Monumento em homenagem ao vinho

A arquitetura das Bodegas Catena Zapata, inspirada nos templos Maias, é uma homenagem à tradição do vinho e sua importância histórica


Entre os vinhedos e a Cordilheira dos Andes, a Bodegas Catena reverencia o vinho com sua construção inspirada nos templos Maias

Os Maias ergueram seus imponentes templos para homenagear e reverenciar seus deuses. Só podiam subir aos templos os sacerdotes, que formavam a classe mais culta. Eles acreditavam descender de um totem e eram politeístas. Adoravam a natureza, em particular os animais, as plantas e as pedras. Em Medonza, a Bodegas Catena foi construída para reverenciar o vinho sem abandonar as raízes históricas da América Latina.

#R#
fotos: divulgação
Vista lateral do “monumento”
A iniciativa foi de Nicolás Catena, pertencente à terceira geração da família que produz o vinho. Interessado em história e mitos, ele decidiu, há alguns anos, construir uma nova bodega, com o intuito de produzir vinhos de alta qualidade, principalmente para exportação, utilizando a tecnologia mais avançada disponível no mercado. Ele queria, no entanto, um projeto arquitetônico que se diferenciasse dos demais, algo que pudesse expressar, autenticamente, a origem sul-americana de seu vinho, em contraste com as construções da Europa e do Velho Mundo. Durante uma viagem à Guatemala, ao lado de sua esposa Elena Catena, ele encontrou um monumento apropriado que pudesse inspirar os traços de sua nova bodega: um impressionante templo Maia, construído na cidade de Tikal, em uma região montanhosa. Ao retornar à Argentina, contatou o renomado arquiteto Pablo Sánchez Elía para visitar o local, com o intuito de se inspirar para modelar o design da bodega. Os Maias eram extremamente avançados para a sua época e hábeis em matemática e arquitetura.
O centro da Bodega: "espinha dorsal" que leva o visitante aos três andares
fotos: divulgação
Sala de degustação no subsolo
Dessa maneira, surgiu, no ano de 2001, o novo e magnífico projeto da vinícola, inaugurado em abril daquele ano. A arquitetura é inspirada no monumento Maia, em formato piramidal, algo até então inédito em projetos de construção do mundo vinícola. Para a confecção das portas, suportes de teto e móveis foram utilizadas madeiras de árvores locais, como videiras autóctones e salgueiros.

A Catena está localizada em um dos vinhedos da corrente de Nicolas, em um vale que fica a 940 metros acima do nível do mar. O solo e o clima seco foram favoráveis para o crescimento das videiras que se adaptaram bem ao clima, plantadas em 105 hectares distribuídos ao redor da impressionante construção. Para chegar a esta vinícola, é preciso seguir por uma estrada reta. Logo se vê os vastos vinhedos alinhados pelo longo terreno. Em seguida, a visão se surpreende com a pirâmide dedicada ao vinho.

#Q#
fotos: divulgação
Bodegas Catena: o Templo Maia do vinho
O centro do edifício é o que podemos chamar de a "coluna vertebral" dessa construção. Um grande círculo, envolto em mármore bruto, permite visitar os três andares, onde se situam as escadas que conduzem aos andares superiores. No piso térreo, localiza-se a área de recepção, escritórios e uma loja, além de mesas com confortáveis cadeiras acolchoadas onde é possível degustar o vinho, frente a uma grande janela pela qual se aprecia a paisagem. Há ainda uma pequena biblioteca dedicada à literatura do vinho.
fotos: divulgação
Sala de armazenamento no subsolo
No andar superior, está situada uma pequena sala de jantar para aproximadamente quinze convidados. Nesse piso, as portas deslizantes conduzem a um salão de eventos com capacidade para até 150 pessoas. O melhor deste andar, no entanto, é a visão que se tem da paisagem externa, com videiras, plantadas de acordo com as melhores condições da luz solar e a Cordilheira dos Andes ao fundo. No topo da construção fica um vitral circular, que permite a iluminação natural do sol.
fotos: divulgação
Paisagem arquitetônica
Basta descer as escadas para chegar ao subsolo da pirâmide, onde são armazenados cerca de seis mil barris para envelhecimento do vinho, milimetricamente alinhados. A entrada, localizada no centro da bodega, é envolta por um muro em formato circular e construído com rochas, assim como eram feitos os templos Maias. Ainda há, nesse subsolo, um confortável salão em formato de semi-círculo, iluminado por lustres de design moderno e uma bela e longa mesa de madeira escura, para pequenas e reservadas seções de degustação. Tanto a mesa quanto as cadeiras foram construídas com madeira centenária de lapacho, encontrada na Argentina. As bordas das colunas de toda a bodega são cobertas de metal, revestidas em uma patina protetora de cobre. As portas e os móveis também foram projetados pelo arquiteto Pablo Sánchez Elía. O salão exclusivo fica entre os barris, onde o vinho é envelhecido por aproximadamente três anos. O agradável aroma da madeira toma conta do local.

A Bodegas Catena é, sem dúvida, um local onde o vinho é reverenciado como bebida sagrada, assim como a população Maia reverenciava seus deuses. O vinho atinge seu status sagrado e mágico, como as histórias de Jorge Luis Borges.

Fernando Roveri

Publicado em 26 de Outubro de 2006 às 07:47


Enoarquitetura

Artigo publicado nesta revista