A grappa, rústica e barata em sua origem, hoje é conhecida pela sofisticação
por Fernando Roveri

Vários países são conhecidos por sua cultura, culinária e também por bebidas produzidas que caracterizam o paladar e a preferência das pessoas. Os destilados, por exemplo, se encaixam perfeitamente nesses quesitos, e cada bebida, quando citada ou provada, remete a lembranças de um país e sua cultura.
No Brasil, por exemplo, temos a cachaça como o nosso destilado mais conhecido e exportado para diversos países; a França nos apresentou o cognac, de sabor mais complexo e encorpado, perfeito para dias frios; a Escócia é mundialmente consagrada por brindar os apreciadores com os melhores uísques; e os russos criaram a vodka para enfrentar os longos e rigorosos invernos que atingem mais de 20 graus negativos. Um destilado originário do século XII, ainda pouco conhecido no Brasil, começa a cair nas graças e no gosto do público.
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A grappa é o destilado mais famoso da península. Inicialmente uma bebida rústica e barata que os italianos misturavam ao café ou tomavam pura como digestivo, a grappa, recentemente, sofreu uma grande transformação. Ganhou toques sofisticados em seu processo produtivo e modernizou o engarrafamento. A partir de então, conquistou um novo status e passou a ser vendida em locais luxuosos tanto na Itália como em outros países.
A bebida resulta da destilação do bagaço fermentado da uva, chamado de vinaccia, originalmente destinado ao aproveitamento do álcool residual após a elaboração do vinho. A matéria-prima, portanto, é a sobra da fermentação constituída de cascas, polpas e sementes remanescentes da prensagem das uvas.
A destilação é feita em pequenos alambiques de cobre, logo depois de o bagaço ser separado do vinho. A grappa não é envelhecida. No entanto, em poucas exceções, recebe a palavra invecchiata no rótulo para especificar o processo de envelhecimento da bebida. O teor alcoólico fica geralmente entre 35% e 54%.
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Na Itália, a grappa possui hierarquia maior que seus brandies, que são obtidos pela destilação do vinho já pronto. Uma aguardente similar é elaborada também em Portugal e recebe o nome de bagaceira e, na França, é conhecida como marc.
Antes da nova moda, as grappas eram genéricas, identificadas apenas pelo nome do produtor. Atualmente, assim como os vinhos, passaram a ser varietais, com o nome da uva especificado no rótulo. São as chamadas monovitigno e devem ser servidas em cálices pequenos, na temperatura ambiente, para pronunciar os aromas e sabores que lembrem as uvas de origem.
No lugar das garrafas convencionais, comuns até nas bebidas mais caras, as novas grappas vêm em recipientes com grande variedade de formatos e tamanhos, algumas em cristal soprado. Algumas garrafas, de tão sofisticadas, são consideradas verdadeiras obras de arte feitas por artesãos italianos.
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Embora tenha a aparência de água, as grappas atuais têm qualidade excepcional, com uma perfumada e intensidade aromática e grande persistência. São menos agressivas que as antigas, mais alcoólicas, e dão mais valor à fruta do que ao álcool, o que as torna mais leves. Pessoas que costumavam rejeitar a bebida por considerá-la rústica e forte passaram a apreciá-la.
Os principais produtores relatam que a demanda pelos tops de linha já supera a capacidade de abastecimento. A Alemanha, a Áustria e o Reino Unido são os principais importadores. A afinidade particular da Alemanha por produtos italianos, em parte pela proximidade geográfica, chegou a ponto de o antigo chanceler Helmut Schmidt ter brindado com grappa, diversas vezes, em jantares oficiais. No Brasil, em bons restaurantes italianos, já é comum saborear um cálice da bebida após a refeição.
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