Descubra os segredos por trás dos vinhos de Sancerre e se encante com o sabor do Sauvignon Blanc

Conheça os melhores vinhos e saiba como Sancerre se transformou em sinônimo de ícones de Sauvignon Blanc

Arnaldo Grizzo Publicado em 25/07/2024, às 10h00

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No ano de 582, Gregório de Tours faz menção à existência de vinhedos em Sancerre, uma comuna francesa localizada no departamento de Cher, na região Vale do Loire. Sancerre está no limite oriental, fazendo fronteira com o departamento de Nièvre e a região da Borgonha, da qual está separada pelo Loire.

Mas se hoje essa denominação de origem é mundialmente famosa por seus magníficos Sauvignon Blancs, a história conta que nem sempre foi assim.

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Na verdade, apesar dos escritos do historiador Gregório de Tours, há quem diga que alguns dos textos de Plínio, o Velho, no primeiro século, também podem estar ligados aos vinhos dessa região. Contudo, os documentos mais robustos são do famoso bispo de Tours (cidade a cerca de 200 quilômetros de Sancerre).

Há ainda documentos feudais e cartas reais que listam a produção de vinhos da região antes chamada de Berry em 820. No século XI, Raoul Tortaire, um monge de Saint-Benoît-sur-Loire, também descreveu a região como abundante em vinhedos.

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Mas foi no século XII que a produção de vinho experimentou um verdadeiro crescimento, principalmente graças aos esforços dos monges agostinianos da Abadia de Saint-Satur, dos Condes de Sancerre e dos monges beneditinos, especialmente para o vinho de Menetou-Salon. Nessa época, Sancerre produzia um renomado vinho tinto, principalmente à base de Pinot Noir, que era exportado pelo rio Loire, sendo frequentemente mencionado em documentos reais.

De fato, entre os séculos XII e XV, os vinhos de Cher eram apreciados nas mesas das cortes reais. Poetas como Guilherme, o Bretão, e o lírico normando Henri d'Andeli, contemporâneos de Philippe Augusto (1180-1223), elogiavam os vinhos de Sancerre como um das mais famosos do Reino. Jean de France, duque de Berry (1340-1416), considerava o vinho de Sancerre como “o melhor do Reino” e até publicou uma carta relacionada à venda de vinhos de Reuilly.

Da Pinot ao Sauvignon

César Sagrado?
A etimologia de Sancerre é envolta em diversas teorias e interpretações. Uma delas remete à lenda do conquistador romano Júlio César, associando o nome original, “Gortona”, a uma possível variação de “Sacrum Caesaris”, significando "Sagrado de César", posteriormente cristianizado como “São César" ou "Saint-Cere".
Outra perspectiva, mais complexa, é respaldada por linguistas, historiadores e arqueólogos. Ela sugere que o antigo nome do local era Gortona, um oppidum (termo em latim que define uma cidade fortificada ou cidadela) que remonta ao período celta de Hallstatt, abandonado quando uma pequena cidade galo-romana foi estabelecida na planície.
Próximo a rotas comerciais e a um cemitério, havia um santuário dedicado a São Sátiro, um mártir africano do século III, e uma igreja que mantém o nome de Saint-Satur.
O nome evoluiu ao longo dos séculos, passando de Gortona para Santus Satyrus, e eventualmente para a forma popular Sayre, Serre e, por fim, Sancerre.
Durante o século VIII, evidências arqueológicas indicam um assentamento elevado na colina ainda conhecida como Gortona. Parte das relíquias foi transferida para lá no final do século IX para protegê-las de pilhagens.
Em 1136, Gortona começou a ser chamada de Santus Satyrus na tradição latina, evoluindo para Sancerre ao longo do tempo. A colina de Sancerre continuou a ser um refúgio para a população durante perturbações naturais e invasões. 

Em 1567, Nicolas de Nicolay, em sua obra "Descrição Geral dos Países e do Ducado de Berry", e mais tarde, no século XVII, Gaspard Thaumas de La Thaumassière, em sua "História de Berry", elogiaram bastante os vinhos de Sancerre. Mais tarde,  em 1777, o Abade Poupard, em sua obra "História da cidade de Sancerre", destacou a importância das montanhas de Sancerre para a região, mencionando que os vinhos da localidade eram exportados para Inglaterra e Escócia. 

