Lições de uma nova Mendoza

Produtores argentinos aproveitaram o sucesso da Malbec no mundo, mastrabalham para que a vitivinicultura argentina seja muito maior do queapenas uma variedade ícone



O famoso “value for money” dos Malbecs argentinos é extremamente conhecido no Brasil, mas ainda uma novidade em países como Estados Unidos e Inglaterra

Os vinhos argentinos surfam uma onda internacional que poucos países tiveram a oportunidade de experimentar. Quando, na esteira da crise mundial, os consumidores dos principais mercados do mundo passaram a se importar como nunca com a relação custo benefício dos vinhos, a Argentina e seu Malbec caíram como uma luva no gosto global.

O “value for money” dos Malbec jovens, embora extremamente conhecido no Brasil, é percebido como uma novidade em países como Estados Unidos e Inglaterra, por exemplo. Tanto que, em conversa com a produtora californiana Camile Seghesio, fomos questionados se havíamos incluído a Malbec em uma matéria que tratava sobre uvas raras.

Em recente viagem à Argentina, vimos que as transformações, embora medidas em safras, estão em ritmo acelerado. Os jovens enólogos, que ingressaram no mercado quando os desbravadores da nova enologia argentina transformavam o país 15 anos atrás, têm o respeito de seus pares e falam de seus mestres com grande admiração, com a confi ança de quem assimilou bem os conhecimentos transmitidos e estão aptos a conseguir integrar as práticas tradicionais à moderna tecnologia e ao conhecimento bioquímico.

Essa nova geração de enólogos nasceu praticamente junta e compartilha um senso de missão além de suas empresas, como explica o enólogo da Trivento, Germán Di Césare, que se reúne mensalmente com outros colegas de destaque hoje. Eles estudaram juntos desde a juventude no liceu agrícola e continuaram unidos depois na faculdade de enologia. Nessas reuniões, degustam vinhos argentinos e estrangeiros e discutem sobre eles, trocando impressões e informações, com foco no desenvolvimento dos fermentados argentino como um todo.

Há também o exemplo do enólogo Hermán Cortegoso, da Bodega Serrera. Dizer que “o vinho se faz no vinhedo” e que “o trabalho do enólogo é não estragar os bons frutos que recebe” tornou-se quase um clichê no mundo do vinho. Embora absolutamente correto, poucas vezes pode-se ver tanto comprometimento com essas afi rmações, como no caso de Hermán, Vito e seu fi nado sócio Andy, que fazem parte desta jovem geração de enólogos. Entre a decisão de construir a estrutura da vinícola e comprar uvas de terceiros; ou comprar mais 100 hectares de terra em Tupungato, postergando a construção da vinícola, decidiram pela segunda opção, adquirindo as terras.

Acertaram na mosca, pois, em conversa com Suzana Balbo, enóloga e proprietária da Domínio Del Plata, sabe-se que, pelo crescimento da sede mundial pelo Malbec argentino e por uma quebra de produção, o preço das boas uvas foi às alturas neste ano. Suzana vai mais longe e acredita que existe espaço de mercado para a plantação de mais 8 mil hectares de vinhedos da casta ícone da Argentina.

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fotos: Luna Garcia

Aprendendo com a Austrália

A produção corre em direção à demanda, mas o país está pensando estrategicamente e quer ir além do Malbec. Essa compreensão e valorização do conceito de terroir é a próxima tendência em uma nação que vendeu tão bem o conceito “país” de seus vinhos e sua variedade emblemática. Em verdade, cabe à Argentina aprender com os erros do modelo australiano (que se focou somente no Shiraz) e trabalhar em dois caminhos que podem ser percorridos conjuntamente: a supervalorização do terroir e o desenvolvimento de novas castas emblemáticas, como a tinta Bonarda e a branca Torrontés.

Dentro desta visão, Di Césare pontua: “Nós, argentinos, errávamos ao imitar Austrália, Estados Unidos e França. Agora pesquisamos e fazemos o que é bom para Mendoza, Rio Negro ou Salta. Potencializamos a nossa terra.”

