Revista ADEGA

Nacionalidade

Conheça as uvas dos terroirs do Brasil

De norte a sul, o país já consegue mostrar as diferentes castas que passam a caracterizar nossos vinhos

Por Sílvia Mascella Rosa em 27 de Julho de 2016 às 11:00

Primeiro, a geografia. O Brasil, por conta de seu extenso território, é considerado um país de dimensões continentais. Os 8.514.876 km2 da nação estão distribuídos maciçamente na zona intertropical do planeta, com exceção da região sul. Assim, é natural que tenhamos uma diversidade de climas que favoreça variados cultivos de norte a sul e de leste a oeste do país. Por aqui, há desde o equatorial (com elevadas temperatura e umidade) até o subtropical (de grande amplitude térmica e as médias mais baixas de todo o território) passando pelo tropical, tropical de altitude, tropical úmido e semi-árido. É comum ouvir, principalmente na imprensa internacional, que o Brasil (por sua diversidade de solos, climas e extensão de terras) é o celeiro do mundo.

Agora, a história. À nossa colonização portuguesa agrega-se uma divisão geográfica (e que também já foi política) com os países colonizados pela Espanha. Através de grandes ondas migratórias, recebemos forte influência dos italianos e dos alemães, e (saindo da Europa) de algumas nações do Oriente Médio e da Ásia. É importante, também, reconhecer que todas essas etnias miscigenaram-se com os índios nativos e com os africanos.

Dessa enorme barrica de culturas separam-se variados decânteres de vinho brasileiro. A começar por uma jarra de barro, muito envelhecida, de um vinho feito com as uvas portuguesas trazidas por Brás Cubas nas enormes caravelas, e cujas mudas ocuparam um inusitado terroir num terreno que viria a ser o bairro do Tatuapé em São Paulo, no século XVI.

Dessa mesma barrica da cultura brasileira veio, no século XVII, um vinho de marcado sotaque espanhol, produzido pelos jesuítas nas Missões no oeste do estado do Rio Grande do Sul. Na poeira da história, perderam-se as cepas deste vinho, mas não parece errado pensar que seriam provavelmente de castas cultivadas por nossos vizinhos argentinos e uruguaios.

Um salto na história nos serve num decânter já de cristal os vinhos europeus trazidos pela corte que veio habitar estas terras no início do século XIX – decisivo em muitos aspectos para nossa história vitivinícola – e que fizeram com que a elite do país tomasse gosto pelo que de bom já se fazia (há séculos) na Europa.

Vindos de guerras, reunificações e crises, os italianos, alemães e uma nova leva de portugueses chegou ao país no final do século XIX e trouxeram uma cultura de vinho (reconhecido em qualquer um desses países como alimento e como líquido essencial nas celebrações religiosas) que se espalhou rapidamente pela região sul do Brasil, mas não sem encontrar a forte resistência do terroir.

Tentativa e erro

Mesmo favorecidos pelo clima subtropical da região sul, de grande amplitude térmica, os primeiros viticultores (muitos deles vindos do norte da Itália) se depararam com um regime de chuvas diferente do que conheciam e com solos com maior fertilidade. É de se imaginar a decepção de um nativo piemontês ao tentar cultivar na Serra Gaúcha suas mudas de Nebbiolo, trazidas com cuidado de sua Itália natal...

Durante décadas, diante das decepções ocorridas com a dificuldade de cultivo das cepas europeias, o Brasil produziu fortemente as uvas americanas, facilmente adaptáveis. Isso resolveu um problema imediato de produção, mas deixou um rastro histórico que até hoje marca a vitivinicultura brasileira e barra alguns importantes avanços.

No entanto, ainda no começo do século XX, frente ao desenvolvimento do país como um todo, alguns produtores (desde cooperativas até empresas familiares) reiniciaram o plantio comercial das cepas europeias, com um conhecimento já ampliado sobre o solo e o clima do estado do Rio Grande do Sul, especialmente da Serra Gaúcha.

Variedades de uva ainda estão sendo avaliadas nos diversos terroirs brasileiros

É nesse época que uvas como a Riesling e a Merlot passam a fazer parte dos vinhos do país, produzindo os primeiros varietais. Ainda não havia (e levaria décadas até isso acontecer) um conhecimento profundo sobre as melhores cepas para cada terroir do país, mas, sem dúvida, é uma evolução em relação ao que era feito antes.

Durante boa parte do século XX (bem mais da metade dele), as uvas cultivadas no Brasil são predominantemente americanas, mas com alguma participação das viníferas tanto em vinhos tranquilos quanto em alguns espumantes que começam a ser feitos no país. Há Sémillon, Moscato, Cabernet Franc, Bonarda, entre outros cultivares espalhados por diferentes sub-regiões.

