Revista ADEGA

Amadurecimento

A colheita de 2012 no estado de Santa Catarina ficará marcada pela qualidade e pelos rigores do clima

Por: Sílvia Mascella Rosa em 16 de Maio de 2012 às 07:12

Neve em alguns vinhedos, temperaturas que, em pleno começo de outono, já descem para os números negativos, vinhos longevos e bastante concentrados, até mesmo entre os brancos. São nessas poucas palavras que vem se definindo a maioria dos terroirs de Santa Catarina e, neste ano, a colheita mostrou toda a força da terra e do clima.

"A safra 2012 foi a melhor que já vi em Santa Catarina, mesmo com os revezes climáticos que fazem parte do que são estas terras, e deixam sua marca em nossos vinhos", explica Jean Pierre Rosier, enólogo da Epagri e consultor de diversas vinícolas no estado, como a Monte Agudo e a Quinta Santa Maria, por exemplo. Ele conta que a região sofreu com geadas tardias no final de outubro e novembro de 2011, com o granizo que causou perdas grandes em algumas sub-regiões que não têm proteção de telas, mas, quando 2012 chegou, o clima mostrou sua boa face, com chuvas na medida certa e depois uma forte seca com temperaturas altas durante o dia e frio à noite: "Como a colheita ficou atrasada naturalmente, o frio que veio chegando já no final de março e começo de abril auxiliou as plantas, que entendem que o inverno se aproxima e concentram os sabores nos grãos", diz Rosier.

Círculo Virtuoso
O presidente da Associação Catarinense dos Produtores de Vinhos Finos de Altitude (Acavitis), Leônidas Ferraz - que além de médico é um dos donos da Vinícola Vinhedos do Monte Agudo -, afirma que neste ano as vinícolas mais antigas de Santa Catarina entraram num círculo virtuoso, em que as condições climáticas se combinaram com a idade dos vinhedos que, para algumas delas, estão atingindo seu ponto ideal. "É uma safra cheia de bons adjetivos, mas que vai se revelar em sua totalidade nas taças nos próximos anos, diante do trabalho rigoroso que os produtores associados (são 18 no total) vêm fazendo para produzir apenas vinhos de altíssima qualidade. Estamos cientes de que a Acavitis é uma instituição que já ganhou o respeito regional em função desse trabalho e agora queremos fazer um esforço conjunto para conquistarmos uma fatia maior do mercado de alta qualidade" diz Ferraz.


A Monte Agudo é uma das vinícolas que utilizam telas de proteção contra granizo em seus vinhedos em São Joaquim. Localizados numa altitude de mais de 1.200 metros acima do nível do mar, boa parte dos 6 hectares cultivados com Chardonnay, Merlot e Cabernet Sauvignon estão numa rota onde sempre há queda de granizo, assim como outra importante vinícola da região, a Villa Francioni, que também utiliza a mesma proteção.

A utilização das telas de proteção é controversa na região. Há produtores que acreditam que, ao proteger do granizo, as telas tiram uma importante parte da luz solar direta, responsável pelo amadurecimento dos cachos, o que acaba por deixar nas uvas tintas um toque de uma substância orgânica com odor semelhante ao pimentão-verde.

Mas mesmo correndo esse risco, o produtor Fumio Hiragami, fruticultor de renome em todo o país e que lançou seus primeiros vinhos recentemente (Vinícola Hiragami) irá fazer esse alto investimento para seus vinhedos de Cabernet Sauvignon: "Meus vinhedos estão localizados na maior altitude no país, a 1.427 metros, o que favorece uma maturação lenta e delicada, mas cuja produtividade pode ser comprometida pelo granizo", revela Hiragami. Para se ter uma ideia do que é a lentidão de maturação por lá, no começo do mês de maio suas uvas Cabernet ainda não haviam sido colhidas, enquanto todos os demais produtores da região já haviam terminado sua colheita. Já a Sauvignon Blanc, colhida bem antes, encontrava-se com ótima qualidade, fermentando nos tonéis de aço inoxidável.

Manejo diferenciado
Produzir uvas em regiões altas e frias exige a utilização de técnicas de cultivo bem diferentes de zonas mais baixas, quentes e até úmidas, e os produtores do estado de Santa Catarina vêm inovando em muitos aspectos, desde a busca de variedades ideais de uvas e controle de pragas até a aplicação de técnicas biodinâmicas nos vinhedos, tudo isso visando frutos mais expressivos que resultem em vinhos especiais.

Uma das proprietárias da Vinícola Santa Augusta, Taline de Nardi, contou que, neste ano, o granizo ocasionou uma perda de 70% das uvas Chardonnay de um de seus vinhedos. No geral, as perdas da vinícola chegaram a 30% no total, mas Taline não está desanimada, pelo contrário: "Tiramos a cobertura de uma parte do vinhedo e tivemos uvas de maior qualidade, e nossos parreirais de Água Doce (outro município da região) estão convertidos para a biodinâmica, cujo primeiro vinho está fermentando agora. Com as uvas dessa zona queremos fazer nossos grandes tintos", afirma.

O enólogo gaúcho Jefferson Sancineto Nunes trabalha para duas vinícolas bem distintas no estado, a Pericó, em São Joaquim, e a Santa Augusta, em Videira, e confirma o que disse Taline no tocante à qualidade superior das uvas que vêm sendo cultivadas com as diretrizes da biodinâmica desde 2010: "O trabalho é imenso, não dá para descuidar em nenhum momento, pois não podemos contar com os defensivos agrícolas. Mas, por outro lado, percebemos que a planta reage melhor e tira do solo maior intensidade. Mesmo jovens, os taninos dos vinhos preparados com uvas biodinâmicas são elegantes e a coloração é linda", conta Nunes.

Já na vinícola Pericó, ele conta que o clima deste ano não favoreceu o Icewine, cujas uvas necessitam de longa maturação nas altitudes e muitos dias de frio abaixo de zero. E em 2012, a colheita por lá se antecipou por conta da seca. Assim, a Cabernet Sauvignon, que já foi colhida em junho para o Icewine, nesta safra saiu dos parreirais no final de abril. "Mas estou muito feliz com os resultados e tive algumas boas surpresas com a Cabernet Franc e com a Sauvignon Blanc. É que os vinhedos da Pericó, implantados há muitos anos e cuidados de forma delicada, estão menos vigorosos e mais intensos, com raízes maiores bem implantadas. São plantas que estão finalmente em equilíbrio e isso transparece na fruta", explica o enólogo.

#Q#

Para se ter uma ideia da seca que atingiu a região, a média para os meses de março é de 160 mm, mas neste ano choveu apenas 23 mm. Com isso, os solos mais rasos sofreram um pouco, pois as videiras não tinham como acumular água e nem buscá-la. Já os mais profundos foram beneficiados. "Em Santa Catarina, por conta das condições naturais por vezes extremas, de frio, altitude e tipos de solo, o manejo do vinhedo é a chave para se conseguir boa fruta e assim bom vinho. Mesmo num ano excelente como 2012, quem não vem cuidando do vinhedo de forma adequada nos últimos anos não se beneficiou do bom clima" completa Nunes.

No entanto, para aqueles produtores que, como disse Leônidas Ferraz, "vestiram a camisa da qualidade do campo até a cantina", o ano de 2012 vai deixar saudade das condições climáticas e num futuro próximo brindar as boas lembranças com vinhos excelentes.


Terroir Brasil

Artigo publicado nesta revista

Revista ADEGA 79 · Maio/2012 · O sabor da terra

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