Das lendas antigas à ciência, a trajetória da Syrah revela origem, estilos e fama global
por Por Arnaldo Grizzo e Eduardo Milan

A Syrah é hoje uma das uvas tintas mais reconhecidas do planeta, mas seu caminho até esse status foi cercado de mistérios, hipóteses históricas e muitas histórias fascinantes. Durante séculos, sua origem foi atribuída a diferentes civilizações e regiões, como a Pérsia, a Grécia, a Itália e até os Bálcãs. Cada teoria ajudou a construir o mito em torno dessa casta tão admirada no universo do vinho.
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Uma das narrativas mais conhecidas remonta ao século XIII, quando o cavaleiro Gaspard de Stérimberg teria retornado das Cruzadas trazendo mudas da cidade persa de Shiraz, estabelecendo-as nas proximidades de Lyon, no vale do Rhône. Outras versões apontam para os gregos de Foceia, fundadores de Massalia (atual Marselha), que teriam introduzido a variedade ainda no século VI a.C. Há também quem associe a origem da Syrah à ilha grega de Siro, no mar Egeu, ou à Sicília, por meio das expedições do tirano Agátocles no século IV a.C.
Teorias romanas também entraram em cena. Escritos de Plínio, o Velho, mencionam uma uva chamada Syriaca, cultivada na Síria, enquanto outros autores ligam a Syrah à variedade Allobrogica, descrita por naturalistas romanos no século I. Até mesmo São Patrício aparece em algumas versões como responsável por plantar as primeiras vinhas no Rhône.
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Apesar do fascínio dessas histórias, nenhuma delas se sustenta cientificamente. A resposta definitiva veio apenas em 1998, quando análises de DNA conduzidas pela UC Davis e pelo INRA, na França, revelaram que a Syrah é resultado de um cruzamento natural entre duas variedades locais: a Mondeuse Blanche, branca, e a Dureza, tinta. Ambas eram cultivadas na região de Isère, no norte do vale do Rhône, indicando que o surgimento da Syrah ocorreu ali, provavelmente por volta do século XII — embora existam indícios de que seja ainda mais antiga.
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Ao longo de sua história, a Syrah acumulou uma impressionante lista de sinônimos. Além de Syrah e Shiraz, é conhecida como Sérine, Sira, Sirac, Syrac, Candive, Marsanne Noire e até Hermitage, especialmente na Austrália. O nome Shiraz, aliás, ganhou projeção internacional graças ao sucesso dos vinhos australianos a partir das décadas de 1980 e 1990.
A primeira citação documentada da variedade data de 1781, quando o geólogo francês Barthélemy Faujas de Saint-Fond a descreveu como “la Sira de l’Hermitage”, destacando sua capacidade de produzir vinhos elegantes, estruturados e longevos. Foi justamente no norte do Rhône, em regiões como Hermitage, Côte Rôtie, Cornas, Crozes-Hermitage e Saint-Joseph, que a Syrah construiu sua reputação clássica.
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Embora tenha nascido na França, a Syrah ganhou fama global a partir da Austrália. Introduzida no país em 1832 por James Busby, a uva encontrou condições ideais e passou a ser chamada de Shiraz. O grande divisor de águas foi o lançamento do Penfolds Grange, criado em 1952, que levou a casta ao estrelato internacional ao conquistar o título de “Vinho do Ano” da Wine Spectator em 1995.
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Hoje, a Syrah ocupa a sexta posição entre as uvas mais plantadas do mundo, com mais de 185 mil hectares de vinhedos, representando cerca de 4% da área vitícola global. França e Austrália lideram o cultivo, seguidas por países como Espanha, Argentina, África do Sul, Estados Unidos, Itália, Chile e Portugal.
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De personalidade marcante, a Syrah costuma gerar vinhos encorpados, intensos e cheios de caráter. Seus aromas variam entre frutas negras, violetas, azeitonas e especiarias, especialmente pimenta-preta. Com a evolução, surgem notas terrosas, defumadas, de couro e até carne curada.
O terroir exerce papel fundamental no estilo final. Na França e na Itália, os vinhos tendem a ser mais frescos, com acidez elevada e notas especiadas. Já nos países do Novo Mundo, como Austrália, Chile e Estados Unidos, a fruta costuma ser mais madura, com textura mais cremosa e aromas de chocolate e especiarias doces.
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A adaptabilidade da Syrah permitiu sua expansão por diferentes continentes. Está presente desde o vale do Rhône até regiões como Barossa Valley, McLaren Vale, Califórnia, Washington State, Paarl, Stellenbosch, Colchagua, San Antonio, Vale do Uco e Alentejo. No Brasil, apesar da presença ainda discreta, a casta vem mostrando resultados promissores, especialmente no Nordeste, além da Campanha Gaúcha e do Vale dos Vinhedos.
Graças ao seu corpo e intensidade, a Syrah harmoniza muito bem com carnes vermelhas, caça, churrascos e assados. Estilos mais frutados combinam com aves e cordeiro, enquanto versões mais leves e especiadas acompanham pratos das culinárias indiana, tailandesa e chinesa com surpreendente equilíbrio.
Da lenda à ciência, da França à Austrália, a Syrah construiu uma trajetória única — e continua a se reinventar, mantendo seu lugar entre as grandes uvas do mundo do vinho.
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