponês mais simples ao aristocrata mais empedernido, amam o vinho inquestionavelmente. Estrabão, historiador, geógrafo e filósofo grego, do século anterior à Era Cristã, já mencionava em seus escritos - sobre aquele Portugal Celta - o cultivo do vinho na região do Douro, consumido nos banquetes familiares.

Desde então, a bebida estaria presente não apenas na fala sábia do povo, que bebe o vinho que há, mas também em grande parte da fina poesia portuguesa, de Camões aos poetas contemporâneos, passando pelo grande Fernando Pessoa. Afinal, como na frase atribuída a Robert Louis Stevenson, "o vinho é poesia engarrafada".

Camões

Se, nos versos do francês Raúl Ponchon, "vinho dá poesia, poesia dá vinho", um rápido passeio nos leva a beber com os poetas. Melhor do que falar deles, seria lê-los.

E o primaz deles em terras lusas, aquele que forjou a língua enaltece o buquê do vinho e saúda o mouro, em dois fragmentos de "Os Lusíadas" (cerca de 1556), selando um destino de navegadores destemidos, entre ninfas e invasores: "Ali, com mil refrescos e manjares, Com vinhos odoríferos e rosas, Em cristalinos passos singulares, Fermosos leitos, e elas mais fermosas. Enfim, com mil deleites não vulgares, Os esperem as ninfas amorosas, De amor feridas, pera lhe entregarem Quando delas os olhos cobiçarem." (IX, XLI) "Recebe o Capitão alegremente O Mouro e toda sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só pera este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce e dá-lhe o ardente, Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe, E muito mais contente come e bebe." (I, LXI)

Bocage

Não é Camões quem inaugura uma rica tradição de versos em honra ao vinho em terras ibéricas.

Antes dele, trovadores medievais, em suas cantigas de amor e de amigo, se inebriaram, mas, sobretudo os satíricos e malditos, herdando a poesia dos Goliardos - clérigos pobres, saídos das universidades, que, no século XII, infernizavam a vida da Igreja, com seus cantos aos prazeres mundanos.

Um herdeiro bem posterior dessas tradições é, sem dúvida, Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805). Até o vinho azeda em seus versos, dirigidos publicamente a notórias figuras da época, com virulência máxima: "Uma noite o Scopezzi mui contente (Depois de borrifar a sacra espada Que traz de rubra fita pendurada Com cuspo, e vinho, que vomita quente): Conversava co'a esposa em voz tremente Sobre a grande ventura inesperada De ser a sua Plácida adorada Por um Marquês tão rico, e tão potente: A velha lhe replica: Isso é verdade; Enquanto moça for, nunca o dinheiro Faltará nesta casa em quantidade. 'Mas tu sempre és o tafulão primeiro: Pois tendo cabrão sido noutra idade, És agora o maior alcoviteiro!'" Bocage, XXVIII Soneto do Corno Interesseiro

Gil Vicente

Outro que não poupava ninguém era Gil Vicente, o primeiro grande dramaturgo português, que, em suas redondilhas, também não se furtou de incluir o vinho, como no "Auto da Índia" (1509):
"MOÇA: E ostras trazerei delas?
LEMOS: Se valerem caras, não: antes traze mais um pão e o vinho das Estrelas.
MOÇA: Quanto trazerei de vinho?
LEMOS: Três pichéis deste caminho.
MOÇA: Dais-me um cinquinho, nô mais?
LEMOS: Toma aí mais dous reais."

Melhor ainda, em "Pranto da Maria Parda" (1521), na qual, logo de início, lança: "Pranto da Maria Parda, porque viu as ruas de Lisboa com tão poucos ramos nas tavernas e o vinho tão caro, e ela não podia viver sem ele..."

Pessoa, Ricardo Reis

E Pessoa? Ah! Pessoa... Saramago o definiu como "um homem que sabia idiomas e fazia versos. Ganhou o pão e o vinho pondo palavras no lugar de palavras, fez versos como os versos se fazem, como se fosse a primeira vez.

Começou por se chamar Fernando, pessoa como toda a gente. Um dia lembrou-se de anunciar o aparecimento iminente de um super-Camões, um camões muito maior que o antigo, mas, sendo uma pessoa conhecidamente discreta, que soía andar pelos Douradores de gabardina clara, gravata de lacinho e chapéu sem plumas, não disse que o super-Camões era ele próprio.

Afinal, um super-Camões não vai além de ser um camões maior, e ele estava de reserva para ser Fernando Pessoas, fenómeno nunca visto antes em Portugal.

Naturalmente, a sua vida era feita de dias, e dos dias sabemos nós que são iguais mas não se repetem, por isso não surpreende que em um desses, ao passar Fernando diante de um espelho, nele tivesse percebido, de relance, outra pessoa". Justamente como uma dessas pessoas que o habitavam, o heterônimo Ricardo Reis, Fernando Pessoa nos oferece inicialmente uma visão embriagada da brevidade da vida, ao falar do vinho em sua poesia. Não Só Vinho "Não só vinho, mas nele o olvido, deito Na taça: serei ledo, porque a dita É ignara.

Quem, lembrando Ou prevendo, sorrira? Dos brutos, não a vida, senão a alma, Consigamos, pensando; recolhidos No impalpável destino Que não 'spera nem lembra. Com mão mortal elevo à mortal boca Em frágil taça o passageiro vinho, Baços os olhos feitos Para deixar de ver."

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Bocage

Pessoa, Pessoa

Para depois, como ortônimo (Pessoa assinando como Pessoa), nos brindar com seu poema "Rubaiyat", inspirado nas odes do célebre poeta persa Omar Khayyam, seguindo sua filosofia sobre a falta de sentido da vida, mesmo pensamento que o levaria a cunhar a máxima "Boa é a vida, mas melhor é o vinho":

"O fim do longo, inútil dia ensombra. A mesma sp'erança que não deu se escombra, Prolixa... A vida é um mendigo bêbado Que entende a mão à sua própria sombra. Dormimos o universo. A extensa massa Da confusão das cousas nos enlaça, Sonhos; e a ébria confluência humana Vazia ecoa-se de raça em raça. Ao gozo segue a dor, e o gozo a esta.

Ora o vinho bebemos porque é festa, Ora o vinho bebemos porque há dor. Mas de um e de outro vinho nada resta."

Vinhos e versos

Tantos outros poetas portugueses de grande quilate citaram e enalteceram o vinho em seus versos. Não caberiam aqui. São assunto para buscas intermináveis e conversas bem regadas.

E, se a paixão por literatura for tamanha, comparável ao zelo pelos vinhos, que sigamos os conselhos do jornalista e obscuro poeta Cardoso Marta, em "Vinhos e Livros": "Da vida sábia e sem perda Melhor exemplo não topo Que um livro na mão esquerda E na mão direita um copo.

Com igual fervor constante Tua mão colide e agrega Bons livros, na tua estante Bons vinhos, na tua adega!" E, como se abre um exemplar de um, se abre um exemplar de outro, com o devido propósito de sorver seu conteúdo até o fim.

De que nos valem livros sem serem lidos e vinhos sem serem bebidos? Assim como fizeram os poetas, observe bem o que cada vinho nos faz dizer. E dedique-lhe algo escrito no ar, perdido para sempre, ou compartilhado com quem tem a graça de ouvir palavras inebriantes.

Afinal, só o vinho pode transformar míseros bêbados em poetas, nem que seja por uma noite, nem que seja por um verso ou seu avesso.

Ricardo Peruchi

Publicado em 3 de Setembro de 2009 às 07:54


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Artigo publicado nesta revista