Em nome das filhas

Dos frutos da amizade entre duas meninas (e seus pais, Roberto Luka - nosso entrevistado - e Gustavo Benvenuto) nasceu um projeto vitivinícola bem sucedido em Mendoza


Nome Finca Sophenia é a junção dos nomes da filha de Roberto Luka (Eugenia) e seu sócio, Gustavo Benvenuto (Sophia)

Roberto Luka teve um papel fundamental na indústria vitivinícola de seu país, como diretor geral de Finca Flichman e como presidente de Wines of Argentina, instituição onde ainda performa a função de conselheiro. Seu projeto pessoal, Finca Sophenia nasce no final da década de 1990 em sociedade com o pai de uma amiga de sua filha, chamado Gustavo Benvenuto. Assim, a vinícola é batizada com o nome das duas amigas de infância (Sophia e Eugenia).

Em sua última viagem ao Brasil tivemos a oportunidade de conversar degustando seus vinhos em um exclusivo e prazeroso almoço, em que Luka nos deu um belo panorama da região de Tupungato e discorreu sobre as tendências e preocupações vitivinícolas da Argentina.

"Queremos promover não o vinho volume, mas, sim, o vinho como parte de um estilo de vida. Um vinho para desfrutar"

Finca Sophenia está estabelecida em Tupungato, um dos terroirs mais interessantes de Mendoza. Em termos de terroir, como começa a vinícola?
Comprei a terra em 1997, plantei as uvas em 97 e 98, com a ambição de ser uma referência em qualidade de vinhos argentinos no mundo. Comprei a terra sem absolutamente nada - nunca fora cultivada antes -, aos pés da Cordilheira dos Andes, onde ninguém tinha ido até aquele momento. Sophenia foi uma pioneira na zona alta do Vale do Uco, em Tupungato (a 1.200 metros de altura). Em minha opinião, qualidade depende de terroir, e elegemos Tupungato porque acreditamos que é o melhor terroir que a Argentina proporciona hoje.

Por que você acha isso?
Por vários motivos. Um deles basicamente é que Mendoza está mais perto do Equador do que Toscana, Bordeaux e Napa e, portanto, temos que resolver o problema da temperatura. A solução é ir a altitudes maiores e consequentemente mais frias. Por outro lado, estando ao lado da montanha, temos uma grande amplitude térmica - contraste de temperatura entre o dia e a noite. Ao ter esse contraste, a pele da uva se engrossa, porque tem que proteger as sementes. Ao chegar o frio da noite, a videira pensa que termina seu ciclo e quer proteger a semente.

E começando do zero, como você escolheu o que plantar?
Em nossos 130 hectares de vinhedos, todas, menos a Malbec, são plantas que trouxemos de viveiros de Bordeaux. São clones selecionados. Naquele momento, selecionar um clone era também uma aventura, pois não existia nenhuma experiência sobre os clones na Argentina. Fiz isso com auxílio de um livro em francês e um par de agrônomos que me ajudaram. Elegi um clone para estrutura, outro com um pouco mais de frutas, outro para maturar mais tarde. Mas todos eram os menos produtivos possíveis. Porque os menos produtivos em Bordeaux ou em outros lugares seriam mais produtivos na Argentina. Então, se fosse um clone com produtividade média, na Argentina ia ser super produtivo. É algo que sempre fazemos: controlamos a produtividade. É como uma fêmea de cachorro. Se tem 10 filhotes, dois morrem, dois saem fracos, e seis ficam bem. Se tem quatro cachorros, todos podem mamar, engordam e ficam bem. Em uma videira com poucos cachos, todos são concentrados e fortes. Essa é a filosofia.

Para Luka, "a Argentina não vai ser como Austrália. São todos produtores que têm o seu foco na qualidade, em fazer as coisas bem feitas. A indústria, como um todo, quer que a promoção e a direção estejam nas mãos de produtores argentinos, que se preocupam com a qualidade."

"É algo que sempre fazemos: controlamos a produtividade. É como uma fêmea de cachorro. Se tem 10 filhotes, dois morrem, dois saem fracos, e seis ficam bem. Se tem quatro cachorros, todos podem mamar, engordam e ficam bem. Em uma videira com poucos cachos, todos são concentrados e fortes. Essa é a filosofia."

