Estilo Manuelino

A história do hotel palácio do Buçaco e de seu vinho ícone

A bebida é um símbolo de Portugal atualmente e é considerado um dos rótulos mais longevos do mundo


O palácio tem torres e pórticos que rementem à Torre de Belém e ao Mosteiro dos Jerônimos em Lisboa

Inverno de 1810. O Marechal André Masséna lidera o exército francês de mais de 100 mil homens que marcham através dos Pirineus. Ele recebe a ordem de ocupar Portugal e expulsar as forças britânicas da Península Ibérica. Para isso, ingressa em terras portuguesas pela Beira interior e planeja avançar em direção ao sul, até Lisboa. Em seu caminho, passa por uma região entre a Bairrada e o Dão, no distrito de Aveiro, onde há uma serra coberta por uma densa mata.

É nos altiplanos da Mata do Buçaco (ou Bussaco) que as tropas anglo-portuguesas comandadas pelo Duque de Wellington vão perpetrar suas primeiras tentativas de defesa contra a invasão que se aproxima. Usando como base o Convento de Santa Cruz do Buçaco, que pertence à Ordem dos Carmelitas Descalços, o general inglês quer se aproveitar da região escarpada para posicionar suas tropas e surpreender os inimigos.

No dia 21 de setembro de 1810, já conhecendo o itinerário do exército francês, Wellington organiza seus homens para a defesa. A grande investida, que ficaria conhecida como a Batalha do Buçaco, é travada seis dias depois, com enormes perdas para a França, que viram cinco generais morrerem, além de quase 4.500 soldados. Tantas baixas afetaram o moral dos homens de Masséna, que continua a campanha de invasão, mas acaba rechaçado às portas de Lisboa.

Apesar de não ter impedido o avanço francês, a Batalha do Buçaco ficou marcada na história como um dos grandes exemplos de táticas de defesa militar e é celebrada até hoje pelos portugueses.


Representação da Batalha do Buçaco, uma das mais importantes durante as invasões napoleônicas em Portugal

Mata sagrada dos carmelitas descalços

Em 1630, Ordem dos Carmelitas montou seu “Paraíso na Terra” em meio à Serra do Buçaco

O “sucesso” do exército anglo-português na Serra do Buçaco deveu-se em grande parte às elevações do local e também à densa mata da região, boa parte dela plantada pelos frades da Ordem dos Carmelitas Descalços, que construiu o Convento de Santa Cruz do Buçaco em 1630 e lá permaneceu até 1834.

Os carmelitas edificaram seu mosteiro bem no centro da serra e se dedicaram a criar um boque monumental, que seria uma representação do Monte Carmelo, em Israel, onde a ordem foi fundada, assim como o “Paraíso na Terra”. Eles também construíram um muro de cerca de 3 metros de altura ao redor de seus domínios.

Para seu bosque, os frades plantaram não somente árvores nativas, mas também mandaram vir variedades dos mais diversos cantos do mundo, trazidas pelos navegadores portugueses que desbravavam o Novo Mundo. Com espécimes do Himalaia ao Mississipi, da Argélia ao Japão, do Brasil à Noruega e tantos outros lugares, a Mata do Buçaco é hoje o mais valioso patrimônio natural do país, protegido por uma fundação. Mas, desde a Idade Média, percebeu-se o quão importante era esse legado e o bosque chegou a ser protegido por bulas papais. A primeira, proibia a entrada de mulheres na mata e, a segunda, ameaçava de excomunhão quem cortasse o arvoredo.

Quando as ordens monásticas foram extintas em Portugal, em 1834, D. Maria Pia, mulher do rei D. Luís I, pensou em transformar o convento em um pavilhão real. Anos mais tarde, a rainha – filha do rei Vitório Emanuelle II, que promoveu a unificação da Itália – trouxe para Portugal o cenógrafo e arquiteto italiano Luigi Manini, que se ocupou do projeto do “Edifício Monumental” que se pretendia erguer em meio à Mata do Buçaco.

