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    Acidez no vinho: entenda sua importância e como identificá-la

    Do equilíbrio à harmonização, os ácidos influenciam sabor, frescor, estrutura e potencial de guarda

    por Marcel Miwa

    vinho

    A acidez é um dos principais elementos estruturais do vinho, mas também um dos que mais geram interpretações equivocadas. Para evitar uma possível percepção negativa, termos como “frescor” e “refrescância” muitas vezes são utilizados para descrevê-la. No entanto, compreender de onde vêm os ácidos, como eles se comportam durante a maturação e a fermentação e de que maneira são percebidos na taça ajuda a entender sua importância para o equilíbrio do vinho.

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    Os ácidos estão naturalmente presentes nas frutas e são responsáveis por sensações de refrescância e intensidade de sabor. Nas uvas, os principais são o ácido tartárico e o ácido málico, que, com seus sais derivados, representam mais de 90% da acidez total. Em proporções menores, também aparecem ácidos orgânicos como o cítrico e o glucônico.

    Como a acidez do vinho é medida

    Existem duas formas mais comuns de avaliar a acidez: a acidez total e o pH. A primeira mensura, em tese, a quantidade de ácidos fixos e voláteis, enquanto o pH indica a concentração de íons de hidrogênio livres na solução e é importante para analisar características organolépticas e de cor.

    LEIA TAMBÉM: Como escolher vinho no restaurante sem cair em armadilhas

    A escala de pH é logarítmica: quanto mais próximo de zero, mais ácida é a solução. O valor 7 corresponde a uma solução neutra e, acima dele, a solução se torna progressivamente mais alcalina.

    Como identificar a acidez na degustação

    Na degustação, uma das maneiras mais simples de perceber a acidez é observar a salivação depois de engolir o vinho. De maneira geral, quanto maior a produção de saliva, maior a sensação de acidez. Os principais ácidos percebidos no paladar são tartárico, málico, lático e acético.

    LEIA TAMBÉM: Entenda o papel da acidez na qualidade e estabilidade dos vinhos

    O equilíbrio é fundamental. Um vinho encorpado com pouca acidez pode parecer xaroposo, enjoativo e pesado. No extremo oposto, acidez excessiva pode provocar irritação na boca e tornar o vinho agressivo. Nesse contexto entra o conceito de drinkability, relacionado à capacidade de uma bebida se mostrar agradável de beber. A acidez é um dos elementos fundamentais para essa característica.

    Como a acidez se desenvolve na uva

    O ácido tartárico é o principal ácido presente na uva e permanece razoavelmente estável durante sua maturação. Já o ácido málico, encontrado em praticamente todas as frutas, diminui de maneira significativa à medida que a uva amadurece, processo que pode ser acelerado por temperaturas mais elevadas.

    LEIA TAMBÉM: Como combater a acidez do tomate com o vinho?

    Durante a maturação, ácidos e açúcares seguem caminhos opostos: enquanto os açúcares aumentam, os ácidos diminuem. Por isso, o momento da colheita é decisivo. Esperar demais pode provocar perda considerável de acidez, enquanto antecipar a vindima pode resultar em acidez excessiva e pouca estrutura alcoólica, além de ser necessário considerar a maturação fenólica, os taninos e os precursores aromáticos.

    Clima, altitude, solo, variedade de uva e sistema de condução da videira também interferem nesse processo. Regiões frias tendem a prolongar a maturação e facilitar a conservação da acidez, enquanto climas mais quentes aceleram o amadurecimento.

    O papel da acidez na produção do vinho

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    Na vinícola, o enólogo pode controlar a acidez por meio da acidificação ou desacidificação do mosto ou do vinho, utilizando processos químicos ou físicos. Quanto mais cedo essas correções são realizadas, melhor tende a ser sua integração ao conjunto.

    Além de influenciar as características sensoriais, uma acidez adequada ajuda a inibir a atuação de leveduras e bactérias, evitando reações químicas descontroladas. Também é um dos fatores considerados na avaliação do potencial de guarda, ao lado da variedade de uva, dos taninos, do extrato e da safra.

    O que acontece com os ácidos durante a fermentação

    LEIA TAMBÉM: Como a temperatura de fermentação determina o estilo do vinho?

    A fermentação provoca uma série de transformações. O ácido málico pode sofrer redução de até 30% durante a fermentação alcoólica, enquanto o cítrico praticamente desaparece. O tartárico, por sua vez, não passa por grandes alterações durante a fermentação do mosto.

    Outros ácidos são produzidos durante o processo. Entre eles está o succínico, de acidez suave e sabores amargo e salgado. Já o ácido lático é produzido principalmente durante a fermentação malolática, quando bactérias láticas transformam o ácido málico, mais agressivo, em ácido lático, mais suave, além de CO₂. Esse processo também pode contribuir com aromas associados a derivados de leite, como iogurte, manteiga e creme azedo.

    O ácido acético, por sua vez, pode resultar da ação de bactérias acéticas sobre o álcool na presença de oxigênio. É o principal ácido volátil do vinho e, quando aparece em concentração elevada, pode produzir aromas associados a acetona e vinagre.

    LEIA TAMBÉM: Papelão, vinagre ou suor? Conheça e aprenda a identificar os defeitos do vinho estragado

    Quais vinhos apresentam maior sensação de acidez?

    De maneira geral, os espumantes proporcionam maior sensação de acidez, reforçada pelo ácido carbônico. Entre os brancos, exemplares leves e aromáticos costumam apresentar acidez mais evidente do que os mais encorpados e aqueles que passaram por madeira. Os rosés tendem a se aproximar dos brancos leves nesse aspecto.

    Nos tintos, os estilos mais leves normalmente proporcionam maior sensação de acidez, enquanto os robustos apresentam percepção menor. Nos vinhos de sobremesa, a necessidade varia de acordo com o estilo: um branco botritizado precisa de acidez perceptível para equilibrar sua doçura, enquanto, em um Porto, ela atua principalmente como elemento de equilíbrio.

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    Acidez também é fundamental na harmonização

    A acidez desempenha papel importante na relação entre vinho e comida. Ela pode realçar a riqueza de um prato e, ao mesmo tempo, moderar sensações de gordura, untuosidade, salgado e picância. Ao estimular a salivação, ajuda ainda a limpar o palato e produzir sensação de refrescância.

    Em pratos com sabores ácidos, o vinho deve apresentar acidez pelo menos equivalente à da comida. Caso contrário, pode parecer apagado e sem vida. Assim, longe de representar necessariamente uma característica negativa, a acidez é um dos elementos fundamentais para compreender o equilíbrio, a capacidade de guarda e a versatilidade gastronômica de um vinho.

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