A história do Douro

De grande tradição na produção de Vinho do Porto, com empresas que representam 23% do mercado mundial, a Symington Family States se transforma, assim como a região do Douro


Dominic Symington veio ao Brasil apresentar a primeira geração de seus vinhos tintos de mesa. Os Symington constituem uma das mais importantes famílias da vitivinicultura portuguesa e, como proprietária da Dow's, Symington e Graham's, é responsável por 20% do mercado mundial de Vinhos do Porto.

Agora, esta família descendente de escoceses - que nas últimas cinco gerações confunde sua história com a história do próprio Douro - passa a participar da intensa revolução no lançamento de grandes vinhos de mesa na região (importante lembrar que vinho de mesa é a denominação em Portugal para vinho fino).

Antes da apresentação de seus vinhos de mesa, tivemos a oportunidade de degustar seus mais recentes Vinhos do Porto, que foi o início de nossa conversa.

Já participei de degustações em que se experimenta os vinhos componentes do corte, e nas quais consegue-se claramente identificar o papel de cada um no vinho final. Confesso que fiquei estupefato ao degustar os vinhos origem do corte de seus Vinhos do Porto, pois, o produto final é muito superior à somatória das partes que o compuseram...
Isso é verdade. Essa é a grande realidade do Vinho do Porto. Imagine um Petrus, um Lafite e um Mouton Rothschild juntos. Há dois resultados possíveis: ou é um desastre, ou é a melhor coisa já feita por Deus. Nós experimentamos e é isso que tem sido a grande arte da história do Vinho do Porto. Não é o agregado de cada parte que faz o vinho, mas, sim, o conjunto de todos. Cada fração é muito boa, algumas melhores que as outras individualmente, e algumas até poderiam ser perfeitamente aceitáveis. Mas concordo inteiramente que o vinho final era mais complexo e atingia um novo patamar.

Como é feita hoje a escolha dos cortes?
Dentro da Graham's e Vesuvio, já temos um conceito de estilo do vinho. E já concebemos tudo em torno dele. Temos 300 anos de história e muita experiência. Portanto, já sabemos quais são os vinhedos que produzem os lotes de vinho tinto; temos a consciência de que esta ou aquela parcela (de vinha), em um bom ano, farão vinhos sensacionais. Mesmo dentro de um Château Lafite, há parcelas que nunca figuram no lote final. Isso é normal em qualquer vinha, portanto já temos esta informação. Temos, porém, que ter em mente que é preciso manter um estilo para o vinho e o que temos é o terroir. São as tradições e temos que ser fiéis ao estilo tradicional do vinho.

Isso explica um portifólio com tantas marcas?
Em parte, sim. Mas, tivemos sorte. Minha família teve muita sorte e, por vários meios, adquirimos várias quintas, várias marcas de Vinho do Porto - que foram se associando a nós - e, com elas, trouxeram seu patrimônio. Nos encaixamos no conceito de Premier Family Vineyards - de que fazemos parte, assim como a Mouton Rothschild, que possui vários Châteaux. Tenho a Graham's, a Vesuvio, a Dow's e a Warre's. Cada uma das marcas é completamente independente, contando com seu vinhedo, adegas e estilo próprio.

Como nasce cada empresa e estilo?
Se voltarmos ao passado, perceberemos que algumas das principais empresas de Vinho do Porto compraram algumas quintas no fim do século XIX. A Malvedos foi comprada em 1896. A Dow's comprou a Bonfim na mesma época. Elas tinham vinhas, mas aquilo servia mais para estabelecer uma base no Douro, para fazer o negócio de compra de vinho. Portanto, o coração do vinho já vem de aproximadamente 100 anos atrás. E, como tínhamos contato com os lavradores que produziam as uvas, fomos comprando as uvas e soubemos sempre seu potencial.

Foram adquirindo os melhores vinhedos?
Terminamos por arrendar ou adquirir os vinhedos mais promissores. Compramos vinhas que não necessariamente oferecem o Vintage, mas o LBV, o Six Grapes e a matéria-prima para os velhos Tawny's. Esse projeto começou com o meu pai e agora temos 950 hectares no Douro, em 24 quintas, que são divididas entre as empresas. É como se fosse uma árvore genealógica. Cada um tem o seu pai e sua família e é dessa maneira que agimos. Se alguma quinta que nunca foi nossa fornecedora entrasse no mercado e nos interessasse, estaríamos preparados para comprá-la, porque conheço o estilo dos nossos vizinhos, sua produção e o estilo de vinho de cada lavrador. Assim, se alguma vinha que tenha visto produzir vinhos absolutamente fora de série - e que tenha um estilo, o corte e o terroir apropriado para o estilo do vinho da Graham's -, simplesmente pago a elas.

É um plano rumo à autossuficiência?
Nesta geração, meu irmão, meus primos e eu aceleramos este projeto. Ainda compramos as uvas e as vinificamos, mas, agora, em 2009, nós, como empresa, somos autossuficientes. Já não somos um négociant. Somos produtores.

