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A uva Carignan e seus mundos

Nativa da Espanha, a Carignan espalhou-se pela Itália e pela França, mas é no Chile que vem ganhando papel de protagonista


 

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Vinhedos de Carignan da vinícola chilena Gillmore

O que seria da festa de entrega dos prêmios da academia norte-americana de cinema se só recebessem o Oscar, o melhor ator e atriz, diretor e o melhor filme? A festa seria bem menor, é óbvio, e o brilho não seria o mesmo sem os atores coadjuvantes, sem a trilha sonora incidental, sem os efeitos especiais e outros tantos detalhes que se somam para dar vida ao todo. No mundo do vinho, muitas vezes, acontece o mesmo. Boa parte dos melhores vinhos do mundo são blends, ou cortes, principalmente entre as uvas tintas. Mas aqui e ali, uma uva que é utilizada como parte (importante por vezes) de um corte, acaba ganhando espaço e protagonizando um bom vinho varietal. Um coadjuvante que ganha o Oscar.

 

Uma uva, muitos nomes

 

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A Carignan é uma delas. Conhecida por 66 nomes diferentes, ela é famosa por sua versatilidade ou, como se diz no mundo do vinho, por suas mutações. É uma casta que pode ter características ligeiramente diferentes em cada local onde é cultivada e com cada clone, além de ser popular por sua boa produtividade.

Os estudiosos acreditam que ela seja originária da Espanha, onde dá nome a uma região e uma DO (Denominação de Origem), a Cariñena, em Aragão, perto da cidade de Zaragoza. Curiosamente, ela já não é mais tão cultivada por lá, e encontrou um terreno mais fértil na zona vizinha do Priorato, onde suas vinhas, bastante velhas, produzem uvas tanto para varietais quanto para blends de muito boa qualidade. Na Espanha, como um todo, a Cariñena está em quase 11 mil hectares de vinhedos, conhecida pelo nome de Mazuelo.

Carignan é conhecida por 66 nomes diferentes em todo o mundo

Na França, onde a uva parece ter chegado em meados do século XII, atravessando os montes Pirineus, ela é chamada também de Monestel, Catalan e Roussillonen. Esse último nome faz referência à região que mais a acolheu, o Languedoc-Roussillon, de onde se tornou a uva tinta mais plantada da França, ocupando (em dados de 2006 da Vitis International Variety Catalogue) mais de 73 mil hectares de vinhedos.

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Carignan é uma das principais castas dos vinhos da AOC de Minervois, no Languedoc

Da França, a Carignan se espalhou por todo o Mediterrâneo, sendo bastante popular no sul da Itália (com o nome de Carignano ou Uva di Spagna). “Infelizmente, durante muitas décadas, ela foi muito utilizada para vinhos de baixa qualidade, tanto na França quanto na Itália, o que a fez perder território para outras castas. Felizmente, há poucos anos isso começou a mudar na Europa”, explica o enólogo holandês Meinard Ian Bloem, que trabalha com essa cepa, por exemplo, na ilha da Sardenha, onde a uva se adaptou bem, ganhando até mesmo uma DOC, a Carignano del Sucis, cujos vinhos são potentes aromáticos, escuros e maduros. E mesmo no sul da França ela vem, nos últimos anos, reconquistando prestígio.

Na França, Carignan se adaptou bem ao Languedoc- Roussillon

Cruzando o Atlântico

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Por ser uma uva adaptável e que produz bons volumes, a Carignan atravessou o Atlântico e chegou aos Estados Unidos, onde, durante algum tempo, na Califórnia, chegou a ser a terceira uva tinta mais plantada, ao lado da Cabernet Sauvignon e da Zinfandel. Hoje, por conta de vinhos de qualidade duvidosa que foram produzidos com ela, sua área foi reduzida. Mesmo assim, é uma das seis tintas mais cultivadas no país, recebendo por lá o nome de Carignane.

No Chile, onde chegou na virada do século passado vinda da França, a Carignan tem mostrado resultados muito interessantes. Durante a década de 1930, ela foi largamente utilizada pelos vinhateiros para ser misturada a uma cepa muito popular no Chile, a País, trazida pelos conquistadores espanhóis. “A uva País tem baixa acidez e pouca cor, assim, os agricultores da região do Maule misturavam a Carignan para aumentar a acidez, deixar a cor mais profunda e, por seu fácil cultivo, aumentar o volume”, conta Andrés Sanchez, enólogo e sócio da vinícola Gillmore, no vale chileno de Loncomilla.