As obras começaram em 1888 a mando de D. Carlos I, filho de Maria Pia, terminando apenas em 1907. A inspiração veio do período Manuelino, com seu estilo gótico mesclado ao Renascimento. Assim, ergueu-se um palácio de torres e pórticos que rementem à Torre de Belém e ao Mosteiro dos Jerônimos em Lisboa. Internamente, ele foi decorado com os famosos painéis de azulejos portugueses, além de afrescos, que rementem às epopeias dos descobrimentos, e imponente tapeçaria – em um estilo que ficaria conhecido como neomanuelino.

Do palácio real ao vinho do hotel

Para António Rocha, responsável pelos vinhos do hotel, Alexandre de Almeida era um visionário

Como a decadente monarquia portuguesa não queria manter o palácio, ele logo foi transformado em uma albergaria. A partir daí, começa a história do vinho do Buçaco, um dos ícones de Portugal atualmente, considerado um dos rótulos mais longevos do mundo. Natural de Luso, uma vila às margens da Mata do Buçaco, o jovem Alexandre de Almeida foi convidado para fazer parte do staff da hospedaria. Em pouco tempo, sua visão empreendedora fez com que o local se transformasse em um hotel de luxo. “O hotel está numa zona lindíssima, mas no meio de uma mata, da serra, então os meios de comunicação na época eram quase nulos, assim com os acessos. E ele ergueu um hotel de luxo para receber pessoas de todo o mundo. Naquele tempo, fazer isso era algo de visionário”, conta António Rocha, responsável pelos vinhos do hotel hoje.

O Hotel Palácio do Buçaco ainda recebeu a última festa da monarquia portuguesa, em setembro de 1910, quando D. Manuel II celebrou os 100 anos da Batalha do Buçaco. Pouco depois, a República seria proclamada. Mas o hotel continuaria em voga, atraindo gente de todo o mundo, especialmente celebridades e chefes de estado. Foi então que Alexandre de Almeida, após visitar hotéis de luxo na França e perceber que todos ostentavam adegas, decidiu criar um vinho do hotel, em 1917, para que seus hóspedes pudessem se deleitar durante suas estadias por lá.

“Ele criou o vinho para o restaurante. Quando se fala hoje em harmonizações de pratos com vinhos, o Palácio do Bussaco já faz isso há 80 anos. O vinho foi destinado para a gastronomia local, como o leitão da Bairrada, e para alguns pratos mais delicados franceses”, conta Rocha. Almeida idealizou um tinto, que é uma mescla de Baga e Touriga Nacional, e um branco, que mistura Encruzado, Maria Gomes e Bical, uvas típicas das duas regiões limítrofes, Bairrada e Dão.

Mantendo tradições


O palácio de estilo neomanuelino  começou a ser construído em 1888 e depois foi transformado em hotel de luxo por Alexandre de Almeida

Segundo Rocha, os vinhos do Buçaco até hoje são feitos de forma tradicional. “É um vinho que não entra em modas. Ele é feito da mesma forma há 70 anos, portanto não queremos mudar muito, não queremos mudar de todo o fio condutor. Queremos que seja sempre o mesmo vinho”, defende. Mas o que significa essa “forma tradicional”? “Praticamente igual desde o início, com lagares abertos, pisa a pé, uvas do Dão e da Bairrada, sem mexer no vinho, ou mexendo o menos possível, e fazendo de uma forma mais natural possível. Sempre foi assim que o vinho do Buçaco foi feito e é assim que queremos fazê-lo. Se produzíssemos milhares de garrafas, não conseguiríamos fazer de uma forma tão tradicional. Queremos fazer pouco e bom”, afirma categórico, apontando que o hotel produz apenas 10 mil garrafas (ou menos) por ano de cada vinho.