Qual sua fórmula para qualidade?
Terroir, vinhas próprias, uma vinícola equipada com a última tecnologia e, o mais importante, as pessoas. Estou há muitos anos nesse negócio. Matias Michelini, nosso enólogo e parceiro, esteve antes em Luigi Bosca e Doña Paula e é considerado um enólogo jovem e transgressor, muito reconhecido no mundo por suas coisas um pouco loucas, mas que marcam sua personalidade. Ele tem 34 anos e quatro filhos. Muito produtivo. [risos]

Nada de baixo rendimento nesta área, não?
[risos] Neste caso, não mesmo. Também nos acompanha Michel Rolland, que nos ajuda para que os vinhos estejam dentro do que o mercado requer.

"Temos que fazer um produto que tenha mais qualidade do que sugere seu preço. Fazendo isso, não importa o país, o mercado, se tem produtos próprios ou não tem, vai ser um produto bem aceito"

Pode nos explicar o nome Sophenia?
É uma combinação de nomes, Sophia e Eugenia, a filha de meu sócio e a minha filha. Então, fizemos uma assemblage dos nomes. Elas ficaram amigas aos três anos, no jardim de infância. E nós, pais, ficamos amigos por causa delas. Quando elas tinham 11 anos, falei com Gustavo, pai de Sophia: "Porque não fazemos algo juntos?" Ele era do segmento financeiro e perguntou o que poderíamos fazer. "Plantemos uma vinha." E o nome teria que ter a ver com o nome das meninas. E eu, apesar de ser o maior acionista, não pude chamar de Eugesophi, porque era muito feio [risos]. Pesquisamos o nome em companhias de imagem em todo o mundo e a aceitação era muito boa, remetia à sofisticação (sofistication), leveza (soft)...

Como é o Vale do Uco dentro de Tupungato?
Muitos produtores sempre falam que Uco é realmente um lugar muito especial... Temos Mendoza e, dentro de Mendoza, distintas regiões. Assim como existe Bordeaux e muitas outras regiões. Vale do Uco é uma região dentro de Mendoza, ao sul e ao oeste. Dentro do Uco há sub-regiões, uma é Tupungato. Tupungato é reconhecida pelos especialistas, hoje, como a região mais elevada em qualidade em todo o Vale do Uco.

#Q#

Estivemos há pouco na Primeira Zona em Luján de Cuyo e também ficamos muito impressionados.
A região é mesmo muito boa. A diferença, digamos, é que em Luján, Primeira Zona, pensamos em Malbec com muita fruta vermelha, doces, marmelada... Se vamos à altura de Tupungato, o Malbec é mais mineral, com especiarias, florais - com muito de violeta - e frutas negras. São distintas, ambos de muita qualidade. A altura nos dá uma vantagem de longo prazo contra o aquecimento global...

Além do terroir, uma tendência é a busca de outra variedade ícone para a Argentina. Mas, você não cultiva Bonarda nem Torrontés em seus vinhedos.
Não temos Torrontés em nosso vinhedos, mas alugamos um vinhedo de Torrontés em Tupungato e fazemos um Torrontés diferente, de clima frio. E, de fato, não temos Bonarda.

Apesar de não ter Bonarda, você acredita que esta casta poderia ser uma opção para sair da pressão do Malbec?
Outro dia tivemos uma reunião no conselho de Wines of Argentina. Estavam todos muito preocupados pelo problema do Malbec. Eu, ao contrário, penso que Malbec foi uma benção para a Argentina. Recordo que, há dez anos, estava no Chile, conversando com produtores que me disseram que a gente tinha uma coisa maravilhosa, a Malbec. Eles tinham a Carménère, mas ainda não era tão conhecida, era uma casta difícil, e eles teriam que trabalhar muito nisso. A Austrália tinha o Shiraz, Nova Zelândia seu Sauvignon Blanc, Califórnia tem o Cabernet e Chardonnay, Bordeaux é Bordeaux, Borgonha é Borgonha, Champagne é Champagne, não importa a uva. Temos que seguir esse modelo e reconhecer que Argentina é Malbec, mas fazer disso uma porta de entrada, e as pessoas irão descobrindo que Argentina é mais do que Malbec. Eu não pensaria qual é a variedade. É muito difícil do ponto de vista de comunicação ter mais de um conceito para emplacar na mente do consumidor.

Você falou que foi um dos primeiros a reconhecer o potencial de Tupungato. O que lhe chamou a atenção naquele momento? Quando trabalhava e dirigia a outra vinícola grande, comprava muita uva. E um dos lugares onde ia comprar uva era o Vale do Uco. O Uco estava desenvolvido, digamos, de Tupungato até uma certa altura para baixo. Isso acontecia porque a irrigação por gotejo não estava muito desenvolvida. Tudo era irrigação por inundação. Nossa terra tem um declive de 6%, e isso não se pode cultivar com inundação. Eu via o que estava acontecendo com a qualidade mais abaixo e estava certo de que mais acima seria ainda melhor.