Deve ter sido um grande investimento...
Não sou rico. Em papel sim - se você calcular que tenho uma parte importante da empresa Symington. Em papel, a Symington (com seus ativos, valor das marcas) é uma empresa das maiores. Somos "asset rich, cash poor" (ricos em patrimônio, pobres em liquidez) [risos].

#Q#

E vocês produzem e comercializam qual parcela do Vinho do Porto no mundo?
23%. Grande parte são os vinhos correntes, evidentemente. Mas temos também uma cota de vinho premium: Six Grapes, Reserva Ruby, LBV... Depois, entrando nos velhos Tawny's, aí temos mais de 30% do mercado.

É uma grande responsabilidade.
Sim, até assustadora. Há uma coisa que considero importante: não me considero dono da empresa. Se meu irmão, meus primos e eu formos ver no fisco, estará escrito os cinco nomes, que formarão 100% da empresa. Mas, não sou dono. Ela me foi entregue por meu pai e por meus tios, e sua história vem ainda mais de trás. E, pessoalmente, sinto que tenho obrigação de transmitir esta empresa para a próxima geração - na pior das circunstâncias - nas mesmas condições em que foi entregue a mim. E se conseguir transmiti-la em melhores condições, terei conseguido algo em minha vida.

Em que geração vocês estão agora?
Symington é a quarta. Foi o primeiro Symington, Andrew James, que chegou a Portugal em 1882 e começou a trabalhar para a Graham's. Na época, era uma empresa de fiadores de algodão. Tinha uma pequena de Vinho do Porto também, mas ele trabalhou na fábrica de fiação por dois anos. Nesse tempo, conheceu uma rapariga luso-britânica e se casou. Seu sogro era negociante de Vinho do Porto e Andrew se juntou a ele. Depois, foi para a Warre's, ficou sócio e, posteriormente, dono. Assumiu a Dow's em parceria com o dono, logo depois tomou o controle sozinho, passando, então, para a próxima geração; já a do meu avô.

Um desempenho e tanto.
Depois, passou para meu pai e meus tios e, em 1970, compramos a Graham's, ironicamente, a empresa em que o primeiro Symington havia trabalhado. A mulher de Andrew James, Beatriz Atkinson registra uma ascendência, que remonta a 1652. Portanto, minha ascendência, por parte de minha bisavó materna, remonta a uma linhagem de 13 gerações do Vinho do Porto. E ainda tenho cara de inglês [risos].

Uma vez que se vai passar a empresa para a próxima geração, como se forma um Symington para estar apto a arcar com essa responsabilidade?
O fato é que crescemos na vinha. Quando crianças, brincamos nas vinhas. Com 15, 16 anos já começamos a ajudar nossos pais durante a vindima.

Ouvi dizer que você não tem casas de praia para as férias?
Não. Sabe onde todos passamos as férias de verão? Em nossas quintas no Douro, nos vinhedos. Vivo o Douro. Para mim, é a região mais bonita do mundo.

"Vivo o Douro. Para mim, é a região mais bonita do mundo"

Os jovens, quando crescem e vão estudar e trabalhar, ingressam na companhia?
Temos uma regra que, depois de se formarem na faculdade - eles têm a liberdade de estudar o que quiserem -, todos vão fazer formação específica, em áreas distintas, ou fazem uma especialização mais técnica, como negociante de viticultura ou enologia. Mas, mesmo assim, depois de se formar, todos trabalhamos fora da empresa por mais ou menos cinco anos. Para ganhar experiência, e não necessariamente dentro do setor de vinhos. É muito importante ter uma visão mais ampla do mundo. Quando voltamos para a empresa da família, temos a nossa qualificação pessoal, mas temos também a experiência que adquirimos com outras pessoas e, portanto, trazemos mais uma vertente que possa ser benéfica para a empresa, uma visão um pouco mais ampla.

Geralmente grandes empresas e dinastias se degeneram no conflito familiar. Como vocês evitam isso?
[Risos] Nos damos muito bem. Uma coisa é que as pessoas têm que ter a capacidade de aportar um benefício à empresa. E não apenas estar lá de passagem para receber um salário, passando o dia no café ou no Country Club, por ser dono de uma grande empresa e não precisar fazer mais nada. Isso não podemos permitir. O que fazemos é providenciar que um de meus filhos, por exemplo, eventualmente tenha capacidade de ser convidado a entrar na empresa para que, depois, ele possa assumir minha participação. O importante é que só se transmitem as ações ou os efetivos na própria empresa, para evitar aquela degeneração das ações que dá cabo a qualquer companhia. A estrutura de ações da empresa diz respeito apenas ao executivo da empresa.

