Revista ADEGA

O vinho como obra de arte

Dou uma, dou-lhe duas, dou-lhe três! Este clichê nos remete imediatamente ao ambiente dos grandes leilões, onde obras de arte e objetos raros podem alcançar preços estratosféricos. Esse mundo também faz parte do universo de Baco, e nele uma mulher dese...

Marcelo Copello em 29 de Junho de 2006 às 15:12

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Serena Sutcliffe é a chefe do departamento de vinhos da Sotheby's, casa leiloeira com sedes em Londres e Nova Iorque. Mrs. Sutcliffe, que já foi descrita como sósia da atriz Vanessa Redgrave, é simplesmente uma das mulheres mais importantes do mundo do vinho. Ela ingressou no ramo em 1971, como consultora, e em 1976 se tornou a segunda mulher a receber o Master of Wine, título mais cobiçado da indústria.

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Mas isso foi só o começo - ela assina seis livros sobre o nobre fermentado e, entre os anos de 1994 e 1995, presidiu o Institute of Masters of Wine. Em 1991, tornou-se diretora da Sotheby's e chefe do seu departamento de vinhos, o que não é pouca coisa, já que os pregões dessa casa arrecadaram em 2005, só em vinho, cerca de US$ 30 milhões. Um único lote, por exemplo, de 12 garrafas de Romanée-Conti 1989, foi arrematado por US$ 85 mil. Serena, uma inglesa de 61 anos, esteve no Rio de Janeiro e nos concedeu uma entrevista exclusiva. A conversa não poderia ter sido mais interessante:

Vinho é um bom investimento?
Vinho pode ser um bom investimento. Eu acho que o motivo da existência do vinho é nosso prazer, mas se você achar que deve cobebeslocar algum dinheiro em vinho deve ser muito cauteloso, preferindo grandes Bordeaux, de excelentes anos. Sugiro também comprar sempre algumas garrafas a mais, pois dessa forma poderá beber algumas e, com as outras, financiar futuras compras.

Sabemos que uma garrafa de vinho é um objeto muito sensível, em vários sentidos. Como a Sotheby's se assegura de sua autenticidade e de sua conservação?
No que diz respeito à conservação, nós, na Sotheby's, checamos absolutamente tudo. Verificamos não apenas como a garrafa está conservada agora, mas como a garrafa foi mantida ao longo de sua vida. Quanto à autenticidade, usamos toda nossa experiência para rastrear a proveniência do que negociamos. Usamos o mesmo princípio, seja para obras de arte, seja para vinho.

Se eu tiver uma garrafa rara em casa, é fácil vendê-la na Sotheby's?
Uma garrafa apenas seria difícil, pois provavelmente seu valor não chegaria ao mínimo necessário para uma venda. Naturalmente temos um valor mínimo para justificar a catalogação, venda etc. Mas, se você tiver vinhos de certo valor, bem conservados, é simples, basta contatar-nos. Temos escritórios em todo o mundo, inclusive no Brasil. Geralmente pedimos que nos enviem por e-mail uma lista dos vinhos para estimarmos seu preço. Depois, se concordarmos com os valores preliminares, inspecionamos pessoalmente os vinhos para fazer então uma estimativa final.

Brasileiros são compradores freqüentes na Sotheby's ?
São compradores bastante regulares. Brasileiros tendem a preferir vinhos tintos, especialmente os Bordeaux. Portanto, quando temos boas garrafas bordalesas em nossos leilões, é comum termos lances de brasileiros.

É possível que algum dia vejamos um leilão da Sotheby's no Brasil?
É improvável, pois um dos fatores de sucesso de nossos leilões é que nos localizamos em centros mundiais, como Londres e Nova Iorque, pois todo o mundo vem comprar conosco. Seria difícil um americano, europeu ou asiático vir ao Brasil comprar.

Quando falamos de leilões de vinho, elevamos a nobre bebida à categoria de obra de arte, de investimento, de objeto de desejo, de prazer sofisticado. O prazer tem preço?
Alguns prazeres, como sentar em algumas das belas praias do Rio e olhar para o mar, não são caros. Beber uma ótima garrafa de vinho não precisa ser muito caro também. Mas certamente prazeres mais exóticos podem custar bem mais... E não há dúvida, a apreciação de um grande vinho pode nos dar tanto prazer quanto a apreciação de uma obra de arte.