Embora promissora, a história da Carignan em terras chilenas teve um revés. Os clones implantados no país começaram a ser atacados por fungos e perderam muito de seu alto volume de produção (o que é natural após 10 anos, mas os vinhateiros que trabalhavam com grandes volumes não queriam esperar). Por isso, muitas parreiras foram abandonadas e outras, com fungos, nem sequer foram tratadas. E assim essa cepa ficou quase perdida entre os vinhedos chilenos por décadas.

Há pouco mais de 15 anos, essa casta foi sendo trazida de volta à vida pelas mãos de alguns vinhateiros, principalmente do Vale de Maule, que perceberam que, mesmo em condições adversas de seca, elas continuavam produzindo ano após ano. E muitas delas eram parreiras com mais de meio século de vida.

Vinhas velhas em solos de baixa fertilidade dão os melhores resultados

Um clube para chamar de seu 

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O renascimento da Carignan coincide com uma época muito importante da vitivinicultura chilena. Em meados da década de 1990 outra cepa vinda da França, a Carménère, foi oficialmente redescoberta no Chile, chamando atenção para um país que já possuía uma forte indústria. Era tempo de buscar inovações e muitas vinícolas apareceram, adquirindo velhas propriedades e encontrando nelas muitas raridades, como as velhas parreiras da uva vinda da França.

Em 1995, o enólogo Andrés Sanchez colocou no mercado seu primeiro varietal de Carignan e, quase ao mesmo tempo, vinícolas como a Odfjell , Morandé e De Martino também tinham seus rótulos. Há quase dois anos, esses vinhateiros decidiram que os vinhos deveriam ganhar reconhecimento próprio e que tinham qualidade suficiente para atenderem a uma série de regras. Assim foi formado o clube “Vignadores de Carignan” do Vale do Maule, que conta com quase quinze vinícolas. Andrés explica que, para participar do clube os vinhos, tem que ser 100% Carignan ou levar em sua composição ao menos 65% da uva, com dois detalhes importantes e restritivos: as parreiras tem que ter no mínimo 30 anos e precisam ser manejadas sem irrigação (manejo conhecido como secano, no Chile).

Para compor os blends, as outras cepas também precisam ser de plantas velhas e cultivadas sem irrigação, e o vinho final deve ter uma guarda mínima de dois anos antes de chegar ao mercado. “Nós acreditamos que essa seja uma oportunidade única e histórica no país. Estamos em um dos poucos vales que pode ter cultivo sem irrigação, temos plantas antigas que contam parte da tradição hispânica e sabemos que, com o conhecimento atual, podemos fazer um vinho de classe mundial mas com caráter local”, explica Andrés.

Decifrando a casta

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A resistência à falta de água é uma das boas características dessa uva, que aprofunda suas fortes raízes no solo e sobrevive aos invernos rigorosos (e, às vezes, úmidos do vale de Maule) e aos verões longos e secos, produzindo uvas de boa maturação mesmo nessas condições rigorosas.

“A Carignan no Chile é uma uva tardia, mas que, quando bem cuidada, podada e tratada, amadurece lentamente e sem ressecar, mesmo sob stress hídrico, conservando uma boa acidez. Quando temos plantas velhas e em solos de baixa fertilidade, ela é capaz de mostrar seus melhores resultados, sendo fácil de vinificar, embora não seja indicada para vinhos de consumo rápido e leves. É uma uva que precisa de tempo em todos os seus aspectos, desde a parreira até a taça”, conta Meinard Bloem.

Os cachos de tamanho médio a grande têm grãos de pele fina e de boa concentração de cor, com taninos que precisam ser bem trabalhados. Acidez alta, bom álcool e, em geral, capazes de produzir vinhos frutados e com toques de especiarias mesmo antes de passar pela madeira.

Sua característica rústica é uma vantagem a mais, que pode ser bem trabalhada dentro da vinícola quando o enólogo se dispõe a entender a casta. “O mundo quer que o Chile passe a fazer vinhos que sejam a expressão de um terroir, que se deixem beber e que sejam reflexo de uma cultura e da autenticidade de uma indústria. Eu acredito que os vinhos da Carignan sejam precisamente isso, com a profundidade e expressão das vinhas velhas em território seco, são uma estrela em ascensão”, completa Andrés Sanchez.

Vinhos avaliados

Antawara Blend Syrah Carignan 2009 - AD 88 pts

Carignan Gran Reserva 2008 - AD 87 pts

Centauri 2008 - AD 89 pts

Château du Donjon Grande Tradition 2008 - AD 90 pts

Hacedor de Mundos Old Vines Carignan 2007 - AD 89 pts

Roquers de Porrera 2006 Priorat - AD 91 pts

Santa Carolina Dry Faming Carignan 2008 - AD 89 pts

Confira os melhores vinhos com a uva Carignan!

Da redação

Publicado em 19 de Março de 2019 às 17:00


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Artigo publicado nesta revista