Inserido na paisagem alentejana

Projeto da Herdade do Rocim foi feito para que a vinícola não destoasse da paisagem do Alentejo, integrando modernidade e tradição


Fotos: Divulgação

Entre as planícies do Alentejo, em meio a um território simples e campestre ao sul de Portugal, uma construção de formatos retilíneos, de ar imponente e moderno pode passar despercebida aos olhos. O objetivo era esse. Tornar um edifício de aparência industrial e técnica, em algo de aspecto contínuo e harmonioso, como os vastos campos da região. Vinícola e paisagem se fundem na Herdade do Rocim.

Fotos: Divulgação
Grandeza do edifício da Herdade do Rocim é sentida no interior. Móveis de design moderno completam a decoração

Na estrada que liga Cuba a Vidigueira, cidades do sul português, uma discreta porta de madeira e uma extensa muralha de pedras formam a entrada da propriedade. Na primavera, a construção se torna um pouco mais chamativa, com o jardim, que molda o caminho até a porta, cercado por fl ores coloridas.

Ao entrar na Herdade do Rocim, a primeira coisa a se notar são os espaços amplos. Com 6 mil metros quadrados, o tamanho da construção não passa despercebido em seu interior. Na verdade, a grandeza do ambiente constitui a sua própria decoração que, juntamente com móveis de design contemporâneo, passam um aspecto moderno e anguloso. Para contrastar, barro, palha entrelaçada, pedras e outros materiais de origem natural e aparência rudimentar são a matéria-prima de vasos, cadeiras e enfeites.

O centro do edifício fi ca ao ar livre. O pequeno anfi teatro, com chão de cascalho e bancos da madeira, tem aparência moderna, porém rústica. Paradoxo que se tornará um padrão na Herdade do Rocim.



Construção de formas retilíneas pode passar despercebida aos olhos

#Q#

Uma construção que se oculta
"Se este edifício tem algo que o caracteriza, e talvez o distinga dos restantes, é este lado de paisagem, a noção de onde começa e de onde acaba, a noção de onde: 'afi nal isto é jardim?' e de onde nasce esta estrutura que é edifício", assim explica o arquiteto responsável pela construção da Herdade do Rocim, Carlos Vitorino. "Por outro lado", diz Vitorino, "é a noção da fábrica oculta, que se integra à paisagem. Um lado fabril, industrial, duro, técnico, masculino, mas por outro lado tem esse ponto doce, contínuo, harmonioso que se insere na paisagem".

Pode-se dizer que grande parte dessa impressão se deve à mistura entre o rústico e o moderno, utilizando ingredientes vindos da própria natureza que rodeia a vinícola para construir. A taipa, uma mistura de argila e cascalho, normalmente usada como matéria-prima de casas mais simples, dá formas ao moderno edifício, união que confere ares de história e tradição a uma construção de apenas quatro anos.

A construção com taipa é usada na região há milênios e lá há uma maneira singular de produzi-la, que apresenta característica térmicas muito interessantes e também uma vertente de processo manual. Carlos Vitorino explica que o uso do material se deve "ao desejo de enquadrar a obra no seu contexto sociocultural, porém com reflexo em uma atividade industrial de dimensão global".

Assim, o antigo e o novo, a natureza e a construção, interagem de forma orgânica e simultânea, compondo esse cenário ao sul de Portugal. Foi exatamente esse pensamento de integração entre as tradições do vinho e da região que inspiraram o arquiteto.


Taipa - matéria-prima comumente usada na construção de casas mais simples - dá tom tradicional ao moderno edifício


Fotos: Divulgação



#Q#

História
Apesar de a história do vinho na região do Alentejo remeter a um passado anterior ao Império Romano, a vinícola da Herdade do Rocim foi construída recentemente. Em 2000, a região foi comprada pelo grupo Terralis que, durante seis anos, reestruturou a produção vinícola do local e construiu o edifício.

A ideia era construir não somente uma vinícola, mas um local que pudesse qualificar a vinícola, conciliando a manufatura do vinho com outras atividades relacionadas à cultura e ao lazer da região. O edifício de dois andares é formado por uma loja, um bar, um anfiteatro, sala de barricas, laboratórios e escritórios. A estrutura polivalente dos ambientes torna a construção perfeita para abrigar vários tipos de eventos, como recitais de música e exposições.


Área sagrada
A frase "toda adega tem uma área sagrada", dita pelo arquiteto Carlos Vitorino, se aplica a dois ambientes da Herdade do Rocim. Primeiro às portas de entrada, o primeiro contato com o mundo misterioso de uma adega. Em seguida, à sala de barris, que é apresentada ao visitante através de uma barreira translúcida. A parte mais íntima e sagrada do edifício.

A construção de dois circuitos, um de visitas e um fabril, possibilita que o visitante conheça todo o processo de fabricação do vinho, tornando-o quase uma testemunha da vinícola. O caminho termina de volta ao amplo salão de entrada, de onde o visitante pode seguir para o bar, para a loja ou para algumas das diversas salas.

A última área a se conhecer é o topo da Herdade do Rocim. Coberto por jardins, o último piso da vinícola nos traz de volta à condição de simples mortais. Com seus 6 mil metros quadrados, a construção só não ganha em vastidão e em beleza dos 60 hectares de vinhas e planícies, típicas do Alentejo, que a circundam.


Intenção do arquiteto Carlos Vitorino era de que o lado fabril da vinícola fosse completamente integrado à paisagem

Fotos: Divulgação


Fabiana Pires

Publicado em 23 de Julho de 2010 às 07:48


Enoarquitetura

Artigo publicado nesta revista