A filoxera, a oliva e a vinha

François Perrin, do Château de Beaucastel, conta a rica história de sua família na região de Châteauneuf-du-Pape


"Obrigado" é uma das primeiras palavras que os estrangeiros costumam decorar em português. Para François Perrin - que administra o renomado Château de Beaucastel, em Châteauneuf-du-Pape, ao lado do irmão Jean Pierre -, a realidade é outra. Casado há um ano com a carioca Isabel Sued, filha do lendário apresentador de tevê Ibrahim Sued ("Nunca imaginei que fosse casar com uma carioca. Nem em meus sonhos, ou pesadelos", brincou), ele é capaz de se expressar bastante bem em nosso idioma.

No entanto, a língua em que ele melhor se expressa é, certamente, a do vinho. Então, mesmo casado com uma carioca e bastante chegado aos ares brasileiros, ele mora com Isabel em Orange, uma cidade em Châteauneuf-du-Pape, mais especificamente no Domaine Grand Veneur, da família Perrin, para poder ficar perto do dia a dia da produção. "Apesar de eu cuidar de muita coisa, minha paixão é fazer vinhos. Eu sou um vinicultor, amo fazer vinhos", atesta.

É com amor que ele conta a história de sua família, que saiu da olivicultura e aproveitou a crise da filoxera para ingressar no mundo do vinho, criando novos parâmetros para a produção do tradicionalíssimo Châteauneuf- du-Pape e dos vinhos do Rhône.

A história do Château de Beaucastel é muito rica. Como começa?
O Château existe há muito tempo, em 1680 já havia produção de vinho. Na França, tivemos a filoxera, que destruiu as vinhas por volta de 1870. A filoxera começou bem em frente a Châteauneuf-du-Pape. Lá nós temos o vale do rio Rhône e foi lá perto que as mudas vindas dos Estados Unidos, que traziam a filoxera, foram plantadas. Tudo começou ali, na nossa frente, em um cidade chamada Roquemaure.

Na época, sua família já estava no mundo do vinho?
Meu bisavô, nessa época, estava envolvido na produção de azeite de oliva, produzia em diferentes partes, e teve a oportunidade de comprar Beaucastel. Nesse tipo de solo, muito pedregoso, só há duas opções de culturas: oliveiras ou videiras. Nada mais. Como meu bisavô produzia azeite, decidiu comprar o Château e plantar mais oliveiras. Mas meu avô estava lá e, como já tinha bastante conhecimento, disse que era uma pena ter esse tipo de solo para plantar oliveiras. Então, decidiu cultivar algumas videiras. Lá ele plantou as 13 uvas originárias do Châteauneuf-du-Pape.

Como era o mercado na época?
Nesse período, o mercado de vinhos estava nas mãos de négociants da Borgonha, e eles queriam ter um vinho com álcool, de boa coloração, mas suave, para dar potência aos vinhos da Borgonha. E o mercado, então, precisou se adaptar ao que estava sendo vendido. Essa é umas das razões pela qual a Grenache foi crescendo no Châteauneuf-du-Pape e as pessoas foram se esquecendo das castas originais, com exceção de Beaucastel - não sei por que, talvez, pela inteligência de meu avô e bisavô - e hoje temos 13 uvas diferentes.

As condições lá são bastante adversas mesmo para a produção de vinho?
Se você quiser produzir um vinho ótimo, vai ter que enfrentar condições adversas. Quando as condições são fáceis, você produz um vinho bom, mas não ótimo. Você precisa de dificuldade para que um vinho seja excepcional. O vinho precisa sempre estar no limiar. É como ser louco ou gênio, o limiar é muito próximo. [risos]

"Você precisa de dificuldade para que um vinho seja excepcional. O vinho precisa sempre estar no limiar. É como ser louco ou gênio, o limiar é muito próximo"

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As 13 variedades são plantadas separadamente?
Originalmente, plantamos misturadas. Mas hoje, como temos 80 hectares em Châteauneuf-du-Pape e 35 em Côtes du Rhône, pode-se dizer que nossos vinhedos são grandes. Assim, por conta da diferença da maturação entre a Roussanne e a Mourvèdre, que é de um mês, decidimos plantá-las em lotes, para colher na maturação certa e vinificá-las separadamente, esperar a malolática para só depois fazer o blend.

