Personalidade única

Uma história de devoção à qualidade, ao consumidor e à paciência


fotos: Luna Garcia

Entre os vinhos ícones de todo enófilo se encontra o Vega Sicilia Único. Neste ano, tive a oportunidade de conversar e degustar com Pablo Alvarez, o comandante desta vinícola única na Espanha e no mundo. Formado em Direito e com dois filhos, Pablo está à frente de Vega Sicilia desde que seu pai a adquiriu em 1982. O que deveria ser uma conversa de uma hora acabou por ser uma verdadeira aula sobre as vinhas, o mundo do vinho e uma filosofia de humildade e respeito à qualidade que compartilho com vocês nas páginas seguintes.

Seu pai comprou a Vega Sicilia em 1982. Foi um ano fantástico em Bordeaux, com certeza, mas o potencial vitivinícola da Espanha ainda era uma incógnita.
Sim, e nós compramos antes da colheita. Eu acredito que o mundo do vinho está excessivamente influenciado, ainda que seja lógico, pelas colheitas Bordeaux. Em 1982 também foi uma grande safra para nós. Neste caso, a safra de 1982 eclipsou um pouco a de 1981, que foi um grandíssimo ano em Ribera del Duero e também em La Rioja.

Eu tenho em mente que naquele ano a Espanha não tinha o reconhecimento que tem hoje no mundo do vinho. Foi um investimento arriscado e visionário, não?
Sim. O vinho na Espanha estava mudando seu conceito. Estava passando do vinho como produto de alimentação ao vinho como cultura. E foi justamente neste momento que meu pai decidiu comprar Vega Sicilia.

Qual foi o ano da fundação de Vega Sicilia?
Foi 1864. Nós somos a quarta família proprietária da vinícola.

Quando começou, qual era seu conhecimento sobre o mercado de vinho e do mundo do vinho?
Nada. Eu acredito que em todos os negócios é bom, de vez em quando, que venha gente de fora. Senão criam-se círculos tão fechados de bodeguerios que ao final não dizemos nenhuma verdade, mentimos uns aos outros e não estamos dizendo nada. Muitas vezes eu vejo que nós bodegueiros não falamos do que realmente devemos: de quem vivemos, os consumidores, os vinhos que fazemos para eles. Isso é um grave erro que cometemos. E isso acontece em todos os negócios, as pessoas criam círculos tão fechados que não tem nada a ver com o mundo exterior. No vinho acontece exatamente igual. Por isso é necessário gente de fora, que não passa toda a vida neste mundo, para oxigenar as pessoas que estão no vinho. Eu não perco a perspectiva. Estou há muito tempo no mundo do vinho e me preocupo em não perder a perspectiva.

E o que o senhor acha que trouxe de novo para Vega Sicilia?
Muitas vezes ocorre o medo de mudar as coisas. Eu acho que não tem de ter nenhum medo, os vinhos têm de evoluir como tudo evolui. Eles jamais foram melhores que agora.

Eu ouvi uma frase atribuída ao senhor de que o melhor vinho está por vir.
Sempre. Nunca conseguimos fazer o melhor vinho possível. Graças a Deus dependemos da natureza. Se não dependêssemos, o mundo do vinho se acabaria e já não teria nenhum sentido. Eu acho que tudo é possível melhorar e este é o fim que o bodegueiro deve perseguir. Se um ano conseguirmos chegar a perfeição, já não terá sentido.

Uma das coisas que me intrigam: vindo de um produtor do vinho ícone de seu país, sendo uma pessoa pragmática, você fala de mudança de produto para cultura mas não para luxo. Por quê?
Por quê não sei. As vezes me parece que nós bodegueiros perdemos o respeito pelos consumidores, que são de quem vivemos. Não sei o que acontece nos outros países mas, na Espanha, parece que passamos de não saber nada de vinho por defeito a não saber nada de vinhos por excesso. A quantidade de informação que nos chega mostra que não sabemos nada. Uma pessoa que chega para aprender um pouco de vinho fica perdido. E se acrescentarmos que os bodegueiros mentem mais que caçadores - todo mundo quer ser diferente do que está ao lado, contam umas histórias que nem quem conta acredita - acho que temos mais estrelas na terra do que no céu. Eu só acredito em continuar trabalhando com esforço, inteligência. E sempre terá diferença porque terá gente mais inteligente, mais trabalhadora. O vinho é tão grande em si mesmo que não tem que dizer nada mais, ou seja, não tem que inventar-se histórias. Não sei nada de agricultura, mas tenho 26 anos nesta vida e vejo como a vinha se comporta a cada ano, como brota, como vive... e isso é maravilhoso por si mesmo, não tem que buscar nenhuma explicação. Isso é o grande que tem o vinho. E por isso eu acho que as coisas têm de ser ditas com naturalidade e tranqüilidade.
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fotos: Luna Garcia

