Revista ADEGA

A boa e velha rolha

A história não é nova, mas polêmica prossegue. Qual melhor forma de vedar garrafas de vinho? Rolhas de cortiça? Rolhas sintéticas? Tampas de rosca? Enquanto não chegam estudos mais conclusivos, velha e conhecida rolha de cortiça continua, de longe, ser...

António Falcão* em 30 de Novembro de 2005 às 15:35

fonte: Jonatan Conti e Magorzata Guchowska/Stock.Xching

"Esse é um dos assuntos mais controversos que existe atualmente no mundo do vinho", diz um artigo assinado por Jamie Goode, no site www.wineanorak.com/closuretrial.htm. Outros dois artigos publicados recentemente têm conclusões aparentemente contrárias - um deles é da revista inglesa Wine International, de outubro de 2003, e refere-se a uma prova efetuada pela própria revista, confrontando a rolha de cortiça com duas alternativas.

A prova da Wine International

O artigo, assinado por Robert Joseph, re-lata uma prova comparando vinhos rolhados com cortiça a alternativas já existentes, como a cápsula roscada (screwcap). Esse teste, que a revista chamou de "o primeiro comparativo internacional a sério", envolveu mais de 50 provadores de vários pontos do mundo e 49 vinhos de bom nível. A maioria dos vinhos datava do ano 2000 e seguintes, mas existiam colheitas de 1980, 83, 92, e 95 até 97. Alguns vinham em variante rolha e vedante, outros apenas com vedantes alternativos, como a cápsula Stelvin (a tampa de rosca), uma marca do fabricante francês Pechiney.

Os provadores sabiam qual vinho bebiam, mas não sabiam qual o vedante usado. Os resultados do estudo mostraram que:
• 24 vinhos vedados com Stelvin ou outro vedante foram considerados melhores que os rolhados com cortiça. A porcentagem dos que aprovaram o vedante 'artificial' oscilou entra os 56% e 100%;
• num caso apenas, 57% do painel preferiu o vinho rolhado com cortiça;
• o resto dos vinhos vinha apenas com vedantes artificiais, não sendo possíveis comparações, apenas provas.
A principal conclusão: "vinhos brancos e tintos vedados com vedantes alternativos mostram um fruto mais imediato e mantêm-se mais frescos durante mais tempo".

O problema do TCA

Guchowska/Stock.XchingPara além disto, o artigo cita o tradicional problema da contaminação do vinho por TCA (abreviatura de 2,4,6- Tricloroanisole), um composto químico que dá ao vinho um aroma e sabor a mofo, o chamado "gosto de rolha" ou "bouchonée". O TCA pode provocar graves prejuízos, por exemplo: um produtor italiano de Barolo ficou furioso quando descobriu que 27.000 garrafas da sua colheita 1997 tinham ficado estragadas com TCA. Processou o fornecedor e ganhou uma indenização de ?570.000.

O artigo cita ainda que os entusiastas da cortiça dizem que as rolhas contaminadas são muito poucas. No entanto, os números retirados do concurso International Wine Challenge (uma organização da revista de vinho, de Portugal) dos últimos três anos apontam para percentagens de 6% em 2001, 4,6% em 2002 e 4,9 %, este ano. Finalmente, Robert Joseph pergunta se a rolha é realmente necessária para os vinhos envelhecerem? Ele diz que não, baseado em testemunhos dos professores Émile Peynaud e Pascal Ribéreau-Gayon, de Bordéus. Segundo eles, as reações que ocorrem na garrafa não exigem oxigênio. Ora, se isso for verdade, perde-se o argumento de que, por permitir trocas gasosas com o exterior, a rolha é o material ideal para engarrafar e envelhecer vinhos. Especialmente bons vinhos.

Ainda assim, Robert Joseph hesita em tirar conclusões definitivas: para finalizar o artigo, diz que "as nossas descobertas deveriam, no mínimo, encorajar mais produtores pelo mundo afora a conduzirem suas próprias investigações e consumidores a optarem por vedantes alternativos".

#Q#

O outro lado da moeda

Quem lê o artigo da Wine, parece convencido; mas o artigo publicado na revista Australian Gourmet Traveller Wine, assinado pelo jornalista Paul White, pode gerar questionamentos. Em termos muito simples, o jornalista, após ter provado centenas de garrafas de vinho, chega à conclusão de que a tal cápsula roscada não é assim tão boa quanto parece à primeira vista. Dois exemplos: em 2001, a New Zealand Screwcap Initiative (uma associação de produtores que promove fortemente a cápsula) enviou-lhe algumas garrafas como parte de um teste junto a jornalistas.