Apesar de não ter formação em enologia, Rocha é o responsável pelos vinhos do Buçaco desde o final dos anos 1990, quando Alexandre de Almeida, neto do fundador do hotel, convidou-o a fazer parte do projeto. Formado em economia, ele é natural da cidade de Curia, na Bairrada, uma antiga estância termal, onde o Grupo Alexandre de Almeida tem outro hotel histórico, que, por sinal, é o local onde os vinhos do Buçaco são vinificados.


O cenógrafo e arquiteto italiano Luigi Manini foi o responsável pelo projeto, que é decorado com azulejos, afrescos, tapeçaria etc


Os vinhos do Buçaco passaram a ser feitos em 1917 para serem servidos no restaurante do hotel

Sua família está ligada ao rumos do grupo hoteleiro há anos, pois seu pai trabalhou com o Alexandre de Almeida que fundou o Buçaco. E sua relação com o vinho vem daí. Rocha conta que os dois primeiros rótulos com que teve contato foram o Buçaco 1990 e o Gonçalves Faria Tonel 5 1990, este último um vinho mítico na Bairrada, aclamado até hoje. “Meu pai tinha uma relação muito próxima com esse produtor, que era seu amigo. Provavelmente, a primeira pessoa a provar esse vinho foram meu pai e eu e, obviamente, o dono. Um dia, tínhamos um jantar lá em casa. Meu pai gostava muito do vinho tirado da pipa e disse a esse produtor que precisava de duas garrafas. Ele tirou duas garrafas do tonel 5 e nos deu. Provei esse vinho diretamente do garrafão. Meu pai achou muito bom e acabou comprando 120 garrafas depois. Então, a minha relação com os vinhos começou de uma forma muito natural e, por sorte, com dois grandes vinhos”, lembra.

Mesmo sendo quem dá a palavra final sobre os rótulos, Rocha trabalha junto com um enólogo consultor. Para seus vinhos, eles trabalham com alguns vinhedos próprios, mas também comprando uvas de produtores locais, com quem têm relações há anos. O blend do tinto costuma ter partes iguais de Baga e Touriga, mas com um toque a mais de Baga, “porque a adega fica no centro da região da Bairrada, então, por uma questão logística, recebe-se mais uvas dessa variedade”. “Mas não há uma fórmula contínua ao longo dos anos”, garante Rocha. Para o branco, a mistura das três castas (Encruzado, Maria Gomes e Bical) também costuma ser homogênea, mas sem uma regra fixa. Os vinhos estagiam cerca de três (brancos) ou quatro anos (tintos), todos com um ano de passagem por barricas francesas, antes de poderem ser vendidos.


“Quando se fala hoje em harmonizações de pratos com vinhos, o Palácio do Bussaco já faz isso há 80 anos”, diz Rocha


Até pouco tempo atrás, os vinhos só podiam ser provados dentro do hotel

Por ficar entre a Bairrada e o Dão, o vinho do Buçaco não pertence a nenhuma denominação de origem, sendo rotulado como um simples “tinto de mesa” (que em Portugal são feitos de uvas viníferas). “Há alguns anos, queria-se fazer um decreto de lei especial para os vinhos do Buçaco, para usar a palavra Reserva nos rótulos. Isso vem desde os primórdios do hotel. Mas era Reserva no sentido de dizer reserva das caves do hotel e não o que se chama hoje de Reserva nas regiões demarcadas. O estado quis intervir, mas, para nós, não era muito importante constar essa palavra nos rótulos. É conhecido como vinho do Buçaco. Muitas vezes perguntam: ‘É um vinho de mesa?’ Não, é um vinho do Buçaco, é completamente diferente. Diria que é completamente diferente da maior parte dos vinhos do mundo”, defende Rocha.