O renomado agrônomo Jules Guyot, em 1873, observou a qualidade das vinhas de Saint-Satur e Sancerre, reconhecendo a precisão e cuidado na limpeza do terreno, no manejo das videiras e na poda. No entanto, ainda assim, a região enfrentou a devastação da filoxera a partir de 1886. Isso levou à replantação das vinhas, principalmente com a casta Sauvignon Blanc, adaptada ao clima e terroir locais, sobre porta-enxertos americanos mais resistentes à praga. 

Em 1921, foi fundada a União dos Vinhos de Sancerre para defender o terroir da região, e em 1931, medidas legais foram tomadas contra fraudes relacionadas aos vinhos. A Denominação de Origem Controlada (AOC) para o vinho branco foi reconhecida em 14 de novembro de 1936. Em 1959, a denominação foi ampliada para incluir vinhos tintos e rosés, produzidos principalmente com a casta Pinot Noir, anteriormente conhecidos como "coteaux du Sancerrois".

Terroir

Geograficamente, Sancerre está localizada na margem oriental do rio Loire e faz fronteira com as regiões de Pouilly-Fumé ao norte e Menetou-Salon ao sul. Os vinhedos de Sancerre estendem-se por 3.053 hectares, abrangendo 14 comunas e 3 hameaux (distritos), que incluem Bannay, Bué, Crézancy, Menetou-Ratel, Ménétréol, Montigny, St-Satur, Ste Gemme, Sancerre, Sury en Vaux, Thauvenay, Veaugues, Verdigny e Vinon, além dos hameaux de Amigny, Chavignol e Maimbray. 

Sancerre está localizada na margem oriental do rio Loire e faz fronteira com as regiões de Pouilly-Fumé ao norte e Menetou-Salon ao sul

 

Cerca de 40% das vinhas crescem em solos argilo-calcários provenientes de margas do período Kimmeridgiano, encontrados nas colinas mais a oeste. Outros 45% são cultivados em solos conhecidos como caillottes, compostos por calcário oxfordiano, que se manifestam em formações pedregosas, amareladas e macias ou brancas e compactas.

Os restantes 15% das vinhas estão enraizados em solos argilo-siliciosos, compostos por silex, argila e conglomerados siliciosos, que margeiam o rio Loire e formam as colinas ao leste. 

O clima em Sancerre é continental, com invernos frios e verões quentes. A região também se beneficia da influência moderadora do rio Loire, que ajuda a proteger as vinhas das geadas durante a primavera e fornece umidade adicional durante a estação de crescimento. As principais cepas cultivadas na região são Sauvignon Blanc e Pinot Noir. Mais de 80% da produção é brancos exclusivamente de Sauvignon Blanc, cerca de 10% de tintos e o restante de rosés, todos com Pinot Noir. 

O Instituto Nacional de Origem e Qualidade (INAO) define que a densidade mínima de plantação deve ser de 6.100 videiras por hectare. Nesta base, os rendimentos para os brancos são de 65 hl/ha, para os tintos 59 hl/ha e para os rosés 63 hl/ha3. Na vinificação dos brancos, a fermentação ocorre sem contato com as partes sólidas da colheita, visando extrair os aromas da uva. O processo inclui a extração gradual do suco e a decantação para remover partículas em suspensão, com controle rigoroso de temperatura durante a fermentação. 

A vinificação dos tintos envolve a prensagem após o início da fermentação, permitindo que o mosto entre em contato com os materiais sólidos da colheita. Isso resulta em vinhos ricos em taninos, cor e outros componentes, com a duração da maceração afetando a intensidade da coloração e o potencial de envelhecimento. 

A vinificação rosé tem dois métodos principais: o sangramento, que envolve a extração de parte do suco durante a vinificação dos tintos, e a prensagem direta, que extrai suco das cascas durante a maceração.

Estilo

Existem diversos estilos de vinhos Sancerre, cada um com características distintas que refletem tanto as escolhas do enólogo quanto as nuances do terroir e das condições climáticas específicas da região.

O que chamamos de estilo clássico ou tradicional enfatizam a acidez vibrante e a mineralidade característica dos solos de Sancerre. Geralmente são vinificados em tanques de aço inoxidável ou barris de carvalho neutro, mantendo assim seu caráter fresco e vivo, com uma acidez brilhante e aromas herbáceos.

Há os que passam por um período de envelhecimento em barris de carvalho, o que adiciona complexidade e riqueza ao perfil. O carvalho pode conferir notas tostadas e um paladar mais arredondado.

Por fim, há os que são deixados em contato com as borras, as células de levedura mortas remanescentes da fermentação. Isso adiciona uma camada adicional de complexidade, proporcionando uma textura mais rica e encorpada.

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