Grandes Degustações

Bordeaux de 50 anos

Uma viagem no tempo: ADEGA fez uma prova de vinhos de Bordeaux de mais de 50 anos

Eduardo Milan em 16 de Abril de 2012 às 12:36

Luna Garcia

Degustar vinhos de safras antigas, além de ser uma oportunidade para poucos, é a concretização, ao menos em nossa imaginação, da possibilidade de se fazer uma conexão entre o passado e o presente por meio da taça. É uma forma de nos transportarmos à época em que o rótulo foi elaborado, de viver a expectativa em torno de uma garrafa de mais de 50 anos. O vinho estará bom? Valeu ou não a espera?

Realizar uma degustação de vinhos antigos, tão dignos de respeito e cuidados, envolve uma série de fatores. Dois dos principais pontos têm a ver com a bebida em si. Primeiramente, aquele que produziu as uvas e o vinho – que talvez nem mesmo esteja vivo nos dias atuais – deve ter tido em mente fazer algo que permanecesse no tempo para ser desfrutado pelas gerações futuras com os mesmos prazer e orgulho que o enólogo teve ao elaborá-lo. Segundo, é imprescindível que aquele que adquiriu suas garrafas as tenha guardado em condições ideais de temperatura e umidade, de forma a garantir sua preservação e evolução. Tudo isso permeado por uma atitude de respeito e amor a esse líquido tão precioso e único que é o vinho.

Luna Garcia

SACA-ROLHAS PNEUMÁTICO
Ferramenta indispensável para o serviço de vinhos antigos, trata-se de uma espécie de bomba que, através de uma agulha que atravessa toda cortiça, injeta ar dentro da garrafa – o que deve ser feito com todo o cuidado para não estourá-la –, fazendo com que a rolha seja expelida lentamente. Outro tipo de saca-rolhas, como o de pinça, por exemplo, poderia ter sido usado, mas o sucesso provavelmente não teria sido o mesmo.

Luna Garcia
Realizar uma degustação de vinhos antigos, tão dignos de respeito e cuidados, envolve uma série de fatores permeados por uma atitude de respeito e amor a esse líquido tão precioso e único que é o vinho

Como organizar uma degustação especial?
Foi nessa aura de expectativa, fascinação e – por que não? – de reverência que ADEGA teve o privilégio de conduzir e participar da degustação de quatro vinhos antigos de Bordeaux, sendo três rótulos da safra de 1955 e um da safra de 1962. De fato, no dia 12 de março, a equipe da revista, representada pelos sócios Christian Burgos e Miguel Cui Filho e pelo editor de vinhos Eduardo Milan, somados aos felizardos Carina Quadros, Claudio Cantamessa, Daniel Ribeiro, Gabriel Zipman, Gilson Schiho, Jan Gunnar Karsten, Paulo Zoega, Rodrigo Mascaretti, Rogério Garrubbo e Veroka Vidal reuniram-se no restaurante Aguzzo para participar desse momento único, em que os personagens principais da noite foram: Château Caronne Ste. Gemme 1962, Château Beauregard 1955, Château Pichon Longueville Comtesse Lalande 1955 e Château Calon-Ségur 1955.

Desde o transporte das garrafas, passando por sua armazenagem na adega do restaurante, até o momento de serem servidos, todo o processo foi cercado de muito cuidado para que a degustação transcorresse perfeitamente e fosse um evento especial, para ficar na memória de todos que dele participaram.

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Luna Garcia Luna Garcia

Os vinhos chegaram ao restaurante com vários dias de antecedência, permanecendo em repouso em ambiente climatizado. Dois dias antes de serem abertos, foram colocados na posição vertical, para garantir a estabilização de qualquer sedimento no fundo das garrafas. A parte mais delicada foi a retirada das rolhas. O momento foi cercado de apreensão e ansiedade, já que, devido à sua idade, poderiam ter quebrado ou se esfarelado, deixando fragmentos dentro do vinho. Felizmente, todas elas saíram intactas. Cabe salientar que isso só foi possível graças à ajuda de um saca-rolhas pneumático.

Após esse ritual, os vinhos foram servidos diretamente nas taças. A passagem por um decanter, nesse caso, teria sido muito arriscada, já que, pela idade, um contato intenso do ar poderia ser fatal para esses tintos tão delicados. Felizmente, as precauções de repouso e de armazenagem e os cuidados durante o serviço possibilitaram que os sedimentos do líquido permanecessem no fundo da garrafa mostrando a linda cor brilhante e translúcida dos vinhos servidos.

Depois de tudo isso, veio a maior recompensa: os vinhos provados exibiram, de modo geral, vivacidade, equilíbrio, taninos finos, boa acidez, sutileza, elegância e profundidade só encontradas em vinhos envelhecidos, ou melhor, em vinhos que além de terem virtude para o envelhecimento foram armazenados em condições ideais, caso dessas preciosidades.

