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  • Il vino, bel canto

    Usado para celebrar, ou como recurso nas artimanhas, o vinho sempre teve papel na ópera

    por por Arnaldo Grizzo

    A cena começa com uma taberna na Sicília. As pessoas chegam alegres, pedem vinho para celebrar o domingo de Páscoa. A taberneira diz que o filho foi comprar e já volta. O jovem, de amores com uma mulher casada, demora e sua namorada ciumenta delata-o ao marido traído. Feliz e ainda sem saber de nada, ele convida os passantes que saíam da missa a beber, celebrando o vinho que acabara de trazer:

    “Viva il vino spumeggiante Nel bicchiere scintillante, Come il riso dell’amante Mite infonde il giubilo! Viva il vino ch’è sincero Che ci allieta ogni pensiero, E che annega l’umor nero, Nell’ebbrezza tenera.”

    (Viva o vinho espumante, nas taças cintilantes, como o riso da amante que inspira a felicidade! Viva o vinho que é sincero, que alegra cada pensamento e que afoga os maus humores em uma doce embriaguez)

    Logo, porém, a festa cessa quando o marido desafia o jovem a um duelo. Ele morde a orelha do outro, tirando sangue, o que significa que aceita o embate e que será até a morte. No fim, o jovem morre.

    Isso é ópera, o drama teatralizado e musicado que encanta o mundo desde o Renascimento. Não é à toa que ópera é um termo italiano – que significa trabalho –, pois um gênero assim tão grandiloquente e melodramático dificilmente teria origem em outro lugar que não em meio à cultura italiana, cujo povo tem intrincado em sua personalidade essa veia teatral em qualquer circunstância de suas vidas.

    As celebrações com vinho são recorrentes na ópera. Leoncavallo usou em Cavalleria Rusticana, assim como Verdi em La Traviata

    Historicamente, as óperas foram feitas para entreter as cortes, mas logo ganharam as multidões, pois eram baseadas em histórias populares. Essa mistura entre um tema pop, uma encenação teatral e uma música de fundo alastrou-se, fazendo com que diversos compositores célebres, incluindo Beethoven, Mozart, Wagner, Tchaikovsky, Stravinsky, Haydn e tantos outros, criassem óperas inesquecíveis. Aliás, diversas peças famosas do repertório considerado erudito são trechos de óperas, como, por exemplo, o Intermezzo de Piero Mascagni, que serve como uma breve pausa de suspense entre os dois curtos atos da ópera “Cavalleria Rusticana”, descrita no começo deste texto – e que será encenada neste segundo semestre no Teatro Municipal de São Paulo.

    Para muitos, esse gênero pode parecer decadente, pois há mesmo raríssimas produções atuais e os produtores vivem reinterpretando as mais clássicas, mas, a verdade é que, a cada ano, as temporadas de óperas dos principais teatros do mundo (a saber: Scala, em Milão, Ópera Garnier, em Paris, Metropolitan, em Nova York, entre outros) tornam-se ainda mais disputadas, como se fossem garrafas de vinhos raros.

    Celebração

    O vinho, por sinal, é uma bebida recorrente nas óperas, assim como os amores não correspondidos e as exultações aos heróis de batalhas. A bebida está presente nas festas, nas recepções aos guerreiros e serve tanto para celebrar a alegria, quanto para ajudar a suportar as mágoas, assim como também pode ser usado como instrumento de sedução.

    Em Otello, o vinho leva o personagem de Cássio à tragédia

    No entanto, assim como na vida, na ópera, o principal apelo do vinho é a celebração, não importa o motivo. A cena de abertura da pouco conhecida “L’Incontro Improvviso”, de Joseph Haydn, por exemplo, traz um grupo de mendigos bebendo suas “glórias”:

    “Che bevanda, che liquore! La dolcezza ed il sapore Fanno rallegrar il cor. Su beviamo, evviva  Bacco, Viva il vino ed il tabacco, Viva il magazzino ancor!”

    (Que bebida, que licor! A doçura e o sabor alegram o coração. Venham beber, viva Baco, viva o vinho e o tabaco, viva ainda o armazém!)

    Já nos “Contos de Hoffmann”, de Jacques Offenbach, o vinho aparece no final, quando Hoffmann, embriagado, termina de contar suas histórias e incita todos a beberem com ele, em homenagem às suas três musas: “Voilá, mes amis, quelle fut l’histoire de mes trois amours. Buvons! (Aqui está, meus amigos, o que foi a história dos meus três amores. Bebamos!)”.