Como é a produção do Vega Sicilia Único?
Historicamente não produzimos o Único uns dois ou três anos em cada década. Para o Único, a uva tem de ter certas características e condições climatológicas muito boas. Então, em alguns anos, como 1992, 1993 e 1997 que não fizemos o Único. Nos 2000 até agora foi o ano de 2001, que foi um ano rural muito polêmico na Espanha. Não é porque a Vega Sicilia não produz Único que todos 2001 têm de ser ruins. Não é certo. Não produzimos em 2001 porque tivemos uma geada em dois de maio em tempo da primeira brotação. Houve uma segunda brotação, mas de segunda brotação não vamos fazer grandes vinhos. Não se faz Único, mas o Valbuena é magnífico. Mas são vinhos que não são para um envelhecimento longo, para uma longa vinha em garrafa.

O que considera longa vida em garrafa. Quantos anos?
Estivemos no Rio este fim de semana com um colecionador que organizou uma degustação para alguns amigos. Foram 50 safras de Único, desde 1917 até agora. Um homem obcecado por vinhos e que gosta de fazer essas coisas. Perfeitamente organizado, uma degustação perfeita. Inclusive como havia duas garrafas de cada safra todos puderam provar das duas, pois sendo vinhos tão velhos pode haver diferenças. Ao total foram 50 safras de Único e estavam muito boas. Somente uma, 1939, não estava em boas condições.

As duas garrafas?
Só havia uma garrafa desta. Eu nunca tinha provado um 1939 e não sei se ele está todo assim ou é essa garrafa. Alguns exemplares como 1922, 1921 e 1917 são grandes vinhos. Não são vinhos para desfrutar como se pode desfrutar de vinhos dos anos 80, 90. Uma pessoa que trabalhou em Vega Sicilia por 50 anos e se aposentou um pouco antes de comprarmos me disse um dia: "Olha, acontece algo aqui que eu não sei o que é. Mas tem alguma coisa. E acontece aqui, não em outros lugares." No final, no vinho, não é possível encontrar todas as explicações. Vega Sicilia é uma vinícola em que classificamos 19 tipos de solos diferentes, em cada um a vinha se comporta de uma maneira diferente. Isso é o grande da natureza. Cada vinho é diferente, cada ano é diferente. A climatologia é terrivelmente dura. No final, cada vinho é o conjunto da vinha, terra, sol e os homens, tudo junto. O que está claro é que no mundo, cada dia se farão vinhos melhores e vão seguir fazendo em mais partes do mundo, cada vez mais vinhos. Mas no que diz respeito à personalidade os vinhos não podem ser iguais. Não se morre ao comer em um três estrelas do Michelin de Paris ou em um McDonalds. Mas são coisas completamente diferentes. O mundo do vinho é igual. Todos os vinhos servem para beber, estão mais ou menos bons, cada dia vão estar melhores, mas existem diferenças por sua personalidade.

Eu ouvi dizer que Vega Sicilia vai produzir um vinho branco...
Nossa última safra de vinho branco foi 1948. Eu gosto muito de vinho branco, os grandes vinhos brancos são fantásticos, são muito menos manipuláveis, então propus a minha família retomar o vinho branco. Em 1994, plantamos uma pequena superfície de três hectares de quatro variedades brancas. Esperamos dez anos. Temos um princípio em todas nossas vinícolas na Espanha: nunca utilizamos a uva até que a vinha tenha onze anos de vida. A vinha começa a dar uva no terceiro ano e entendemos que esta é a infância da planta. Nessa época nunca a uva será grande, ainda que seja boa. A planta, no final, é como um ser humano. A grande fase de um ser humano é em sua maturidade. Nem a infância nem a velhice são as melhores épocas. Esperamos até 2004 e começamos a fazer experiências: 2004, 2005, 2006, 2007 e faremos 2008. Em cinco anos de experiência tivemos cinco anos diferentes, com cinco climatologias e cinco exemplos. Fizemos também experiência com tipo de barricas que vamos utilizar, tempo de barrica. Temos uma grande variedade de produtos para poder tomar uma decisão.

"Nunca conseguimos fazer o melhor vinho possível"
Pablo Alvarez

E como é a comercialização destes vinhos, estão no mercado?
Ainda não colocamos no mercado. No final do próximo ano decidiremos se seguimos o projeto ou abandonamos. Se não conseguirmos fazer um grande vinho branco, não faremos. Se conutiliseguirmos, continuaremos elaborando para vender.