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Quando um vinho é guardado, mudanças espetaculares podem acontecer, as quais aumentam tanto sua complexidade quanto seu valor

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Um grande evento
Antes da apresentação dos vinhos de Bordeaux, foi servida aos participantes uma garrafa magnum – 1,5 litros – Cave Pericó Branco Espumante Brut, de Santa Catarina, elaborado pelo método tradicional – segunda fermentação em garrafa – a partir de uvas Cabernet Sauvignon, Merlot e Chardonnay, que se mostrou fresco e agradável, cumprindo a função de preparar as papilas gustativas para receber vinhos tão exclusivos.

Em seguida, veio a prova dos bordaleses (confira nas próximas páginas). Na sequência, como não seria ideal degustar vinhos desse calibre ao lado de comida, ao desfrutar do jantar, os convidados puderam degustar o segundo vinho do Château Palmer, o ótimo Alter Ego de Palmer 2004, que faz excelente par com a paleta de cordeiro especialmente preparada para o evento pelo chef Resende. Para finalizar, sobremesa à base de chocolate acompanhada do Vinho do Porto Crasto LBV 2005, que casou bem com a textura do chocolate e encerrou a noite.

Luna Garcia Luna Garcia
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Carina Quadros, Claudio Cantamessa, Daniel Ribeiro, Gabriel Zipman, Gilson Schiho, Jan Gunnar Karsten, Paulo Zoega, Rodrigo Mascaretti, Rogério Garrubbo e Veroka Vidal foram os convidados para esta degustação exclusiva
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Na degustação, todos foram convidados a dar suas opiniões e eleger o vinho preferido. A tarefa não foi das mais fáceis. Todos concordaram que cada um dos rótulos antigos degustados tinha suas particularidades e nuances. Mas, mesmo diante dessas circunstâncias, a maioria dos participantes elegeu o Beauregard, seguido de perto pelo Calon-Ségur e pelo Caronne Ste. Gemme.

A SEGUIR UM BREVE RESUMO DE CADA CHÂTEAU, BEM COMO AS NOTAS DE DEGUSTAÇÃO DE CADA UM DOS VINHOS PROVADOS NESSE EVENTO ÚNICO, ESPECIAL E INESQUECÍVEL

CHÂTEAU BEAUREGARD 1955 – POMEROL
Área de vinhedos: 17,5 hectares
Variedades: 70% Merlot e 30% Cabernet Franc
Idade média dos vinhedos: 30 anos
Estágio em madeira: entre 16 e 22 meses, sendo 60/80% em barricas novas
Produção: 60.000 garrafas

O Château Beauregard está localizado na comuna de Pomerol, na margem direita do rio Gironde, em Bordeaux. Os vinhedos de Beauregard estão situados próximo ao pequeno vilarejo de Catusseau, na parte sudeste do planalto de Pomerol. É uma das poucas propriedades dessa denominação em que a construção atual é grande o suficiente para ser chamada de “Château”. Propriedade histórica, seus primeiros registros datam do século XI, sendo que o castelo atual foi construído por volta do ano de 1795. Depois de se tornar um dos principais Crus no século XIX, foi adquirido pela família Clauzel em 1920, sendo vendido em 1991 para o Crédit Foncier de France. Em termos gerais, apesar de muito bons, os vinhos do Château Beauregard não são os mais concentrados de Pomerol, mas são elaborados de forma consistente e sólida, sendo fiéis às características de equilíbrio e de fruta madura dessa denominação, pendendo para o lado mais sutil e elegante.

93 PONTOS
Cor vermelho-rubi de reflexos acastanhados devido ao envelhecimento. Aromas florais, de bosque, cogumelos, ervas secas, algo terroso, leve toque de sous bois. Talvez o nariz mais exuberante de todos os provados. No palato, está muito vivo ainda, não exibindo sinal de cansaço, muito equilibrado, complexo, tem ótima acidez, taninos macios e final longo e cativante. O mais charmoso e elegante da prova. EM

CHÂTEAU CARONNE STE. GEMME 1962 – HAUT MÉDOC
Classificação: Cru Borgeois Supèrieur em 1932
Área de vinhedos: 45 hectares
Variedades: 55% Cabernet Sauvignon, 43% Merlot, 2% Petit Verdot
Idade média dos vinhedos: 30 anos
Estágio em madeira: 12 meses, sendo 25% em barricas novas
Produção: 266.000 garrafas

Os vinhedos de Caronne Ste. Gemme estão localizados no Médoc Central, nas proximidades de St. Laurent, não muito distante do Château Camensac e do Château Belgrave. Seus primeiros registros datam de 1648, mas sua história moderna se inicia em 1900, com a compra do Château por Emile e Eugène Borie. Atualmente, a propriedade é administrada pelo neto de Emile, Jean Nony, e por seu sobrinho, François. Em linhas gerais, os vinhos produzidos aqui são austeros e sólidos, com taninos robustos em sua juventude e que precisam de tempo para amaciarem.

