Senhor Portugal

João Portugal Ramos carrega seu país no nome e, com orgulho, leva-o mundo afora através de seus vinhos


João Portugal Ramos tem seu país no nome, mas, mais do que isso, faz questão alargar as fronteiras portuguesas por meio de seus vinhos. Personagem de respeito no Alentejo, ele foi um dos responsáveis por "ressuscitar" a região e transformá-la numa referência para os vinhos do Novo Mundo.

O Alentejo como conhecemos hoje não seria o mesmo sem João Portugal Ramos. De início agrônomo, depois enólogo consultor e finalmente produtor, ele introduziu mudanças no setor vitivinícola e passou a focar-se na qualidade e tipicidade das bebidas. Durante sua trajetória, ele também participou do desenvolvimento dos vinhos do Tejo, Dão, Estremadura e outras regiões.

Vindo de família ligada ao vinho, João Portugal Ramos foi ganhando espaço aos poucos. Começou na década de 1990 com 10 hectares de vinhas e hoje já possui 300. Com o Alentejo conquistado, sua meta é ganhar o Douro, numa parceria com o amigo de infância José Maria Soares Franco em empreendimento batizado de "Duorum".

Conte um pouco sobre a sua história no mundo vinho. Como ela começa?

Minha história começa em 1981, quando fui para o Alentejo fazer a minha primeira vindima. Nos finais da década de 1980, Portugal era um deserto do ponto de vista enológico e o papel do enólogo consultor era muito importante. Mas à medida que o país foi se afirmando no mundo do vinho, as empresas passaram a ter seu próprio enólogo, e a função de consultor foi se esvaziando. Então eu pensei que queria ter alguma coisa para deixar para os meus filhos, envolve-los em algo, e para isso, só tendo um negócio próprio.

Quando começou, fazia consultoria para vitivinícolas. Elas estavam concentradas no Alentejo ou em outras regiões de Portugal?

Elas estavam principalmente nas regiões do Alentejo e de Ribatejo, hoje Tejo.

Foi um caminho natural iniciar no Alentejo?

Foi um caminho natural porque fui viver no Alentejo. Sempre digo que Portugal é um país abençoado para produzir vinhos diferentes, vinhos de personalidade. Todas as regiões de lá produzem vinhos bons, mas estou convencido de que o Alentejo tem em sua constância qualitativa uma grande vantagem. Quando procuramos vinhos maduros e maturação completa dos taninos, o Alentejo proporciona isso.

Às vezes, lá o desafio é escolher o momento ótimo de colheita?

Todas as regiões têm as suas particularidades. Na situação ideal, a maturação dos açúcares coincide com a maturação fenólica. Num clima quente, os açúcares vão à frente. Num clima mais frio, é o contrário. Tivemos dois anos extremamente bons no Alentejo: 2008 e 2009 foram os dois melhores anos de todos os que eu estive no Alentejo, tanto na minha vinícola como de uma forma geral; e 2010 foi um ano difícil, em que o profissionalismo das vinícolas será posto à prova.

fotos: divulgação

"Nos finais da década de 1980, Portugal era um deserto do ponto de vista enológico e o papel do enólogo consultor era muito importante"

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Quando foi a sua primeira safra própria?

Foi em 1992, e a minha primeira vinha plantada em 1989, sendo que hoje há vinhas no Alentejo mais velhas que as minhas, que já estavam plantadas. A média de idade dos vinhedos do Alentejo ainda é relativamente baixa, com todas as condições para que cheguem à maturidade.

O enólogo David Baverstock costuma dizer que o Alentejo ganhará muito com o amadurecimento das vinhas.

Sem dúvidas. Na década de 80, a média de quilos por hectare era de cerca de 3 mil. Quando houve o boom das vinhas do Alentejo, percebeu-se uma falta de "material" e, portanto, uma pressa em plantar vinhas, às vezes com castas um pouco mais produtivas e vinhas mais novas. Isso fez com que o Alentejo perdesse o equilíbrio, em termos de qualidade e quantidade. Mas agora a qualidade vai aumentar, porque as vinhas começam a encontrar o seu próprio equilíbrio.