É na década de 1970 que chegam ao país muitas empresas estrangeiras, trazendo com elas tecnologia, mudas e o desejo de explorar o terroir brasileiro. Italianos como os da Cinzano e Martini Rossi, franceses como os da Chandon e americanos com os da Almadén, mostram ao país o potencial para as uvas viníferas que ainda não parecia totalmente consolidado entre os produtores brasileiros.

Syrah no nordeste

Em terroirs antigos e há muito tempo explorados, há pouco espaço para modificações quando se trata de qual uva deve ser cultivada num determinado terreno. Poucos franceses pensariam, por exemplo, em levar a Syrah do sul da França para o norte. Seja porque conhecem a cepa a ponto de saber onde ela se adapta melhor, seja pela pressão do mercado para que se produzam mais vinhos tradicionais nas regiões já bem definidas e consolidadas, não raro limitadas pelas regras das Denominações de Origem.

Para o Brasil do século passado, no entanto, todas as opções estavam em aberto e as cepas pareceram chegar aleatoriamente em diversas regiões do país. É claro que não foi exatamente assim. Por exemplo, a casta Syrah chegou ao nordeste do Brasil por ser uma variedade que gosta de sol e calor e por lá fez sua morada. Durante décadas foi cultivada com o único propósito de fazer vinagre, mas, na virada do século, isso mudou. Pesquisas encomendadas por potenciais investidores (grupos estrangeiros e brasileiros) demonstraram que a cepa era realmente uma das mais indicadas para suportar os rigores do clima tropical e produzir com qualidade.

A Syrah tem se dado bem no Nordeste do Brasil, enquanto a Tannat dá bons resultados na divisa com o Uruguai

“Não podemos parar de pesquisar e de nos aprofundar para descobrir o que melhor se adapta num terroir extremo como o do nordeste. Até mesmo porque uma pesquisa séria sobre a adaptação de uma cepa toma anos de levantamentos”, revela o enólogo português João Santos, que vive no estado de Pernambuco e dirige a Rio Sol, braço brasileiro da Dão Sul portuguesa. Além da Syrah, outras cepas que se mostram muito bem sob os rigores do nordeste são as Moscatos e a Chenin Blanc.

Tannat no extremo sul

Algumas castas francesas, como a Chardonnay e Cabernet Sauvignon, ganharam o mundo e fizeram até mesmo regiões tradicionais (como algumas partes da Itália) abrirem espaço em seus vinhedos para cultivá-las. Se por um lado são cepas facilmente adaptáveis aos mais diversos tipos de terroir, por outro nem sempre os vinhos produzidos por elas serão capazes de expressar o que de melhor se pode produzir numa região.

“Neste ano, retiramos mais uma parte de nosso parreiral de Cabernet Sauvignon. Deixamos apenas uma quantidade para produzirmos um vinho de muita qualidade num ano muito bom. Preferimos valorizar as cepas que estão se mostrando melhores em nosso terroir, entre elas a Riesling e a Cabernet Franc, por exemplo”, explica o enólogo Edegar Scotergagna, da Vinícola Luiz Argenta, de Flores da Cunha.


É na região de Campos de Cima da Serra que se começa a notar o potencial da altitude e do frio para a produção das uvas brancas como a Sauvignon Blanc, a Viognier e a Chardonnay

A Cabernet Sauvignon sofre, em muitas regiões brasileiras, com as “águas de março que fecham o verão”, e que prejudicam a sua maturação num momento crucial. Por ser a cepa mais tardia cultivada no país, ela precisa de um final de verão seco, o que tem feito com que apareça melhor em regiões mais ao sul do estado do Rio Grande do Sul, como a Serra do Sudeste e a Campanha Gaúcha.

No extremo sul, a Cabernet Sauvignon divide espaço com a Cabernet Franc (que se dá bem também em algumas pequenas localidades da Serra) e a Tannat, tremendamente bem adaptada aos longos invernos e ao quente verão da divisa com o Uruguai. Mas o solo brasileiro não faz por menos ao deixar a sua assinatura: os Tannats nacionais são mais delicados e com taninos menos agressivos do que a maioria dos uruguaios.

É também na Campanha que nascem vinhedos promissores, de variadas castas portuguesas tradicionais, que parecem – finalmente – ter encontrado o terroir ideal, quase 500 anos depois de Brás Cubas ter trazido consigo as castas de seu Portugal natal. Touriga Nacional e Alvarinho estão entre elas.

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Syrah: a célebre uva do Hermitage

Uvas brancas do frio

Uma das tantas histórias que cercam a produção de Champagne, desta vez ligada a Dom Pérignon, é a de que a série de fatos que culminaram na produção de um dos mais importantes vinhos do mundo teria se originado da tentativa do monge em produzir vinhos semelhantes aos feitos na Borgonha. Trabalhando com as mesmas castas que fizeram (e fazem) a fama da região – Chardonnay e Pinot Noir –, o monge finalmente se rendeu à evidência de que o solo e o clima da região de Champagne não seriam capazes de produzir vinhos com o mesmo resultado da zona mais ao sul.

