35 anos de desafios e conquistas

A Associação Brasileira de Enologia (ABE) celebra seu aniversário brindando os brasileiros com vinhos cada dia melhores


No ano de 1976, o gaúcho – nascido em Bento Gonçalves – e general do exército brasileiro, Ernesto Geisel era o Presidente da República. Nos cinemas do país estavam em cartaz “Taxi Driver”, de Martin Scorcese, e “Dona Flor e seus dois maridos”, de Bruno Barreto. Era um ano eleitoral, mas a recém-promulgada “Lei Falcão” proibia as propagandas políticas ao vivo, assim nomes, fotos e legendas políticas desfilavam nas televisões entre as novelas “A Escrava Isaura” e “O Casarão”. No rádio, o compositor Cartola lançava “O Mundo é um Moinho” e a banda sueca ABBA arrebentava com “Dancing Queen”.

Na mesma Bento Gonçalves de Geisel, em 22 de outubro de 1976, um grupo de ex-alunos da então “Escola Agrotécnica Federal Juscelino Kubitschek” (atual Instituto Federal de Educação) se reunia para formar uma Associação de Técnicos em Viticultura e Enologia. Hoje, passados 35 anos, os 310 participantes formam a Associação Brasileira de Enologia, órgão mais respeitado na vitivinicultura brasileira.

Leveduras indígenas

Embora rótulos importantes já fossem feitos no país há décadas (as cooperativas como Garibaldi, Nova Aliança e Aurora já eram sólidas no mercado, principalmente com os vinhos de uvas americanas), os vinhos finos ainda começavam sua trajetória, pelas barricas da extinta vinícola Riograndense, pela Peterlongo, Adega Medieval, Salton e Dreher, entre outros nomes que estavam presentes nas mesas dos enólogos em 1976.

“Eram outros tempos – de dificuldades técnicas e de acesso à informação para os profissionais forma dos no curso técnico brasileiro. Por isso, tantos de nós entrávamos na viticultura por outras portas, como a bioquímica ou a agronomia”, lembra Antonio Czarnobay, que se formou no curso superior de farmácia e bioquímica e entrou na Cooperativa Aurora em 1975, onde permaneceu por quase 34 anos.

Ele conta que as vinícolas precisavam usar leveduras indígenas (aquelas que estão naturalmente nas cascas das uvas) para a fermentação, pois não era possível comprar essas leveduras (eram importadas), além do fato de praticamente não existirem tanques com controle de temperatura – em uma época na qual os vinhos brancos faziam grande sucesso no mercado. Eram tempos em que quase tudo se aprendia na prática, ou quando algum enólogo conseguia um estágio no exterior e trazia livros novos escondidos na bagagem, e resolvia compartilhá-los com os colegas.

Mas os anos de 1970 foram os primeiros divisores de águas para a vitivinicultura brasileira. A fundação da ABE aconteceu em meio à chegada de muitas multinacionais do setor ao Brasil, que já viam no país o potencial de crescimento. Entre elas estavam a Martini & Rossi, Heublein, Chateau Lacave, a casa francesa Moët & Chandon e a americana Almadén, entre outras. Elas trouxeram consigo tecnologias novas, profissionais formados em instituições estrangeiras e a necessidade de uma força de trabalho local melhor preparada.

fotos: arquivo ABE
Primeira turma de enólogos da ABE

O primeiro presidente da associação foi o enólogo Firmino Splendor

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Aproximação e aprendizado

O primeiro presidente da associação foi o enólogo Firmino Splendor, personagem emblemático por continuar atuante 49 anos depois de formado na primeira turma do curso técnico (1962). Foi dele o esforço para a realização das primeiras jornadas de aperfeiçoamento e o primeiro congresso que reuniu profissionais brasileiros e estrangeiros, como nunca antes havia acontecido no Brasil.

“É uma função histórica e estratégica da ABE facilitar a aproximação entre os profissionais do mundo do vinho. Hoje isso é muito mais fácil, mas os enólogos que iniciaram esse processo na década de 1970, com todas as dificuldades conjunturais (que não deixaram de existir por mais de uma década depois da fundação), merecem nosso respeito e homenagens hoje”, resume Christian Bernardi, atual presidente da ABE, e um profissional já formado no curso superior de enologia, que o país só passou a ter na década de 1990.

Os anos 80 foram de grandes desafios para a associação, que ainda contava com o esforço de um pequeno grupo de profissionais que atuavam em importantes vinícolas e, em suas horas vagas, dedicavam-se a buscar maneiras de melhorar as condições de treinamento e aprendizado dos colegas, mesmo que eles ainda não vissem a ABE como uma entidade com a força necessária para auxiliá-los.

Uma das ações que contribuíram para que mudanças mais radicais pudessem ocorrer foi o início da participação dos enólogos brasileiros como jurados em concursos internacionais, coisa hoje corriqueira (os enólogos brasileiros e seus vinhos estão presentes nos mais importantes concursos do mundo), mas que na década de 1980 indicava que finalmente os homens que faziam os vinhos no Brasil existiam para o mundo.

Daniela Villar

Luta para regulamentação da profissão de enólogo, ocorrida em 2007, durou 16 anos

Com a adega aberta

Foi apenas nos anos 1990 que – depois de dificuldades econômicas que atingiram o país e golpearam também a entidade – a associação encontrou um caminho que lhe traria para o palco central da vitivinicultura brasileira. Realizando eventos com regularidade, com um grupo maior de associados, uma sede própria, sediando Congressos e Simpósios em parceria com a Embrapa, a ABE deu alguns passos determinantes em sua história.