E como é o blend?
Não tentamos ter o mesmo blend a cada safra. É como em Champagne, para ter o mesmo vinho. Aqui tentamos fazer o melhor vinho possível. Tentamos encontrar a quintessência das uvas.

Por ter longa história e a possibilidade de 13 castas, certamente há muitas diferenças de estilos nos vinhos de Châteauneuf-du-Pape. É possível manter um estilo só diante disso?
Essa é denominação é muito grande. Na França, há duas denominações muito abrangentes: Saint-Émilion e Châteauneuf-du-Pape, que tem 3 mil hectares. E por ser tão grande, há filosofias distintas e muita variação. É como Saint-Émilion. É difícil dizer que há apenas um estilo de Saint-Émilion. Em Châteauneuf- du-Pape é a mesma coisa, não podemos dizer que há apenas um vinho, mas podemos ter alguns Châteaux, como Rayas, Domaine de la Janasse e talvez Beaucastel, conhecidos por produzirem os melhores vinhos de lá.

A questão da quantidade de castas e do estilo de solo traz alguma semelhança como a região do Douro em Portugal?
Acho que podemos ter algumas semelhanças, mas o problema é que o solo em Châteauneuf-du-Pape é um depósito de calcário coberto por pedras. O principal em Châteauneuf é que estamos numa região um pouco quente, mas nunca tivemos muito estresse hídrico, porque tem o calcário, mas também tem argila, e isso caracteriza o vinho. Então tem, sim, algumas semelhanças, mas também diferenças.



Vocês têm cultivo biodinâmico, por quê?
Há muito tempo, na década de 1970, meu pai optou por ser completamente orgânico, e somos até hoje. E, na década de 1990, tornamo-nos também biodinâmicos. Muitos pensam que os produtos biodinâmicos são diferentes, mas penso que o vegetal é mais sensível ao ambiente em que está do que os animais. Porque os animais se movem, estão cada hora num lugar. Os vegetais não, eles ficam exatamente no mesmo lugar por toda a sua vida, a não ser que seja tirado de lá. Isso significa que, talvez, o vegetal seja mais sensível às influências ambientais, de clima etc. Ser biodinâmico é tentar encontrar a inteligência natural das pessoas de fazer as coisas em seu devido tempo. Isso era praticado há muito tempo, mas foi se perdendo aos poucos.

Hoje há muita gente seguindo esse linha ecológica. Isso é algo que vai ser regra no mundo do vinho?
Acredito que há dois lados. É como ir à igreja. Alguns vão porque acreditam naquilo, outros vão para fazer social, conversar. Alguns são orgânicos porque acreditam, é a filosofia deles. E outros o fazem porque é moda, uma maneira de ganhar mais. Em Beaucastel, somos orgânicos e biodinâmicos, mas não dizemos isso. Se nos perguntarem, diremos que somos, mas não colocamos essa informação no rótulo, por exemplo. Não usamos isso para conquistar as pessoas. O problema hoje é que estão fazendo disso uma jogada de marketing, virou moda ser orgânico.

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Como se deu o projeto Tablas Creek, nos Estados Unidos? Por que escolheram Paso Robles como sede?
Escolhemos a região porque somos muito próximos à importadora de Robert Haas. Ele trabalhou com o meu pai por muito tempo e se tornou quase um membro da família. Por muito tempo ele nos disse para fazer algo na Califórnia, porque era uma região que estava crescendo, e então nós dissemos: "Ok, Bob, podemos tomar conta de toda a parte técnica, mas você vai se preocupar em vender o vinho". Então, decidimos visitar vinícolas da Califórnia em busca de um lugar que tivesse solo de calcário, o que não é fácil, já que apenas 1% dos solos de lá são assim. Mas encontramos o que procurávamos em Paso Robles, compramos 120 acres e fomos plantar vinhas. Nessa época, pensamos em produzir blends, mais ou menos ao estilo Châteauneuf-du-Pape, fomos procurar as uvas para fazê-lo, e nos demos conta que não acharíamos, porque elas não existiam. Levamos então algumas mudas de Beaucastel, mas, pelas regras do país, tivemos que deixá-las em quarentena durante três anos, e, passado esse tempo, eles nos devolveram três mudinhas de cada uma. Então tivemos que montar uma estufa e devagar fomos reproduzindo-as e plantando as videiras. Produzimos um vinho californiano de uma maneira francesa, com oito variedades diferentes. E uma coisa muito importante é que temos muita gente visitando a adega, 60% da produção fica na adega. Temos 25 mil visitantes por ano, é incrível. É a América. [risos]

