Da Espanha ao Chile, a uva ganha destaque com vinhas antigas
por Redação

Nativa da Espanha, a Carignan — também conhecida como Cariñena ou Mazuelo — espalhou-se pela França e pela Itália, mas é no Chile que vem consolidando um novo protagonismo. Tradicionalmente utilizada em blends, a casta passou a brilhar também em vinhos varietais, reafirmando seu potencial histórico e enológico.
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Reconhecida por 66 denominações diferentes ao redor do mundo, a Carignan é marcada por versatilidade e capacidade de adaptação. Suas características variam conforme o terroir e os clones cultivados, além de apresentar produtividade elevada.
Estudiosos apontam sua origem na Espanha, mais precisamente na região de Cariñena, em Aragão, próxima a Zaragoza. Embora hoje tenha menor presença ali, a uva encontrou destaque no Priorato, onde vinhas antigas dão origem a rótulos de alta qualidade, tanto em cortes quanto varietais. Na Espanha, ocupa cerca de 11 mil hectares e é amplamente chamada de Mazuelo.
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Na França, onde chegou por volta do século XII atravessando os Pirineus, tornou-se especialmente relevante no Languedoc-Roussillon. Dados do Vitis International Variety Catalogue indicavam, em 2006, mais de 73 mil hectares plantados, tornando-a uma das tintas mais cultivadas do país. Também é base importante dos vinhos da AOC Minervois.
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A expansão da Carignan pelo Mediterrâneo levou a casta ao sul da Itália, especialmente à Sardenha, onde se adaptou bem e originou a DOC Carignano del Sulcis. Apesar de ter sido associada, por décadas, a vinhos de menor qualidade, a uva vem recuperando prestígio na Europa graças ao trabalho de produtores focados em vinhas velhas e baixa produtividade.
Cruzando o Atlântico, a Carignan chegou aos Estados Unidos, onde foi amplamente cultivada na Califórnia, chegando a figurar entre as principais uvas tintas do estado. Atualmente, embora tenha perdido área, ainda está entre as seis mais plantadas, conhecida como Carignane.
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Foi no Chile, contudo, que a casta encontrou terreno fértil para uma nova fase. Introduzida no início do século XX, foi utilizada principalmente para complementar a uva País, agregando acidez, cor e volume aos vinhos do Vale do Maule.
Após décadas de abandono e problemas fitossanitários, vinhas antigas — muitas com mais de 50 anos — foram redescobertas por produtores locais há cerca de 15 anos. Mesmo sob condições adversas de seca e manejo em sequeiro (sem irrigação), essas plantas continuaram produzindo uvas de qualidade.
O movimento ganhou força com a criação do grupo Vignadores de Carignan, no Vale do Maule. Para integrar o projeto, os vinhos precisam ter no mínimo 65% da casta (ou serem 100% Carignan), provenientes de vinhas com ao menos 30 anos e cultivadas sem irrigação. Além disso, o vinho deve ter guarda mínima de dois anos antes de ser comercializado.
A Carignan é uma uva de ciclo tardio, resistente à seca e capaz de manter boa acidez mesmo sob estresse hídrico. Seus cachos médios a grandes apresentam bagas de pele fina, boa concentração de cor e taninos marcantes, que exigem cuidado na vinificação.
Produz vinhos estruturados, com acidez elevada, teor alcoólico equilibrado e notas de frutas e especiarias. Não é uma casta indicada para vinhos leves ou de consumo imediato — exige tempo, desde a vinha até a taça.
Com raízes profundas e forte identidade territorial, especialmente no Vale do Maule, a Carignan simboliza uma busca por autenticidade, expressão de terroir e valorização de vinhas antigas. De coadjuvante em blends a estrela de varietais, a uva vive hoje um momento de afirmação no cenário internacional.
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