Um deles foi a realização da primeira Avaliação Nacional de Vinhos, em 1993, abrindo as portas para que os vinhos brasileiros fossem comentados publicamente, o que propiciava críticas que finalmente os profissionais estavam dispostos a escutar. Quem presidia a associação na época era o enólogo Gilberto Pedrucci, que, em 1994, viu, finalmente, a Associação Brasileira de Técnicos em Viticultura e Enologia se transformar na atual ABE (Associação Brasileira de Enologia), com um importante conselho de ex-presidentes, que garantia continuidade sem disputas internas.

Durante o mandato do enólogo Adriano Miolo, no final dos anos 90, a entidade obteve duas conquistas essenciais para sua continuidade e respeito, a entrada na OIV (Organização Internacional da Uva e do Vinho) e na UIOE (União Internacional dos Enólogos), ambas com sede na França, dando aos brasileiros visibilidade internacional. Nessa mesma época, o curso superior de enologia começou a funcionar em paralelo ao curso técnico e muitos enólogos buscaram – um agora possível – aperfeiçoamento em mestrados e doutorados na Europa.

A mudança de século vê a ABE adotar uma posição que só é possível a uma entidade que atende igualmente grandes e pequenos, o posicionamento em relação a um trabalho ético em prol de quem faz vinhos e de sua participação igualitária nesse mercado, lutando pela regulamentação da profissão do enólogo. É nessa época que acontece o primeiro Concurso do Espumante Fino Brasileiro, um evento que passou a fazer parte da agenda da associação nos anos ímpares, e que é determinante na visibilidade da qualidade dos espumantes nacionais.

Assim como a Avaliação Nacional de Vinhos e o Concurso Internacional de Vinhos do Brasil, o Concurso do Espumante também atende a todos os requisitos da OIV para certames internacionais, sendo reconhecido e respeitado interna e externamente.

Para coroar esses esforços e dedicação, em 2004, o ex-presidente da entidade, Antonio Czarnobay é eleito vice-presidente da União Internacional dos Enólogos, tornando-se assim o primeiro latino-americano a integrar a diretoria do órgão para um mandato de três anos. “A ABE assumiu, naquele época, alguns papeis que talvez nem fossem dela, mas que precisavam de representatividade ética, como uma posição efetiva e política contra ditames da Comunidade Econômica Europeia que pretendiam, por exemplo, que nenhum vinho brasileiro tivesse em seu rótulo a palavra ‘fino’, pois, para efeito de exportação – segundo entendimento dos europeus – eles poderiam ser confundidos com os vinhos Jerez”, explica Czarnobay, esclarecendo que a voz da ABE se fez ouvir em Brasília, junto ao Ministério das Relações Exteriores, para que esse tipo de decisão não afetasse a indústria nacional.

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A regulamentação

Sílvia M. Rosa

Demonstrando a seriedade com a qual a entidade era vista no exterior, também em 2004, o Brasil sediou a Assembleia Geral da União do Enólogos que, pela primeira vez em sua história, deixou de acontecer em solo europeu. E, no Brasil, sua influência se expande, com duas regionais sendo abertas em 2006, uma em Petrolina (Pernambuco) e outra em Videira (Santa Catarina) para auxiliar os enólogos locais na obtenção de informações técnicas, participação em treinamentos e valorização da mão-de-obra.

Apenas em 2007 é que o então presidente Luís Inácio Lula da Silva regulamenta as profissões de enólogo e técnico em enologia, depois de mais de 16 anos de luta da qual a ABE participou ativamente. “Nesse sentido ainda temos alguns desafios a vencer, pois, mesmo com a profissão regulamentada, as responsabilidades dos enólogos dentro das cantinas ainda não estão claras, da forma que queremos que elas estejam na lei. Precisamos conseguir, por exemplo, que apenas os profissionais formados em escolas superiores de enologia sejam considerados enólogos, e não os formados em química, como se pretende hoje, pois entendemos que isso vai contra o que conhecemos, estudamos e observamos aqui e no exterior”, conta o presidente da ABE.

No cotidiano da associação estão palestras e visitas técnicas, degustações temáticas de vinhos de todas as procedências, a edição da Revista Brasileira de Viticultura e Enologia, além dos eventos que são os mais respeitados do país. Neste ano, por exemplo, a Avaliação Nacional de Vinhos, em sua 19º edição, contará com a participação de 72 vinícolas brasileiras (em 1993, quando começou, eram 18 participantes) que inscreveram 384 amostras. A degustação coletiva, que acontecerá no dia 24 de setembro, deve reunir mais de 700 participantes e comentaristas do Brasil e do exterior em Bento Gonçalves.

Aos 35 anos, a jovem senhora que é a Associação Brasileira de Enologia, tem responsabilidades enormes para com seus associados, com o vinho e com o consumidor brasileiro, pois assumiu um papel ético sem igual no país. Papel este que coloca os vinhos em posição de destaque e seus autores também, por consequência: “Temos que celebrar a evolução dos vinhos brasileiros, pois ela é motivo de orgulho para nós, enólogos, mas precisamos continuar investindo em aprimoramento profissional, representatividade interna e externa, eventos que nos possibilitem evoluir e subir nosso padrão de trabalho e conhecimento”, resume Christian Bernardi.

Para os brindes finais, os enólogos irão comemorar em uma grande festa, em Bento Gonçalves, que celebrará o dia do enólogo e o aniversário da entidade, em outubro de 2011. Por fim, para aqueles que não se lembram, em 1976 o vencedor do Campeonato Brasileiro de Futebol foi o time gaúcho do Internacional.

Sílvia Mascella Rosa

Publicado em 12 de Agosto de 2011 às 07:58


Terroir Brasil

Artigo publicado nesta revista