    Nos palcos, as figuras importantes, reis, príncipes e afins, aparecem quase sempre instigando seus convidados à bebida, como no caso do príncipe Orlofsky de “O morcego”, ópera cômica da Johann Strauss. Em um baile em sua casa, o anfitrião, mesmo um pouco aborrecido, diz que, quando bebe vinho na companhia dos outros, esvaziando garrafa após garrafa, todos precisam ter a mesma sede que ele, do contrário, torna-se rude. “Não tolero recusa”, conta, acrescentando que joga uma garrafa na cabeça daquele que ousar não acompanhá-lo na bebedeira. Pouco depois, o príncipe ainda incita seus convidados a brindarem com ele em uma homenagem ao Champagne que, segundo o príncipe, não pode faltar na mesa dos monarcas para matar a sede de seu povo: “Brindemos e nos unamos em homenagem ao rei dos vinhos”.

    Mas a bebida não está na mesa somente dos poderosos. Assim como se vê em “Cavalleria Rusticana”, em “La Bohème”, de Giacomo Puccini, que retrata a vida boêmia de artistas parisienses dos anos 1830, apesar da pobreza, os personagens estão sempre se refestelando com vinho: “E via i pensier, alti i bicchier! Beviam! (Sumam os pensamentos ruins, levantem os copos! Bebam!)”, gritam.

    Sustento e glória da humanidade

    Wolfgang Amadeus Mozart foi um prodígio. Em apenas 35 anos, produziu em profusão, com mais de 600 trabalhos. Sua genialidade sempre foi regada a muito vinho, em uma vida sem muitos freios, e sua prodigalidade alcançou a ópera, com peças sublimes. Em “Così Fan Tutte”, ópera que trata da frivolidade na natureza das mulheres, o vinho aparece na celebração do casamento entre as duas personagens femininas – momento que prova que “todas as mulheres são iguais”.
    Mozart, sempre brincalhão, também vai usar a bebida em “O rapto do Serralho”. Lá, Pedrillo – criado de Belmonte, o nobre que tenta resgatar sua noiva, raptada por piratas turcos – vai usar de suas artimanhas para fazer com que o amo consiga entrar no harém do paxá Selim. Assim, ele oferece vinho ao velho Osmin, vigia do lugar. O turco, pedindo perdão a Alá, acaba provando a bebida: “Ah! Das heiss’ ich Göttertrank! (Isso que chamo de bebida dos deuses)”. Em seguida, Osmin cai no sono.
    No entanto, assim como o Falstaff de Verdi, Mozart vai recriar um personagem boêmio clássico, “Don Giovanni”, o nobre que seduz donzelas com promessas de casamento, abandonando-as em seguida. O Don Juan do compositor austríaco é um bon-vivant, apreciador da boa gastronomia. Em um trecho, por exemplo, ele cita o vinho de Marzemino, uma variedade tinta proveniente do Trento pouco usual atualmente. Porém, o vinho é sua arma de sedução, como ele canta na chamada “Champagne ária”, solicitando que seu criado organize uma festa convocando todas as mulheres que encontrar e sirva o vinho até que elas fiquem embriagadas. Mais adiante na peça o protagonista, indiferente aos avisos de que deveria mudar de vida, diz uma frase célebre: “Vivan le femmine, viva il buon vino, sostegno e gloria d’umanità! (Viva as mulheres, viva o bom vinho, sustento e glória da humanidade!)”. Para logo depois receber a visita de um fantasma e ser levado para o inferno.


    Falstaff se conforma de seus infortúnios com uma garrafa de vinho, cantando as benesses da bebida

    O vinho é um coadjuvante de peso na ópera. Em La Bohème, por exemplo, os personagens (logo acima) exaltam a vida parisiense erguendo suas taças

    Confira o trecho de celebração ao vinho de La Bohème por volta dos 38 minutos no link:
    https://www.youtube.com/watch?v=b0XHUqsU2d8

    O capitão do navio inglês HMS Indomitable, da ópera “Billy Budd”, de Benjamin Britten, chama alguns dos seus oficiais à cabine e oferece vinho. “Ao rei”, brinda o capitão, antes de iniciar a conversa em que discutem a Revolução Francesa, suas ideias democráticas e sua influência nos motins na marinha real, assim como também o destino do marinheiro gago Billy – que mais tarde seria executado depois de ser falsamente acusado de insubordinação.