Tiveram que substituir vinhas de uvas tintas por brancas?
Sim, temos em Vega Sicilia 250 hectares. Embora nossa propriedade seja grande, mil hectares, não é tudo que é apropriado para as vinhas. Há cerca de 250 hectares que para Alión. Da parte de Vega Sicilia, que é muito antiga, destinamos doze hectares para a experiência de branco. Depois, quando tomarmos uma decisão, teremos que decidir com qual ficamos.
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Hoje seu grupo está expandindo internacionalmente com sua vinícola na Hungria, produzindo Tokaj. Como vê isso? Está em busca de outros terroir, em busca de outros complementos para a linha?
Nós começamos com Vega Sicilia. Houve um momento em que decidimos qual seria o caminho a seguir. A idéia de toda família é que nossa filosofia teria de ser a qualidade. Poderíamos ter uma vinícola em que produziríamos três milhões de garrafas, mas se decidiu que a filosofia era a máxima qualidade. Tratar de fazer o melhor que se pode fazer em cada lugar que estivermos. O primeiro fruto desta filosofa foi a Alión. A vinícola se estabeleceu em Ribera del Duero fazendo um vinho moderno - uma identidade única, diferente, uma vinícola a parte. Teria sido melhor fazer tudo junto, mas queríamos que Alión fosse independente e que oxalá daqui 50, 60 anos seja outra Vega Sicilia.

O senhor crê, então, que Alión não foi criado para ser seu terceiro vinho em qualidade?
Não. Mas naquele momento coincidiu tudo. Elaborávamos Valbuena 5º e Valbuena 3º. Decidimos então tirar o Valbuena 3º para concentrar mais no 5º e Único. A quantidade produzida de Valbuena 3º e 5º naquele momento, 1987, só foi recuperada após 14 anos. Nesses anos trabalhamos na melhora da vinha, melhora da elaboração. O Valbuena 5º é hoje um magnífico vinho. Essa foi um pouco a filosofia.

E agora um novo movimento?
Sim. Tokaj nos custou muito mais esforço tanto em trabalho como do ponto de vista econômico. Porque as pessoas não sabem que Tokaj existe. A época comunista foi um desastre para o vinho, o Tokaj desapareceu. Este vinho tinha sido o mais famoso do mundo nos séculos XVII, XVIII e XIX. Sua primeira denominação de origem classificou seus solos e vinhedos entre Primeiro e Quinto Grand Cru no século XVIII. Isso se perdeu durante a era comunista. Temos de voltar a ensinar que Tokaj existe. Tivemos que renovar o vinhedo. Temos 120 hectares de vinhas classificadas no século XVIII como Premier Grand Cru Classic. Tudo isso requer tempo.

Como está a produção hoje?
Estamos entre 200 e 250 mil garrafas.

É muito, não?
Não é muito pelo vinhedo que temos. Mas parece que somos a vinícola com maior produção de Tokaj.

O senhor teve a oportunidade de encontrar recursos humanos qualificados na região?
Nós não vamos ensiná-los como fazer Tokaj. O que fizemos foi dar a eles conhecimentos que tinham perdido - avanços no mundo do vinho, na maquinaria, nos tratamentos. Levamos uma parte técnica a qual eles precisavam. O conhecimento que tinham do solo estava ali.

Dentro de seu compromisso com a qualidade falamos muito do tempo. O senhor disse que os onze primeiros anos uma vinha são sua infância. Até que idade produzem as vinhas de Vega Sicilia?
Eu acredito que não há uma norma fixa para isto. Há lugares em que aos 40 anos a vinha já é velha. Em outros pode viver até 70, 80 anos. A esperança de vida das pessoas é cada vez mais alta porque desde que nasceram foram melhor cuidadas. Com a vinha vai acontecer exatamente o mesmo, ou não, não sabemos. Pensar que a vinha velha guarda os melhores frutos que a madura me parece ridículo. Alguns dizem que as vinhas velhas auto-regulam sua produção. Não é que auto-regulam, é que não podem produzir mais. Uma pessoa com 82 anos não pode correr 100 metros em dez segundos. Nós temos cepas velhas de onde tiramos nossas futuras cepas, são as mães. Fazemos a seleção. Mas não são as que melhor uvas dão hoje em dia . Porque são velhas. Eu sempre digo o mesmo, que vinha é como um homem: tem sua infância, sua juventude, sua maturidade e sua velhice. No final, o grande é o equilíbrio. O grande vinho é aquele em que tudo está e nada prevalece. Porque os vinhos hoje em dia são muito maquiados. Um grande vinho não tem que maquiá-lo, tem que deixá-lo ser como é.