Quais são os melhores mercados hoje?
Nossos mercados são muito bons. A boa imagem do vinho francês está voltando, apesar de o Novo Mundo ter vinhos muito interessantes. Hoje as pessoas estão procurando mais finesse, vinhos mais bebíveis. Talvez o vinho tradicional volte a cair no gosto das pessoas. Tivemos dois períodos, um em que a estrutura tinha mais importância, e o atual, em que acho que a finesse está valendo mais. Muitas pessoas comentem o erro de confundir estrutura com complexidade. Você pode ter complexidade sem ter muita estrutura. No Novo Mundo, os melhores vinhos são aqueles mais estruturados, com muita maturação, muito açúcar e muita fruta. É fruta com açúcar, essencialmente. Mas acredito que o gosto dos consumidores talvez esteja mudando. Não tenho certeza disso, mas é o que sinto. O vinho é uma bebida, e as bebidas precisam ser refrescantes. Se ele for muito estruturado, vai ser bom para ser degustado, mas não para ser bebido em quantidades maiores.

"Queremos manter o que temos para poder passar para a próxima geração. Se você só pensar no dinheiro, certamente vai vender seu Château. Mas se pensar em seus ideais, não. Temos que criar nossos filhos com esse pensamento"

Robert Parker foi fundamental para a fama dos vinhos do Rhône?
Ele é muito importante. Ele adora os vinhos do Rhône. A Borgonha é muito conhecida, Bordeaux também. O Rhône, originalmente, também eram bem conhecido. Mas, com o passar do tempo, pelos produtores não serem tão famosos, a região foi perdendo visibilidade. Mas Robert Parker disse ao mundo que os vinhos do Rhône são muito bons e de bom preço também, se comparados com Bordeaux, por exemplo. Graças a Parker é sabido que os produtores do Rhône são capazes de produzir grandes vinhos, assim como Bordeaux ou Borgonha. Ele foi de grande ajuda para nós, produtores.

Vocês fazem parte da Primum Familiae Vini, uma associação de que só participam produtores familiares. O que isso representa?
Acredito que a coisa mais importante da PFV não é o que isso traz para a gente, ou para o mercado, mas, sim, para as próximas gerações. Temos dois eventos importantes por ano: um jantar de gala e uma assembleia geral, que é quando vamos visitar os vinhedos, todas as famílias, com nossos filhos etc. Estar num negócio familiar, nos dias de hoje, é muito difícil, pois o preço da terra é alto. Então, se você quiser manter isso na família, é porque você ama aquilo, porque aquilo já faz parte de você. E quando vamos com as crianças e todo o resto da família, entendemos que isso vai muito além do dinheiro. Todos nos conhecemos bem, temos orgulho e nos achamos sortudos de estar nisso. Queremos manter o que temos para poder passar para a próxima geração. Se você só pensar no dinheiro, certamente vai vender seu Château. Mas se pensar em seus ideais, não. Temos que criar nossos filhos com esse pensamento.

VINHOS AVALIADOS
Gigondas 'La Gille" 2009 - R$ 168 - 91 pontos
Coudoulet de Beaucastel 2009 - R$ 136 - 90 pontos

Por: Arnaldo Grizzo E Carolina Almeida

Publicado em 15 de Maio de 2012 às 14:34


Entrevista

Artigo publicado nesta revista

O sabor da terra

Revista ADEGA 79 · Maio/2012 · O sabor da terra

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