Luto

Nos deixa Celso La Pastina


 

 

O falecimento de Celso La Pastina, 61 anos, certamente deixa o mundo brasileiro do vinho menor, em todos os aspectos. No plano pessoal, por sua personalidade. Fala mansa, com uma visão aguda e comentários inteligentes que se abriam em sorriso, nunca excessivamente extrovertido. Celso era um homem cordial, que cultivava os amigos, muitos dos quais produtores representados no Brasil pela La Pastina, a empresa fundada por seu pai, Vicente, em 1947, ou pela World Wine, criada por ele próprio em 1999. No plano profissional, por ter sido um dos grandes impulsionadores do crescimento do mercado de vinhos de qualidade no Brasil nos últimos trinta anos. Marcou o mercado também por sua ética e postura, que o fizeram respeitado e admirado por parceiros e concorrentes.

Nascido em 26 de agosto de 1958 Celso era o filho mais velho de Vicente e Zenith, ambos descendentes de imigrantes italianos. Ao contrário do pai, que começou a trabalhar com 9 anos de idade por força da necessidade, só se juntou à La Pastina, por decisão própria, com quase 20 anos, em 1978, já estudante de Administração de Empresas na Fundação Getulio Vargas, em São Paulo, onde se formou no início da década de 1980. A partir daí, participou ativamente dos rumos da empresa, cujo comando assumiu definitivamente com a morte do pai, em 2013 (formada em Direito pela Universidade de São Paulo, sua única irmã, Vera Lucia, é diretora administrativa do grupo).

Entre suas primeiras lembranças de vinhos, Celso mencionava os verdes portugueses, que acompanhavam as bacalhoadas, e os Chianti, presença indispensável nas macarronadas dominicais em casa dos pais. Importar vinhos foi um passo natural na vida da La Pastina, mas a atividade ganhou muito mais visibilidade depois da abertura das importações promovida no governo Collor, com Celso na liderança da área comercial da empresa. E foi dele uma decisão crucial para alavancar as vendas da La Pastina e consolidar seu posicionamento no mercado: vender produtos como molhos, temperos e muitos outros com marca própria (hoje são dezenas de itens). Mais tarde, em 2007, foi o principal mentor da iniciativa de construir um novo e moderníssimo centro de distribuição na Móoca, outro bairro paulistano associado à imigração italiana, assim como o Brás, onde ela nasceu. Com 16 mil metros quadrados de área construída, o CD passou a abrigar também, num prédio anexo, a administração central do grupo.

A paixão pelo vinho, segundo Celso, cresceu junto com o aumento de sua participação nas vendas da La Pastina. “Virei enófilo”, comentava, sem nenhum ranço de esnobismo. Mas, a decisão de criar a World Wine, em 1999, como uma divisão separada da empresa mãe, foi mais empresarial do que emocional. A ideia, como ele próprio explicou a ADEGA por ocasião de uma degustação especial promovida para celebrar os vinte anos da WW, em 2019, era focar em rótulos de qualidade e não em volume, como a La Pastina; e também vender para o consumidor final, o que levou à abertura de lojas próprias (hoje mais de uma dezena) e não apenas para supermercados, lojas especializadas e restaurantes. Não parou por aí e compreendeu o poder do e-commerce na relação com o consumidor.

Para selecionar o invejável portfolio da World Wine, que hoje representa mais de 200 produtores e é o maior importador brasileiro de vinhos de Bordeaux, Celso se valeu não apenas de seu próprio gosto e intuição, mas também da ajuda de amigos como o produtor e consultor italiano Alberto Antonini e o frances Jacques Trefois, um apaixonado por vinhos radicado há muitos anos no Brasil. Ele creditava a esse último o fato de a WW ter sido pioneira em importar vinhos orgânicos e biodinâmicos, numa época em que isso ainda não era moda. Por sinal que um dos mais respeitados produtores franceses de vinhos biodinâmicos, Philippe Pacalet, tornou-se amigo pessoal de Celso, a ponto de ter sido padrinho de seu segundo casamento.

Além da esposa, Liliane, dos quatro filhos de seu primeiro casamento Juliana, Sofia, Jeremias e Amanda, dois trabalhavam com ele no grupo La Pastina. Por opção, o grupo fez questão de se manter familiar, pela convicção de que isso torna as decisões mais fáceis e mais ágeis. Assim, o legado profissional que deixou continua em mãos da família. 

 

Guilherme Velloso

Publicado em 20 de Agosto de 2020 às 12:00


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