Falamos de períodos muito longos. Uma marcha de longo prazo é afetada pelas tendências. O que fazer?
Eu acredito que os vinhos, os grandes, em geral, têm de estar acima das modas, que sempre vão existir e está bem que existam. Mas há certas coisas que se devem manter. Eu costumo dizer que um grande êxito de Vega Sicilia é saber manter sua personalidade acima da moda dos vinhos. O que se buscava e o que continua se buscando de alguma maneira são esses vinhos que bebem você mais que você a eles. Nenhum vinho foi tão fiel a sua personalidade como Vega Sicilia, mantivemos sua elegância e complexidade, enquanto o que se buscava era quanto mais cor melhor, mais estrutura melhor, mais madeira... Entretanto, o vinho tem de ter equilíbrio. Tem de ter tudo, sem sobressair.

"O vinho, se não o estragamos, continua sendo o mais natural dos alcoólicos"
Pablo Alvarez

Como o senhor vê o desenvolvimento do mercado de vinho no mundo hoje?
Eu creio que o mundo do vinhos está se desenvolvendo lentamente. Eu não acredito no que as pessoas falam da China... como se os chineses fossem beber todo o vinho do mundo.
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Se eles se põem a beber, beberão.
Mas não vão beber. Eu acredito que aconteceu o mesmo com o Japão nos anos 80. Parecia que iam beber todo o mundo e não beberam. Países como China e Índia, que têm quase metade da população mundial, vão beber vinho. Mas é como se eles viessem aqui amanhã nos dizer que teremos de tomar chá durante as refeições. Depois de dez anos vamos ver quantos de nós vão beber chá nas refeições. A mudança cultural é muito complicada. O mundo do vinho continuará se desenvolvendo. Porque o vinho, se não o estragamos, continua sendo o mais natural dos alcoólicos. Se soubermos fazer bem, acredito que o futuro do vinho é bom. Ele continuará desenvolvendo e o mundo beberá cada vez mais vinho.

fotos: Luna Garcia

E o que o senhor pensa do aumento de preço da safra 2005 de Bordeaux?
Isso influenciou os preços de seus vinhos? Não. Nós nunca baixamos, sempre subimos. Não especulamos, não tratamos de subir muito e baixar. Os preços chegam a ser absolutamente ridículos. Alguém terá de comprar as safras ruins. Eu não concordo com isso, mas respeito que eles façam. Se essa é sua filosofia.

E o mercado brasileiro?
O mercado brasileiro mudou muitíssimo nos últimos anos. A gente vê as pessoas jantando nos restaurantes com vinhos, antes não se via isso. Mas estamos falando de uma cultura, e as mudanças culturais levam muito tempo para ocorrer.

Dizem que os vinhos italianos foram impulsionados pela disseminação da cultura gastronômica italiana. O senhor acredita que este momento da gastronomia espanhola servirá como embaixador do vinho espanhol?
Sim. O problema de tudo isso sempre costuma ser as pessoas. Os italianos são grandes vendedores e os espanhóis são vendedores muito ruins. Custa muito ao espanhol viajar. Eu viajo muito, é necessário que te vejam, mostrar os vinhos, por mais que já tenham sido vendidos. Os espanhóis não se dão conta disso. Os italianos souberam criar e exportar sua culinária. Eu acho um pouco mais difícil exportar a cozinha espanhola porque é uma cozinha muito embasada no produto. Eu não entendo nada de massa, mas é uma coisa que se fabrica. Já a matéria-prima não é fácil de fazer.

Seu filho tem a mesma mentalidade de viajar, de se colocar em contato com as pessoas?
Eu quero que as pessoas que estejam comigo aprendam isso. Esta viagem não é só vir ao Brasil, seguimos para Chile e Argentina, onde estaremos juntos por duas semanas conhecendo vinícolas, conhecendo vinhos...

Poderia ser sua próximo investimento, Argentina ou Chile?
Não acredito. Mas em todo lugar se aprende algo. Se aprende o que se deve fazer e o que não se deve. Todos os anos fazemos uma viagem desta para formação de pessoal, para que vejamos tudo que se faz pelo mundo. Porque senão, acaba metido em sua vinícola e se esquece do que está acontecendo.

Mas estamos presenciando grandes grupos europeus fazendo parcerias ou sociedades...
Eu não descarto. Mas não vamos fazer investimento em Argentina ou Chile, estamos longes demais. Investimos na Europa, não porque desprezamos outros lugares, mas pela proximidade. Eu também não entendo porque os franceses não enxergam a Espanha, que está ao lado deles.

Christian Burgos

Publicado em 25 de Agosto de 2008 às 07:28


Entrevista

Artigo publicado nesta revista