O teste pretendia demonstrar a superioridade da cápsula face à rolha de cortiça, usando dois vinhos semelhantes, com os dois vedantes. Contudo, o tiro de relações públicas e marketing saiu completamente pela culatra: Paul chamou dois provadores profissionais e chegou-se a conclusão de que os vinhos com cápsula mostraram sinais de oxidação e excessivo envelhecimento. Os vinhos rolhados, pe-lo contrário, mostravam "juventude" e "frescor".

Em 2002, esse jornalista australiano participou num painel comparativo de 30 vinhos Gewurztraminer. Oito deles estavam selados com cápsula, mas metade tinha defeito e foi retirada. Como diz Paul White, a taxa de 50% não tem nada a ver com a taxa de TCA, que ronda os "3 a 5%". O próprio porta-voz da tal associação neozelandesa, Bob Campbell, reconheceu a Paul White que também já tinha encontrado problemas com vinhos encapsulados, problemas esses provocados por um exagero de sulfuroso. Os aromas, garante o jornalista, não são nada agradáveis. Outro estudo do Australian Wine Research Institute, conduzido ao longo de 18 e 36 meses com vinhos Semillon, demonstrou que os vinhos com cápsulas tinham mais tendência a exibir aromas 'reduzidos' ou de 'borracha'. Pior ainda, um estudo relacionado, mas agora com vinhos varietais da casta Riesling, mostrou que 25% dos vinhos encapsulados também mostravam esse tipo de problema. Ora, 25% é, evidentemente, uma taxa inaceitável.

Bomba-relógio

Mas o pior, diz Paul White, é a possibilidade de um produtor descobrir que tem toda sua colheita de vinhos de topo, vedados por cápsula, estragada. Aparentemente, estancar o ar com cápsula pode dar algum frescor e manter os aromas no vinho em algumas situações, mas, se alguma coisa fugir do esperado, pode-se arruinar toda a colheita. Ora, em comparação, a magra taxa de TCA é uma verdadeira benção.

Esse fenômeno de bomba-relógio poder ser obviamente um autêntico pesadelo para os produtores de vinhos de maior qualidade. Paul White oferece ainda um conselho: "O conselho mais honesto que posso dar aos consumidores é que assumam que as cápsulas parecem ser tão suscetíveis a provocar falhas no vinho quanto a cortiça". E lá se vai o mito - cada vez mais propagado por aquelas regiões do mundo - de que a cápsula é o vedante perfeito.

O futuro da rolha

Uma coisa parece certa - quando a poeira levantada por esse debate assentar, e nem nos atrevemos a fazer estimativas sobre o tempo que vai levar, nada deverá ficar igual. Nesse momento parece haver um forte movimento em favor da cápsula roscada (e contra a rolha de cortiça): a cadeia inglesa de supermercados Tesco, por exemplo, já anunciou que até 2005 terá metade das suas marcas de vinhos vedadas com cápsula. Diga-se de passagem, a Tesco vende perto de um milhão de garrafas por semana!

Thomas Tangh/Stock.XchngIsso é contrabalançado por uma campanha internacional em favor da cortiça e pela própria inércia da mudança por parte dos produtores, habituados há séculos a lidar com a cortiça. Existem ainda mais dois fatores que podem vir a ter enorme importância: a investigação que tem sido feita para resolver os problemas de TCA e a implementação de melhores práticas nos produtores de rolhas. Segundo informações da APCOR, a Associação Portuguesa da Cortiça, "em 2002, 218 empresas portugueses de cortiça obtiveram a comprovação Systecode. O número de produtores portugueses comprovados aumentou 145% desde que se iniciou a implementação do Código Internacional de Práticas Rolheiras".

Parece existir agora maior sensibilidade dos produtores de rolhas para a qualidade nos processos de fabricação. A indústria tem investido enormes somas para resolver os problemas nas rolhas. Segundo informações da APCOR, nos últimos cinco anos a indústria portuguesa de cortiça investiu mais de 400 milhões de euros em investigação e desenvolvimento, em novos produtos, processos e instalações. Está previsto um investimento adicional de 500 milhões de euros para os próximos cinco anos. É assim previsível que se consiga reduzir a incidência de TCA para valores próximos do 1%. Isso certamente dará ainda mais fôlego à indústria da cortiça.

*texto cedido pela Revista de Vinhos, de Portugal.


Universidade do vinho

Artigo publicado nesta revista


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