No boom do Alentejo, muitas castas diferentes foram plantadas. Se pudesse escolher hoje, as decisões seriam outras?

Acho que as castas tradicionais plantadas na década de 80 não têm nada a ver com as de hoje. O Alentejo tinha cerca de 11 mil hectares e agora tem o dobro, e nestes primeiros 11 mil hectares, a base era Periquita, Trincadeira, Moreto e um pouco de Aragonês e Alicante Bouschet. Já na segunda parte do Alentejo há castas totalmente diferentes. Apostou-se muito na Syrah, na Touriga, na Alicante Bouschet e na Aragonês. Percebemos que a Aragonês não vai muito bem num clima tão quente, então nos concentramos nas outras três. Penso que vai haver uma "touriganização" no Alentejo. Ela é o carro chefe de Portugal e poderá ser a USP (Unique Selling Point) de lá.

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"Todas as regiões de Portugal produzem vinhos bons, mas estou convencido de que o Alentejo tem em sua constância qualitativa uma grande vantagem. Quando procuramos vinhos maduros e maturação completa dos taninos, o Alentejo proporciona isso"

E estas três castas se combinam?

Sim, e em minha opinião, das castas internacionais, Syrah é a melhor de todas, é a que melhor se comporta. Ela tem tido alguns problemas de compatibilidade, mas é uma casta fantástica no Alentejo.

Como é o solo do Alentejo? Onde está sua vinícola também há solos de origem xistosa?

Sim, nessa parte do Alentejo o solo é xistoso, mas há umas manchas de granito por todo lado e, em algumas zonas, as vinhas são plantadas em calcário.

E o que cada um desses solos muda no vinhedo e no vinho? É possível fazer uma referência tão direta?

Não é fácil. O solo de xisto dá um toque de mineralidade muito própria aos vinhos. É muito interessante sentir o sabor da fruta conjugado com a mineralidade. Isso dá ao vinho uma complexidade extra, uma certa sofisticação. Nas regiões calcárias, tenho bons resultados, principalmente com a Syrah e Alicante Bouschet, que está se saindo muito bem. E no granito não tenho tanta experiência, pois são manchas muito localizadas. Mas normalmente as vinhas têm mais dificuldade em vingar, são vinhas mais fracas.

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Nos últimos anos, houve um "descobrimento" da elegância dos vinhos alentejanos. Isso deve prosseguir nessa direção?

Acho que sim. O que me encanta no Alentejo é poder trabalhar à vontade. Lá temos matéria a mais. Temos maturação, que é o mais importante para fazer vinhos maduros, e o que nos falta é contrabalancear essa maturação com frescura e elegância. E o caminho que estou seguindo aponta nesse sentido. Teremos vinhos com maior capacidade de envelhecimento e também vinhos mais fáceis, para beber cedo, com ênfase de fruta madura e taninos limpos.

Se Alentejo está alcançando o máximo de sua amplitude de produção, daí para frente ele deve voltar para dentro de si mesmo e refinar o que está sendo produzido?

A razão do sucesso do Alentejo dentro e fora de Portugal deve-se sobretudo a ao bom trabalho que se fez e às adega cooperativas da região, que conseguiram ter um bom vinho a um bom preço. Foram as cooperativas as grandes responsáveis pela impulsão positiva do vinho alentejano. E agora também digo que da maneira como as coisas andam, as cooperativas são as responsáveis pela degradação de valor do vinho alentejano. Isso é uma pena, pois sou do tempo em que havia maior entendimento, não havia uma guerra fratricida entre elas. É engraçado que Alentejo e Douro são opostos. No Douro, quem fez a região foram os empreendimentos privados e no Alentejo as cooperativas.