E vocês têm uma data específica para fazer esta transição?
Tentamos fazer isso antes que ajam problemas para a instituição. Meu pai me transmitiu as ações quando tinha 50 anos. Em Portugal, existe uma estrutura que é o usufruto e, portanto, ele transmitiu sua cota para mim e para meu irmão, e não para nossa irmã e outro irmão. Ficamos com as ações, mas ele ficou com o usufruto. Na realidade, continuei a ser um empregado assalariado. Tecnicamente um sócio, mas era ele que mantinha o usufruto. Agora, ele se aposentou e a remuneração das ações passou para mim. Neste momento, tenho filhos que estão na faculdade, e, portanto, estou investindo neles. Outra coisa é que sempre saímos com 65 anos. Chegou aos 65, fora.

#Q#

Mas, hoje em dia, uma pessoa com 65 anos tem muito a contribuir...
É verdade. Mas eles ficam como consultores, embora não entrem no executivo. Além do mais, hoje em dia, com 65 anos, também quero gozar um pouco mais a minha vida. Há um equilíbrio entre os dois lados

"Não há ninguém que diga: 'Quero criar uma vinha com Cabernet Sauvignon'. Porque penso que seria uma grande asneira."

Como enxerga os vinhos de mesa, do Porto e do Douro, de uma maneira geral?
O vinho de mesa é um vinho de 1300 anos. E agora, nos últimos 15 anos mais ou menos, tem havido uma evolução, uma revolução até, liderada por várias pessoas. Alguns têm sido verdadeiros padrinhos. Diria claramente que os proprietários do Crasto o são. Talvez o mais influente tem sido o Dirk Niepoort, porque é uma paixão dele. É uma paixão para nós também. Sempre produzimos um pouquinho para consumir diariamente em casa.

E economicamente falando?
O Douro tem muito para oferecer ao mundo. Mas há também outra vertente. Atualmente, a produção total de vinho no Vale do Douro gira em torno de 225 a 250 mil pipas. A produção de Vinho do Porto é de apenas 110 a 125 mil, em média. Portanto, a região do Douro, em longo prazo, não será mais sustentável apenas com o Vinho do Porto. Não para mim, para meus irmãos, para o Jorge e o Tomás (Roquette) e para o Dirk (Niepoort), mas para pessoas humildes que vivem do vinho: o lavrador que tem uma quinta pequena. Em razão disso, minha família acredita que temos a obrigação moral de tentar desenvolver a região. Ela deu a mim e à minha família uma vida bastante boa. E temos a obrigação de continuar tentando fazer o máximo por esta região.

Qual o tamanho de sua produção de vinho de mesa?
Muito pequena, aproximadamente 60 mil caixas. Dentro dos produtores de vinho de mesa DOC do Douro, somos uma das menores produtoras. Mas nossa ambição é grande.

Há muito potencial a ser explorado?
Não há dúvida. Na Quinta do Vesuvio só fizemos 12 mil garrafas. Mil caixas. É muito pouco. Essa produção obrigatoriamente vai aumentar conforme estudamos e entendemos melhor nossas vinhas. Mas nunca será um vinho de 40 mil caixas. Se pensarmos nos grandes tintos do Douro - da Symington, o tinto do Vesuvio e o Chryseia; da Quinta do Crasto, Maria Teresa e a Ponte; os grandes do Dirk (Niepoort), o Meão, enfim, aquele grupo de 12 ou 15 rótulos -, toda essa produção somada será inferior a um Premier Cru de Bordeaux. Portanto, a produção de vinhos top no Douro é muito pequena.

O Brasil está recebendo muito bem os vinhos Douro DOC.
Sei que temos um grande potencial nesse mercado. Os mercados europeus mais tradicionais são um tanto conservadores demais. Os Estados Unidos são um pouco mais abertos às inovações que o Velho Mundo. Mesmo assim, são bastante tradicionalistas e conservadores. O mercado brasileiro, talvez por causa do relacionamento entre Brasil e Portugal, é mais receptivo.

Ou talvez seja por que conseguimos falar Touriga Nacional...
[Risos] Talvez seja. Porque eles não dominam muito bem a língua portuguesa. Mas, há muitos produtores que começam agora a falar da Touriga Nacional. O Cabernet Sauvignon, o Pinot Noir, uma grande parte das castas internacionais - que vemos na Austrália, Chile, Argentina, América do Norte - não são adequadas para os climas onde são colhidas. Nestes lugares, obrigatoriamente as uvas têm que ser regadas, senão morrem. A Touriga Nacional evoluiu numa região realmente inóspita, o Vale do Douro - um forno no verão e um frio de rachar no inverno. E elas, assim como as outras uvas da região, sobrevivem nas piores condições que existem.

As castas autóctones são a alma do Douro?
Uma das coisas que estamos fazendo, todos os bons produtores, os sérios, é pensar nas castas autóctones. E não há ninguém que diga: "Quero criar uma vinha com Cabernet Sauvignon". Porque penso que seria uma grande asneira.

Christian Burgos

Publicado em 10 de Setembro de 2009 às 07:11


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