Pronta para a descoberta

Os vinhos e as belezas naturais de Navarra a tornam uma grande surpresa aos turistas e curiosos


fotos: Marcelo Copello
A moderna Bodega Iñaki Núñez, fundada em 1999, é conhecida por sua marca Pago de Cirsus
O vasto mundo do vinho ainda nos guarda muitas alegrias e surpresas, mesmo no dito Velho Mundo: a Europa. Em recente viagem à Navarra, no norte da Espanha, descobri que esta região é um terreno fértil para um dos esportes prediletos dos afilhados de Baco: o garimpo de vinhos de alta qualidade a bom preço. À convite da Cámara de Navarra de Comercio e Indústria, ADEGA cobriu com exclusividade a Alimenta´ 08 - Encuentro Internacional de Alimentación y Vinos de Navarra Asia-América. Na feira, estavam presentes 45 bodegas locais e 45 importadores de vários países das Américas e da Ásia.
Navarra é a segunda região mais vendida na Espanha, depois de Valdapeñas. Assim como Cigales, é famosa por seus deliciosos rosados, frescos, frutados e de preço acessível. Ela é, contudo, muito mais que isso, com brancos sofisticados e complexos tintos de guarda, prontos para serem descobertos.

Localização e turismo
Navarra está localizada no sopé ocidental dos Pirineus, cadeia de montanhas que forma uma fronteira natural entre Espanha e França. Seus dez mil km² de pura beleza tornam a região um destino turístico, sem falar no Caminho de Santiago, nos vinhos e na gastronomia. Os vegetais locais - aspargos, pimentas, pimentões, alcachofras, cebolas - têm qualidade reconhecida internacionalmente.
fotos: Marcelo Copello
Vinhedo em Navarra Tempranillo


Uma visita obrigatória é o restaurante Treintaitres, em Tudela, no sul da região. A casa oferece um impressionante menu só de vegetais. Outro restaurante de alta classe que merece atenção é o Rodero, do estrelado chef Koldo Rodero, que fica na capital Pamplona. A província tornouse mundialmente conhecida depois que, em 1926, o escritor americano Ernest Hemingway publicou sua obra-prima The Sun Also Rises (O sol também se levanta) sobre a festa de San Fermín, que ocorre todo mês de julho, na qual touros ferozes são soltos nas ruas da cidade.

Histórico
O vinho está em Navarra desde tempos imemoriais. Os registros mais antigos da vinha na região são do século I d.C., mas foi apenas no século XI, com a intensa peregrinação pelo caminho de Santiago, que ganharam notoriedade.
No final do século XIX, a região viveu um boom no comércio do fermentado, quando a França, atacada pela filoxera, veio se abastecer de vinhos em Navarra. Esta bonança, contudo, durou pouco, pois logo a praga cruzou os Pirineus e atacou duramente o norte da Espanha. Calcula-se que o minúsculo pulgão tenha destruído 48.500 ha. dos então 49.200 ha. de vinhedos da região.
O século XX chegou com a reconstrução e a renovação dos vinhedos de Navarra. Novas cepas foram implantadas e o movimento cooperativo tomou força a partir de 1911. O contexto era, então, de pós-trauma da filoxera e busca de dinheiro rápido. Até a chegada do pulgão, a cepa mais plantada na região era a Tempranillo, fácil de cultivar, gerando grandes vinhos, mas sensível à praga. O símbolo da fase pós-filoxera foi a Garnacha, resistente, mas de complicado cultivo, tardia e de difícil amadurecimento para obtenção de grandes tintos. A região partiu então com força para os vinhos rosados elaborados com a Garnacha.
Este panorama começou a mudar nos anos 1980, quando se iniciaram estudos sobre castas que poderiam ser plantadas para a produção de grandes tintos e brancos. Produtores da região contrataram enólogos de outros países para pesquisar as possibilidades. Vieram especialistas da Austrália, França, Itália e Califórnia. As castas indicadas foram a Cabernet Sauvignon, Merlot e Chardonnay. Hoje, Navarra está em plena fase de renovação de seus vinhedos, Tempranillo, Garnacha, Mazuelo, Graciano e Viura estão dando lugar à Cabernet Sauvignon, Merlot, Chardonnay. Os melhores vinhos são os brancos Chardonnay e os tintos de Cabernet Sauvignon, Merlot, eventualmente misturadas ao Tempranillo e/ ou a Garnacha.
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Produção e vinhedos
Navarra produz atualmente cerca de 89 milhões de litros de vinho ao ano, sendo por volta 30% deste volume exportado.
Os tintos dominam a produção com cerca de 70% do total, seguido pelos rosados, com 25%. Os 18,5 mil hectares de vinhas da região são cultivados por 5.200 viticultores. A maioria das 122 bodegas que engarrafam são pequenas empresas familiares.
A Denominação de Origem (DO) Navarra é dividida em cinco subzonas, todas na metade sul da região, ao sul de Pamplona. A gama de terroirs é bastante variada, com muitos micro-climas, possibilitando grande variedade de vinhos:

Tierra Estella
Está no centro-oeste de Navarra, de clima subúmido, com influência atlântica, fria, cerca de 600mm de chuvas ao ano, solo de calcário marrom e pedregoso.

Valdizarbe
Localizado no centro da região, logo ao sul de Pamplona. Clima subúmido, com influência atlântica, fria, cerca de 590mm de chuvas ao ano, solo de calcário marrom e pedregoso. Com 1.300 hectares de vinhedos e os vinhos que se assemelham em estilo aos de Tierra Estella.

Baja Montaña
Situada no centro-leste da região, tem clima subúmido, influência atlântica, fria e cerca de 680mm de chuvas ao ano. Com solo de calcário e cascalho mais amarelado, a região também apresenta boa drenagem.

fotos: Marcelo Copello
Bodega Chivite, na Ribera Alta,maior subzona de Navarra
Ribera Alta
Maior subzona de Navarra. Está no centro-sul da região, com clima de transição entre subúmido e seco, cerca de 470mm de chuvas ao ano, solo calcário e de aluvião.

Ribera Baja (Tudela)
É a zona mais ao sul, de maior aridez e conta com bastante influência do mediterrâneo, com 450mm de chuvas ao ano, solo calcário marrom no norte e cinza no sul, além de manchas de solo de aluvião. Esta é a zona mais valorizada para a produção de tintos de guarda, que proporciona vinhos de grande estrutura e muita cor.
É importante observar que uma pequena parte dos vinhedos da região vizinha, a Rioja, está politicamente dentro da comunidade de Navarra, já que a fronteira política não tem os mesmos limites da fronteira dos vinhedos de denominação de origem. Esta zona é conhecida como Rioja-Navarra.

Castas
A casta mais plantada da região é ainda, de longe, a Garnacha, com 42% do total dos vinhedos, seguida pela Tempranillo, com 29%. Alguns vinhos elaborados a partir de vinhas velhas desta primeira uva chegam a ser excepcionais. Muito aromáticos e concentrados, são apenas sensíveis ao clima, se dão melhor nas zonas mais quentes do sul da região e dependem de uma boa safra para que amadureçam adequadamente. A Tempranillo sempre deu e sempre dará belos tintos em Navarra, mais leves no norte e mais estruturados e de guarda no sul da região.
Das uvas "importadas", a Cabernet Sauvignon é a mais plantada, ocupa 9% dos vinhedos de Navarra e pode alcançar alta qualidade em tintos de corpo e guarda. A Melot também se aclimatou muito bem aqui, gerando desde exemplares mais leves e frutados aos vinhos de maior estrutura. São muito comuns os cortes entre as quatro tintas principais da região: Tempranillo, Garnacha, Cabernet Sauvignon e Merlot.
Outras tintas com menor representatividade, mas que não devem ser esquecidas, são a Mazuelo e a Graciano. Estas duas castas, muito típicas da Rioja, ocupam cada uma cerca de 1% da superfície de vinhedos da região. A primeira é produtiva, mas muito sensível às pragas, ajuda cortes com outras uvas, empresta muita cor e acidez à mistura. A segunda é mais resistente às enfermidades e também pode ajudar nas assamblages com cor, acidez e aroma elegantes e intensos.
Nas brancas, reina a Chardonnay, com 2% da área total dos vinhedos de Navarra, em sua maioria localizados mais ao norte (Tierra Estella, Valdizarbe e Ribera Alta). Alguns Chardonnays chegam a ser excelentes e têm a estrutura necessária à fermentação em barricas.
Entre outras brancas, que juntas ocupam 6% do vinhedo de Navarra, a mais importante é a Viura. Ela rende vinhos frescos, de boa acidez e frutados. A Moscatel de Grano Menudo é uma casta antiga, esquecida e tem sido recuperada por alguns produtores na elaboração de vinhos doces de colheita tardia. Ela tem mostrado resultados excelentes, embora com uma produção ainda muito pequena.