Era um momento único na indústria argentina. 1995 era quando tudo começava, não?
Sim. A compra se fez em 1997 e, em 98 e 99, plantei. E em 2001 fui presidente da Wines of Argentina, durante quatro anos, até que veio Suzana Balbo, e agora veio Alberto Arizu, que acaba de ser eleito. Há uma coisa muito importante aí, falando de por que a Argentina não vai ser como Austrália. São todos produtores que têm o seu foco na qualidade, em fazer as coisas bem feitas. A indústria, como um todo, quer que a promoção e a direção estejam nas mãos de produtores argentinos, que se preocupam com a qualidade. Porque queremos promover não o vinho volume, mas, sim, o vinho como parte de um estilo de vida. Um vinho para desfrutar. Quando me perguntam quantos litros se tomam, não penso que seja uma medida adequada. Penso, sim, em qual é o valor, e qual é a fração de consumo.

Como ex-presidente da Wines of Argentina, você tem uma visão global do mercado de vinhos. Na minha opinião, o mercado do vinho está se desenvolvendo em velocidades e direções distintas em cada país. Nos Estados Unidos busca-se uma característica, no Japão você encontra outra coisa, no Brasil, diferente. Para onde um produtor aponta na hora que vai planejar qual vinho deve produzir? Obviamente respeitando as limitações e características de seu terroir.
Penso que o ser humano é um indivíduo que, mesmo inconscientemente, decide rumo à qualidade. O ser humano sempre quer coisas melhores. E é nisso que tem que pensar um produtor que sai ao mundo. O primeiro a fazer é qualidade. O segundo... é qualidade. O terceiro, qualidade. Mas a qualidade em cada lugar tem um atributo diferente. O quarto é começar a pensar nos mercados. Como se faz a qualidade em função do preço médio do mercado? Temos que fazer um produto que tenha mais qualidade do que sugere seu preço. Fazendo isso, não importa o país, o mercado, se tem produtos próprios ou não tem, vai ser um produto bem aceito.

Podemos enfrentar problemas de abastecimento de Malbec no Brasil?
Este ano, a safra foi menor. No ano anterior, a safra também foi menor que o usual. Creio que o abastecimento vai ser difícil nos vinhos de mais baixo preço. Porque a uva Malbec está mais cara. Quem tem vinhedos próprios não tem problemas, mas é possível que quem depende da comprar de uvas para produzir possa ter que reajustar os vinhos de escalão de preços menores.

Tanto por parte da queda de produção quanto pela maior demanda do mercado internacional para o Malbec?
Penso que sim. Ambas as coisas. Há uma demanda muito maior, não só pelo Malbec como para todas as uvas da Argentina. Este ano, o preço das uvas está 80% mais caro que o ano anterior, em dólares. Mas talvez seja bom para a Argentina, para que não haja vinhos não bons a preços bem baixos.

#Q#

Mas podemos ter vinhos não tão bons a preços altos, não acha? Isso é o problema. Mas acho que isso morrerá.

"Tupungato é reconhecida pelos especialistas, hoje, como a região mais elevada em qualidade em todo o Vale do Uco."

O grande problema disso é que, muitas vezes, o primeiro contato do consumidor pode ser com um vinho de má qualidade.
Creio que a Argentina poderia sofrer disso cinco anos atrás. Havia uma grande diversidade, mas muitas vinícolas saíram do mercado nos últimos cinco anos. Hoje, no geral, é muito difícil que alguém faça um vinho ruim. Creio que os vinhos alcançaram um padrão mínimo de qualidade.

"A altura nos dá uma vantagem de longo prazo contra o aquecimento global..."

Quando vemos tanta oportunidade de crescimento para o Malbec, surge imediatamente a pergunta: até onde pode ir Mendoza?
Creio que, se as condições financeiras forem normais, não tem limite. Temos um território muito grande. Na Argentina, tem muito isso. Se acaba Mendoza, temos outras províncias. Temos condições muito boas. A água é um problema, mas, com uso racional, creio que podemos triplicar o atual.

Por Christian Burgos

Publicado em 28 de Junho de 2010 às 09:14


Entrevista

Artigo publicado nesta revista