O fato é que ambas as cepas se beneficiam das baixas temperaturas e aqui no Brasil, fora da produção dos espumantes – que espalhou ambas as castas pelas mais diversas sub-regiões brasileiras –, elas encontraram terrenos interessantes em lugares de moderna vitivinicultura.

Serra do Sudeste e Campanha Gaúcha aparecem como boas alternativas para a Cabernet Sauvignon

A Pinot Noir tem mostrado resultados expressivos em vinhos tranquilos numa pequena região ao norte do Rio Grande do Sul, perto da cidade de Vacaria. E ainda que a viticultura nessa área seja recente, o fato de obter bons resultados com uma casta tão temperamental é um fato digno de nota. É nessa mesma região, conhecida como Campos de Cima da Serra, que se começa a notar o potencial da altitude e do frio para a produção das uvas brancas como a Sauvignon Blanc, a Viognier e a Chardonnay, cuja expressão nesse terroir é marcante.

Os Campos de Cima da Serra são a divisa do estado do Rio Grande do Sul com Santa Catarina, e também por lá a Sauvignon Blanc encontrou um terroir que expressa muito bem seu caráter varietal, especialmente na região de São Joaquim e, para a surpresa de muitos enófilos, os Chardonnay feitos nessa mesma localidade do estado de Santa Catarina apresentam um excelente potencial de guarda, mostrando um outro lado dessa cepa, pouco explorado no país.

As cepas de cada terreno

Uma região pouco conhecida dos enófilos (mesmo os acostumados com os vinhos brasileiros) é a da Serra do Sudeste. Um dos motivos, talvez, seja o fato de que essa zona (ao sul em direção à Campanha Gaúcha) é majoritariamente de plantio de uvas e não de vinícolas, sendo que uma das poucas lá instaladas é a Bodega Czarnobay, do enólogo Antonio Czarnobay. Ele explica que o clima da Serra do Sudeste é muito bom para o cultivo de variadas uvas finas e que o solo, mais pobre e plano, também é uma vantagem em relação às outras regiões mais ao norte do estado: “Por aqui, temos muitas castas clássicas bem adaptadas, como a Chardonnay e a Merlot. Mas o interessante é que as outras vinícolas, que têm terras na região, estão obtendo sucesso com castas pouco comuns, como a Arinarnoa, a Marselan, a Viognier e a Gewürztraminer. Definitivamente é uma área muito promissora para nós, de clima muito estável e de pouca umidade”, explica.

Antes de cravar quais uvas definem melhor os terroirs do Brasil, ainda temos um longo caminho a percorrer

De volta à Serra, há também uma região que, embora discreta nas atenções que atraiu até o momento, guarda um dos tesouros da vitivinicultura nacional: Farroupilha é o lugar onde ficam as maiores plantações das variedades da uva Moscato. Cultivadas no país há mais de um século (embora o cultivo comercial seja bem mais recente), algumas das variedades da Moscato estão tão bem adaptadas ao solo brasileiro que o ampelógrafo francês Jean-Michel Boursiquot está imerso numa pesquisa que busca provar que já existe uma variedade 100% brasileira dessa uva, a Moscato Branco, típica do terroir de Farroupilha.

Por fim, no coração da única Denominação de Origem do país, o Vale dos Vinhedos, desponta a Merlot como uva ícone dessa parte da serra, bem adaptada ao solo, ao clima e trabalhada com o rigor de uma uva clássica francesa, a ponto de dar vida a alguns dos mais expressivos tintos brasileiros.

Em um país de vitivinicultura de qualidade tão jovem como o Brasil, é preciso cuidado para falar de uvas e regiões. Exceções sempre vão existir, com pequenas parcelas de vinhedos de uvas diferenciadas cultivadas por um viticultor com o mesmo carinho que ele dedica ao neto preferido. E essas exceções (que muitas vezes produzem grandes vinhos) estão presentes em todas as regiões brasileiras, e não apenas como frutos do cuidado e da adaptação, mas, por vezes, como resultado da tecnologia aplicada na cantina. Só que, para chegarmos ao ponto de dizer definitivamente quais são as uvas que melhor representam os variados terroirs brasileiros e, quiçá, o Brasil como um todo, ainda temos um longo caminho para percorrer. É preciso seguir estudando os diversos terroirs, selecionando clones e porta-enxertos – como os melhores vinhateiros já fazem – e é necessário, acima de tudo, fazer e degustar muitas safras, para que cada vinho (e uva) se mostre no implacável teste do tempo, que dá respeitabilidade a qualquer país produtor.


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