Vinhos
É difícil definir um estilo geral para os vinhos da região. Não cheguei a identificar o "estilo Navarra", a não ser nos rosados, o que é natural, já que a região tem passado por muitas mudanças nas últimas décadas. A qualidade e o estilo aqui virão de cada produtor. Mesmo assim é possível dizer que nos brancos, a gama vai dos leves e jovens aos barricados de maior estrutura, com destaque para os Chardonnays e para os vinhos de sobremesa da uva Moscatel de grano menudo. Os rosados, geralmente elaborados com a Garnacha, são frescos e frutados, alguns chegam a ter muita personalidade, mais secos e gastronômicos.
No mundo dos tintos, o estilo e a qualidade variam em função da subzona, da variedade e da qualidade do produtor. Ao norte, os tintos (muitos Tempranillos) têm caráter mais atlântico, com vinhos frescos, frutados e de maior acidez. Ao sul (com mais Garnacha, Cabernet Sauvignon e Merlot), os tintos são mais quentes, encorpados, alcoólicos, com frutas negras, mais redondos e maduros.
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fotos: Marcelo Copello
Vinhedo da Pago de Cirsus em Ribera Baja

Produtores visitados

Na feira Alimenta´ 08, provei cerca de 100 vinhos de estilo e qualidade muito variados, alguns chegando a excelentes, todos em busca de representantes no Brasil. Minha visita à região começou na tradicionalíssima Bodega Chivite, na Ribera Alta, vinícola familiar mais antiga da região, fundada em 1647. Estive na unidade da empresa, comprada em 1988 e totalmente remodela, com vinhedos novos implantados. O assunto do momento na Chivite é o reconhecimento de seus vinhedos desde 2007 como Pago, a classificação mais alta da Espanha. Dos 150 hectares de vinhedos da Chivite, 127 foram reconhecidos com tal marcação. A partir do final deste ano terão um novo exemplar, um vinho de Pago, o Señorio de Arinzano, ainda não disponível para prova. O solo aqui é calcário com alguma argila, plantado principalmente com Tempranillo, Cabernet Sauvignon, Merlot e Chardonnay.
Depois de um nome tradicional, fui para o sul, na Ribera Baja, visitar um produtor moderníssimo: a Bodega Iñaki Núñez, fundada em 1999, conhecida por sua marca Pago de Cirsus. Iñaki Núñez é um nome famoso na Espanha, importante produtor de cinema. Amigo pessoal Francis Ford Coppola, ele decidiu criar sua própria bodega depois de algumas conversas com o diretor americano.
Núñez demonstrou em nossas conversas e degustações ser não apenas o patrão, mas também um bom conhecedor e sabedor de que tipo de vinhos deseja de sua competente enóloga Maitena Barrero.
Seus 135 hectares de vinhedos são plantados com Tempranillo (principalmente), Merlot, Cabernet Sauvignon, Chardonnay e pequenas parcelas de Moscatel, Tannat e Malbec. A produção ronda as 500 mil garrafas ao ano e, assim como na Chivite, a novidade é a elevação de seus vinhedos à categoria de Pago, o que acontecerá em 2009. O estilo dos vinhos é moderno, com uso de fermentação de alguns tintos em tinas de carvalho francês de 5-8 mil litros, uso de micro-oxigenação, e muitas barricas novas de carvalho de tanoeiros da mais alta gama, com 90% carvalho francês e 10% americano, todos de 225 litros.
Ainda há poucos vinhos de Navarra em nosso mercado, mas a cada dia novos rótulos chegam e, pelo que vi lá, outros devem chegar em breve. Fique atento, pois belas surpresas podem surgir em sua taça.

fotos: Marcelo Copello
Confira a avaliação completa dos vinhos na seção CAVE.
Marcelo Copello

Publicado em 24 de Julho de 2008 às 06:23


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Artigo publicado nesta revista