Boca a boca

Durante vários anos, o vinho do Buçaco esteve restrito aos hóspedes do hotel. Somente lá podia ser degustado, pois não era vendido em outro lugar. Hoje, apesar de algumas poucas garrafas serem comercializadas fora do hotel (o Brasil é um dos poucos países a importar seus vinhos), o nome Buçaco ressoa imponente mundo afora.

“O hotel é visitado por pessoas ilustres que são sempre servidas com os vinhos de lá. Essas pessoas começaram a ver que os vinhos eram muito interessantes. E então foi o ‘passar a palavra’ que criou o mito de nossos vinhos. Até 10 anos atrás eles só eram consumidos dentro do hotel. As safras antigas só são consumidas dentro do hotel e, portanto, as pessoas vão para lá para terem uma experiência gastronômica e vínica”, diz Rocha.

O tinto é feito com uma mescla de Baga e Touriga Nacional das regiões da Bairrada e do Dão. O branco leva Encruzado, Maria Gomes e Bical

 

Adega do hotel tem cerca de 200 mil garrafas de safras antigas

O responsável pelos vinhos do hotel conta que foi graças à insistência de Ciro Lilla, dono da importadora Mistral, que Alexandre de Almeida aceitou mandar algumas garrafas para o Brasil. “Não dissemos logo que sim, mas achamos interessante o fato de divulgar o vinho no Brasil e, assim, divulgar o hotel. Era uma forma de vender o vinho, mas também de vender o hotel”, revela, dizendo que tem recebido visitantes de diversas partes do mundo que procuram o lugar depois de ter ouvido falar sobre o vinho.

Além do Brasil, as poucas garrafas que saem do hotel têm ido para Inglaterra, Alemanha, Bélgica, Irlanda, Suécia, Noruega, muitos dessas localidades graças ao acordo celebrado entre o hotel e o projeto de distribuição de Dirk Niepoort – além de Macau, onde os diretores de um cassino local gostaram tanto do vinho que chegaram solicitar a compra das 10 próximas safras. “Nunca faríamos isso, nossa prioridade são os clientes do hotel”, garante Rocha.

A marca da longevidade

Um dos diferenciais dos vinhos do Buçaco, tanto do tinto quanto do branco, é a longevidade. “São vinhos de mais de 40 anos que, com certeza, duram até os dias de hoje. O Buçaco acaba por ser ainda mais diferente, porque nenhum produtor do mundo consegue ter vinhos brancos fabulosos com mais de 60 anos”, afirma Rocha, que recomenda desfrutar os tintos do Buçaco a partir dos 10 anos e os brancos a partir dos oito anos depois de engarrafados. “Acho engraçado quando falam: ‘Ah, o vinho branco do Buçaco 2000 ainda está muito jovem’. E digo que, se calhar, 90% dos vinhos brancos do mundo já está morta com essa idade. O fato é que os vinhos estão jovens mesmo, mas estão fabulosos”, ri.

Comprovando o que falava, enquanto conversava com ADEGA, Rocha serviu dois tintos (1983 e 2005) e dois brancos (1958 e 2003). Tanto o tinto de mais de 30 anos de guarda quanto o branco com impressionantes 56 anos mostraram que ainda tinham muita vida. Suas versões mais jovens então, nem se fala.

Para quem ficou interessado, António Rocha revela que a adega do hotel conta com cerca de 200 mil garrafas de safras antigas estocadas. “Ter vinhos com 70 anos em perfeito estado de consumo é uma grande história”, diz. Ao ser questionado se o estilo direto e austero do vinho é um contraponto ao estilo arquitetônico neomanuelino do hotel, ele ri. “Se calhar, é um contrassenso, porque o vinho é um clássico realmente. Mas, no fundo, o hotel também é um clássico. Embora tenha esse estilo, é um pouquinho menos descontraído, tem salas austeras, tetos altos, como os hotéis antigos e, portanto, visto dessa forma, é um clássico assim como o vinho”.

Por Arnaldo Grizzo

Publicado em 5 de Julho de 2016 às 17:00


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