Quanto menor for a latitude, mais altitude necessária nos vinhedos. Sendo assim, há grande diferença de altitude dos vinhedos entre Patagônia e Salta

Isso claramente nos traz para a valorização do terroir e hoje já é estimulante degustar e comparar diversos terroirs de Malbec. Isto nos leva, inclusive, a dar mais importância ao papel do enólogo na elaboração de blends. E nomes como Lujan de Cuyo, Tupungato, Valle de Uco, Primeira Zona, Vistaflores, Altamira, Vistalba e outros tendem a ganhar relevância nos rótulos dos melhores produtos e encontrar seus fãs.

Indo ainda mais além do desenvolvimento de novas variedades ícones, é muito interessante notar que, ao mesmo tempo que se sente um movimento organizado na busca de qualidade superior e valorização das “novas emblemáticas” – Bonarda, com sua rusticidade e toques silvestres, e a aromática Torrontés – vemos como elas vêm se destacando em qualidade nas degustações com variedades clássicas, como Cabernet Sauvignon e mesmo Petit Verdot e Merlot.

Belos exemplos, como Bodega Serrera e Ruca Malen, mostram um novo paradigma na elaboração de vinhos que vão do clássico ao moderno na procura de patamares cada vez mais altos de equilíbrio e estrutura, abandonando a busca incessante por mais opulência, madeira e álcool, e trabalhando com o conceito de acidez presente e também na maestria da integração da boa madeira ao vinho.

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fotos: Luna Garcia
Além da Malbec, os argentinos estão tratando de desenvolver outras castas ícones, como a Bonarda, Torrontés, Merlot, Petit Verdot, Cabernet Sauvignon etc

Latitude x altitude

Pablo Cuien, jovem enólogo de Ruca Malen, esclarece impecavelmente o funcionamento dos terroirs na Argentina. Segundo ele, a maioria das regiões produtoras do mundo tem seus terroirs definidos fortemente pela proximidade dos vinhedos ao mar. Mas, no caso argentino, embora a cerca de 300 quilômetros de distância do oceano Pacífico, a Cordilheira dos Andes forma uma barreira de até 6 mil metros de altura, eliminando essa influência e gerando um clima continental e desértico, onde prevalecem o calor e a luminosidade.

Com a possibilidade de extrair água dos Andes ou de alguns rios formadores de “oásis” no deserto, restam as variações de latitude e altitude para “jogar” na procura pelo “terroir perfeito”. Isso sempre em busca do controle de temperatura, de forma a impedir o excesso de calor capaz de interromper a fotossíntese de dia e buscar o frio necessário para promover a diminuição do funcionamento bioquímico da planta à noite.

Diante desse fato, quanto menor for a latitude, mais altitude necessária nos vinhedos. Tome, por exemplo, que os vinhedos na Patagônia estão, em média, a 400 metros de altitude; Mendoza, a mil metros; e Salta, no extremo norte, a mais de 2 mil e chegando a 3 mil metros de altitude, no rol dos mais altos vinhedos de todo o mundo.

A todas essas dimensões de desenvolvimento acrescenta-se a riqueza do fator humano. Podemos afirmar que existem diversos modelos de sucesso para as vinícolas, cada uma trazendo a mágica de sua história e relações humanas, desde a união da família dos três “mosqueteiros”, da Bodega Serrera – que se integraram de tal maneira pelos laços de amizade que, aos olhos de quem os visita encontra uma família só –, o profissionalismo e “esprit de corps” da bela Ruca Malen – que reflete em cada colaborador da vinícola a elegante personalidade de seu proprietário Antoine – e o comportamento ao mesmo tempo local e internacional da Trivento. Impossível escolher um estilo, ainda bem que podemos compartilhar e experimentar todos.

Christian Burgos

Publicado em 1 de Junho de 2010 às 13:23


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Artigo publicado nesta revista