Carvalho,da barrica à parede

Bodegas Muga mesclam tradição com inovação na arquitetura, tendo a madeira como ponto fundamental


fotos: Divulgação
Os detalhes em madeira são destaque por todos edifícios e a construção da torre foi pensada também com o intuito de criar uma nova imagem comercial para a vinícola espanhola

O carvalho está intimamente ligado ao vinho. Em barricas ele, descansa e se aprimora para poder alcançar seu auge. Portanto, sua relação com a bebida de Baco não poderia ser mais direta, e foi nisso que as Bodegas Muga se inspiraram para construir os seus prédios.
Sendo uma das poucas vinícolas espanholas a ter tonelaria própria, a Muga preza o trabalho em madeira.

Contendo um prédio com mais de 140 anos, a arquitetura do local é constantemente ligada à presença do carvalho, que comparece não só nos móveis e na decoração, como também nos 200 depósitos e 14 mil barricas fabricadas a partir de carvalho de, pelo menos, cinco origens diferentes: França, Estados Unidos, Hungria, Rússia e a própria Espanha.

Situada em uma região com mais de 500 metros de altitude, nos montes Obarenses, as Bodegas Muga – protegidas das chuvas e ventos vindos do oceano Atlântico pela serra da Cantábria, o que lhe rende clima e solo invejáveis – possuem muros lembram fortalezas da Idade Média.
A bodega está em uma área de 25 mil metros quadrados, englobada pelo bairro de La Estación, nas margens do rio Ebro, no município de Haro, em La Rioja – principal região produtora espanhola. Estima-se que o cultivo de vinhos no vale do Ebro date exatamente do período da Idade Média. A produção, que foi crescente desde aquela época, calhou na construção de “bairros vinícolas”, como é o La Estación. Mais tarde, em 1880, com a construção de uma linha ferroviária que passava pelo local, muitas bodegas foram se assentando na região e nessa época, mais precisamente em 1882, a Muga foi fundada.

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O prédio mais antigo data de 1862, mas o projeto de renovação atual foi elaborado pelo escritório de arquitetura Iñaki Aspiazu Iza, que buscou aglutinar diversos atrativos que dariam maior notoriedade para os produtos da família. Iniciada em 1998 e com obras que demoraram 10 anos a serem finalizadas, a Torre Muga – que foi concebida como um elemento livre e de destaque na paisagem – é capaz de proporcionar uma vista panorâmica de toda a área da vinícola e também serve de marca registrada da bodega.

fotos: Divulgação
Carvalho, da barrica à parede Desde a recepção, passando pela loja, salão de prova de degustação, até chegar aos barris, o carvalho é presença constante

Três pisos

A Muga é composta por três pisos no total, todos muito bem iluminados e que realçam as características decorativas do projeto. Cada um desempenha um papel no conjunto de funcionamento do local. O térreo é onde se dá a recepção aos visitantes, e é também o local onde se encontram alguns produtos para vendas.

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O primeiro andar é um espaço reservado para a troca de informações, que inclui uma biblioteca e um espaço audiovisual. Já no segundo piso está localizada a sala de degustações, que contém janelas em todo seu perímetro, permitindo que o visitante tenha uma visão privilegiada dos arredores da bodega.
Seguindo a tradição familiar, que está ligada ao vinho desde o século XIX, toda a nova arquitetura foi cuidadosamente estudada para que a acolhida aos visitantes fosse otimizada.

Arranjo

A intervenção arquitetônica segue os mesmos parâmetros de qualquer bodega tradicional, mas contém alguns diferenciais: inclui também pinceladas de processos de elaboração mais inusitados.
A aposta das Bodegas Muga é a utilização de materiais naturais, como a madeira, que com suas propriedades físicas de retenção de calor acaba propiciando um clima aconchegante, lembrando a cortesia habitual da família.

Os pavimentos naturais de pedra e o piso de madeira laminada do térreo dão o assentamento ideal para a recepção aos visitantes, contendo paredes revestidas de diversos tipos de madeira, que se assemelham às tonalidades dos barris de carvalho usados para o envelhecimento dos vinhos.

Visando maior aproveitamento durante as projeções decorrentes das visitas, o primeiro andar foi desenhado num ambiente que combina paredes de madeira com piso em tons de basalto escuro, evitando reflexos da luz interna e externa.
No segundo andar, a área de degustação se configura como um espaço revestido predominantemente de cristais e vidros, materiais de grande luminosidade, casando a plataforma de madeira com janelas cristalinas que ajudam a realçar o contraste cromático durante a degustação.

Os móveis fabricados foram produzidos a partir do mesmo material dos revestimentos de todo o complexo, unindo a funcionalidade com a qualidade dos materiais naturais, o que auxilia na integração de todos os componentes num único espaço.



Carolina De Carvalho Almeida

Publicado em 5 de Novembro de 2009 às 12:37


Enoarquitetura

Artigo publicado nesta revista