"Quando houve o boom das vinhas do Alentejo, percebeu-se uma falta de 'material' e, portanto, uma pressa em plantar vinhas, às vezes com castas um pouco mais produtivas e vinhas mais novas. Isso fez com que o Alentejo perdesse o equilíbrio, em termos de qualidade e quantidade. Mas agora a qualidade vai aumentar, porque as vinhas começam a encontrar o seu próprio equilíbrio"

"O que me encanta no Alentejo é poder trabalhar à vontade. Lá temos matéria a mais. Temos maturação, que é o mais importante para fazer vinhos maduros, e o que nos falta é contrabalancear essa maturação com frescura e elegância"

No Brasil, Portugal goza de um posicionamento muito interessante do ponto de vista de mercado. Fora a Angola, existe algum outro país em que Portugal seja terceiro ou quarto em volume de venda?

Não, mas andei visitando mercados no Brasil e fiquei chocado com os preços. Se o governo português tem feito um esforço tão grande apostando no negócio do vinho em Portugal, como é que nunca ninguém teve a ideia de tentar influenciar o governo brasileiro a não taxar tanto os vinhos portugueses? Um exemplo: um vinho de entrada de gama que em Portugal custa em torno de três euros, no Brasil custa R$ 32. É inacreditável. Não podemos competir.


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Os chilenos estão se beneficiando neste ano por não pagar o imposto de importação, assim como a Argentina não paga desde o início do Mercosul. Mas ainda assim Portugal consegue ter uma relevância no mercado brasileiro.

Sim, mas teríamos conseguido muito mais. Acho que a relação e afinidade entre os dois povos é tão forte que, se Portugal tivesse trabalhado melhor seus vinhos nos últimos 30 anos, não teria deixado isso acontecer. Eu não estava no ramo na época, mas com certeza a qualidade dos vinhos era mais baixa. Temos condições fantásticas para produzir. Há 20 anos, aqui no Brasil, havia três ou quatro produtores portugueses de qualidade, e em Portugal também havia cinco ou seis aldeias. Hoje em dia há muitos produtores e cada vez com mais qualidade. Ainda acredito que o Brasil tem um potencial enorme para o consumo de vinhos portugueses e tem a questão da afinidade. É muito fácil chegar no Brasil e falar de vinhos.

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"Alentejo e Douro são opostos. No Douro, quem fez a região foram os empreendimentos privados e no Alentejo as cooperativas"

" Das castas internacionais, Syrah é a melhor de todas, é a que melhor se comporta. Ela tem tido alguns problemas de compatibilidade, mas é uma casta fantástica no Alentejo"

Você é referência absoluta na sua região, no Alentejo, e agora também se arrisca muito bem no Douro.

Meu sócio, José Maria Soares Franco, é a grande referência do Douro. Não tenho pretensão alguma de ser uma referência lá e, por isso, quis aproveitar meu conhecimento e experiência para levar esse novo projeto com muito entusiasmo. Esse é um projeto cujo resultado será para a geração dos meus filhos e não a minha. É muito importante acreditarmos em valores essenciais como a terra e o terroir, e vejo o negócio do vinho como um negócio que nasce da terra. Eu poderia ter feito meu investimento de uma forma muito mais simplista e barata, alugando uma adega, comprando uvas, sem gastar dinheiro, mas decidi investir fortemente na terra.

Algumas pessoas repensam o fato de produzir com uvas próprias numa terra própria. Os contratos de longo prazo e de arrendamento não substituem esta dinâmica?

Sim, substituem, mas temos todas as vertentes. Temos uvas próprias, vinhas arrendadas a longo prazo e compramos uvas, sendo que, infelizmente, no negócio do vinho hoje em dia, a parte comercial é de tal maneira importante que é muito mais forte que o investimento na terra. O método tradicional, que é a terra, o fazer as uvas, vinificá-las e vender o produto resultante dessa vinificação é o trajeto mais caro de todos, mas o que dá mais garantia de qualidade, sustentação e continuidade.

Christian Burgos

Publicado em 12 de Agosto de 2011 às 06:15


Entrevista

Artigo publicado nesta revista