92 PONTOS
Cor vermelho-rubi brilhante de reflexos atijolados. Nariz mais frutado em comparação aos outros três vinhos provados, algo de especiarias, tabaco, caixa de cedro e sutil e sedutor toque de alcaçuz. Em boca, está bem vivo ainda, taninos finos e pronunciados, mais estruturado e cheio. Longo, denso, é equilibrado, tem boa acidez, ótimo volume de boca e final persistente e complexo. Pelo exemplar provado, é incrível, mas ainda vai se manter no auge por pelo menos cinco anos. EM

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CHÂTEAU CALON-SÉGUR 1955 – Saint- Estèphe
Classificação: 3ème Cru Classé em 1855
Área de vinhedos: 53 hectares
Variedades: 65% Cabernet Sauvignon, 20% Merlot, 15% Cabernet Franc
Idade média dos vinhedos: 35 anos
Estágio em madeira: 18 meses, sendo 50% em barricas novas
Produção: 240.000 garrafas

Localizado na extremidade norte da comuna de Saint-Estèphe, o castelo branco domina a paisagem, com suas duas torres. Cercando o Château há um muro de pedra, pouco usual em Bordeaux, mas muito comum na Borgonha. Propriedade histórica, seus primeiros registros datam da época do Império Romano, quando Saint- Estèphe era conhecida como “Calones”, mas a notoriedade como produtora de vinho vem do século XVIII, com uma fala atribuída ao Marquês de Ségur, “eu faço meu vinho no Lafite e no Latour, mas meu coração está em Calon”. Seu apego a Calon ficou imortalizado com o coração presente no rótulo do vinho.

Entre as décadas de 1920 e de 1960 várias safras foram consideradas excepcionais, mostrando grande capacidade de envelhecimento. Em linhas gerais, Calon-Ségur produz vinhos de estilo clássico e tradicional, de vida longa, que evoluem lentamente e demoram para mostrar todo seu potencial.

93 PONTOS
Vermelho-rubi de reflexos atijolados, quase âmbar. Ao primeiro momento, os aromas estavam fechados e quase imperceptíveis, porém o tempo de copo abriu espaço para notas de terra úmida, algo de cogumelos e trufas, além de toques de ervas secas e couro. Talvez o mais difícil e austero da prova, porém não menos cativante e surpreendente. No palato, é profundo, complexo, estruturado, muito vivo, exibindo ótima acidez, taninos finos e perfeito equilíbrio de todo o conjunto. Longo, muito longo e persistente. Definitivamente, no palato justificou a fama de um dos grandes da safra 1955.

CHÂTEAU PICHON LONGUEVILLE COMTESSE DE LALANDE 1955 – PAUILLAC
Classificação: 2ème Cru Classé em 1855
Área de vinhedos: 75 hectares
Variedades: 45% Cabernet Sauvignon, 35% Merlot, 12% Cabernet Franc, 8% Petit Verdot
Idade média dos vinhedos: 30 anos
Estágio em Madeira: entre 18 e 20 meses, sendo 50% em barricas novas
Produção: 180.000 garrafas

Localizado ao sul do vilarejo de Pauillac, seus primeiros registros históricos datam do final do século XVII. Nesse período, o Château era parte de uma única propriedade chamada Pichon-Longueville, que foi dividida em 1850, daí a existência de outro Château de nome Pichon-Longueville Baron. Foi comprado em 1924 pelo pai da Madame de Lencquesaing, chamada carinhosamente de La Générale pelos seus pares. Em 2007, a casa de Champagne Louis Roederer adquiriu o Château.

Em linhas gerais, o Château produz vinhos de ótima qualidade e, em algumas safras, pode ser excepcional, rivalizando tranquilamente com os três Premier Cru Classé da denominação, Latour, Mouton e Lafite. Muito bem feito e consistente, pode envelhecer muito bem por décadas.

89 PONTOS
Cor vermelho-rubi acastanhada um pouco mais opaca. Aromas mais discretos, já mostrando sinais de cansaço, algo de tabaco, ervas secas, cogumelos, sutis toques de trufas e sous bois, que se mostraram mais com o tempo de copo. Em boca, apesar de bom, já está em declínio. Mesmo assim, é estruturado, tem bom equilíbrio e bastante acidez. Está menos exuberante, mas é muito elegante, sutil e profundo.


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Artigo publicado nesta revista


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