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É possível definir diferentes perfis de compradores em leilões. Como por exemplo, "o investidor profissional", "o esnobe", "o gastador", "o conservador", "o genuíno amante do vinho"?
Praticamente todos que conheço que compram em leilões são genuínos amantes do vinho. Em 15 anos na Sotheby's só conheci uma pessoa que investia em vinho e não bebia. Mesmo os que têm enormes quantidades de vinho (que jamais conseguirão beber) adoram sacar algumas rolhas de vez em quando e apreciar com amigos. Certamente existem, os esnobes bebedores de rótulos, mas há esnobes em todas as áreas, não apenas no vinho. Vemos isso com mais freqüência na Ásia. Mas a maioria dos compradores são autênticos apreciadores. Eu gostaria apenas que eles experimentassem mais e não apenas bebessem sempre os mesmos Châteaux.

Até que ponto a crítica especializada influencia as compras em leilões?
Os críticos influenciam mais as compras "en primeur" (vinhos ainda não engarrafados). Nós, na Sotheby's, trabalhamos com vinhos engarrafados, freqüentemente safras antigas. Nossos compradores são grandes colecionadores e sabem muito bem o que querem e se influenciam muito pouco pela crítica.

A sra. pode nos contar alguma história curiosa que viveu em leilões?
Se eu começar a contar histórias engraçadas de leilões ficaremos aqui a noite toda! Lembro-me de um de meus piores momentos - eu estava atuando como compradora para um cliente que estava viajando. Tudo ia bem, eu estava fazendo lances e comprando um lote de ótimos vinhos para ele, quando para meu horror de repente o vi fazendo lances contra mim (ou seja, contra ele mesmo). Eu gritei: "Pare imediatamente! Você está fazendo lances contra você mesmo!". Portanto, a moral é: mantenha a calma em um leilão e você poderá realizar ótimas compras!

Como o mercado de leilões foi afetado pela globalização da produção e do consumo do vinho?
Dificilmente negociamos vinhos de países como África do Sul, Nova Zelândia, Chile etc. Os leilões ainda são dominados por vinhos clássicos da França, Itália, Porto Vintage e alguns californianos. Para nós, a globalização diz mais respeito aos compradores, que agora vem de todo o mundo. Hoje temos compradores não apenas da Europa e EUA, mas vários sul-americanos, asiáticos e agora também alguns russos.

Como ex-presidente do Institute of Masters of Wine (www.masters-of-wine.org), a sra. concorda que é mais difícil hoje do que nos anos 1970 conseguir esse título? O mundo do vinho hoje é mais complexo, com novas regiões produtoras surgindo a cada ano, logo a prova escrita tende a ser mais difícil? Ao mesmo tempo, os estilos se confundem, o que dificulta a prova de degustação às cegas?
Eu não acho a prova mais difícil agora, apenas diferente. No passado tínhamos menos regiões produtoras, mas o aprofundamento das questões era maior. No fim das contas, a prova era e ainda é muito difícil. A vantagem hoje é que há muito mais suporte e material disponível para a preparação para o exame.

Em sua opinião qual o melhor vinho fora da Europa para se investir?
Há muitos vinhos excelentes fora da Europa, alguns australianos são fantásticos e alguns novos californianos, como o Harlem, também. Para investir, eu recomendaria permanecer nos clássicos europeus, mas obviamente se você estocar algo bom como o Harlem você ganhará algum dinheiro.

Uma pergunta inevitável: qual é seu vinho inesquecível?
É difícil dizer pois tudo de muito bom que provei é inesquecível, e felizmente há muitos, como o Romanée-Conti 1921, o Cheval Blanc 1921, o Château d'Yquem 1929, que amo. Há pouco tempo provei Mouton e Margaux, ambos 1959, e o Lafite 1949, estavam todos adoráveis. Degustei um autêntico Mouton 1945 não faz muito tempo... Há vinhos que você nunca, nunca esquece!

A falsificação de vinhos é um grande problema hoje em todo o mundo. O que a sra. acha do problema e como ele afeta o mercado em geral?
Sim, o problema existe, e existe quase que exclusivamente para os vinhos muito, muito famosos e caros. É preciso ser muito cuidadoso e só comprar de fontes seguras. Mas esse problema acontece muito mais nos EUA e Ásia do que na Europa. Nós, na Sotheby's, tentamos atuar como um filtro para o problema e, na prática, recusamos muitos a cada ano.

A sra. chegou a provar algum vinho brasileiro? O que achou?
Eu acho o espumante da Chandon muito bom. Tive uma boa impressão do "Rio Sol", um vinho agradável, e achei o "Rendeiras" um nível acima. Gostei da combinação de Cabernet Sauvignon e Syrah. Confesso que no passado eu literalmente não conseguia beber vinhos brasileiros e agora eles são perfeitamente agradáveis. Um grande progresso!


Entrevista

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