    O demo

    E não são somente os homens que celebram o vinho e com ele. Em uma cena interessante da ópera “Fausto”, de Charles Gounod, Mefistófeles acerca-se dos jovens da cidade, que estão exultantes e oferecem-lhe bebida. O diabo aceita, mas acha-a ruim e resolve conceder-lhes uma barrica de seu próprio vinho: “Permettez-moi de vous en offrir de ma cave! (Permitam-me oferecer algo da minha adega)”. Você beberia? Os garotos bebem e acham sublime.

    Confira o trecho em que Mefistófeles (do Fausto) oferece seu vinho por volta dos 39 minutos no link:
    https://www.youtube.com/watch?v=zpdS3CUT1tA

    O demônio também está por trás da história de declínio de Tom Rakewell, personagem de “The Rake’s Progress”, de Igor Stravinsky. Nela, o vinho é uma das primeiras tentações do protagonista em um bordel londrino. Ele recusa a princípio, mas acaba se entregando e, depois de uma vida de libertinagem, patrocinada pelo diabo, acaba em um hospital psiquiátrico.

    A bebida, como se vê, nem sempre é vista com bons olhos, como na ópera buffa (cômica) de Ermanno Wolf-Ferrari, “Il segreto di Susanna”, cujo segredo que a mulher guarda do marido – sempre desconfiado de traição – nada mais é do que o hábito de fumar. Em um de seus trechos engraçados, o homem diz: “Vizi non ho: nè gioco, nè vin, nè fumo (Não tenho vícios: nem jogo, nem vinho, nem fumo)”. Ao que a esposa responde brincalhona: “Ah, me ne duol non poco! (Ah, lamento por isso)”.

    Confira a ária de Gonzalez em O Guarani por volta dos 55 minutos no link:
    https://www.youtube.com/watch?v=og28667fRbY
    Confira ao trecho onde o vinho aparece em Pagliacci por volta dos 12 minutos no link:
    https://www.youtube.com/watch?v=kaBnYOF384M


    Acima, uma das cenas mais famosas em que o vinho é celebrado: Don Magnífico, conde de Montefiascone, é desafiado a beber 30 vinhos antes de se tornar copeiro-mor do palácio real na ópera La Cenerentola (Cinderela), de Rossini

    Vinho como inspiração

    Por outro lado, em algumas ocasiões, o vinho servirá como fonte de inspiração, como um “tomador de coragem”, que fará com que personagens se lancem em batalhas e não tenham medo da morte. É dessa forma, por exemplo, que ele é cantado em “O Guarani”, do brasileiro Carlos Gomes, quando o explorador espanhol Gonzalez – que pretende raptar Cecília – está prestes a investir contra a casa do pai da garota, que no fim fica com o índio Peri. “Lieta o avversa la fortuna non c’importa di morir (Seja a sorte boa ou adversa, não nos importamos de morrer)”, canta o aventureiro com o vinho em mãos.

    Da mesma forma, o personagem do palhaço Canio (da famosa ópera “Pagliacci”, de Ruggero Leoncavallo) bebe vinho junto com os aldeões antes de fazer o seu número. Instigado quando alguém lhe diz que um de seus companheiros não o acompanhou na bebida pois queria fazer corte à sua esposa, o “Pierrot”, depois de uns goles, contesta contando que, no palco, se alguém rouba sua esposa, as consequências são engraçadas, mas, se fosse na vida real, o final seria outro.

    O mesmo se dá com Neri, personagem da ópera “La Cena delle Beffe”, de Umberto Giordani. Seu oponente, Giannetto, que quer se vingar, instiga o valentão (e beberrão) a vestir a armadura e mostrar sua coragem no bairro mais violento de Florença. O rapaz aceita, não sem antes provar mais um pouco de vinho:

    “Bevo alla barba di chi signoreggia questa terra di vili: femminette, mercanti ladri e santi solamente in agonia!”

    (Bebo pelas barbas de quem reina nessas terras de covardes: prostitutas, comerciantes ladrões e santos somente da angústia).

    Para Don Giovanni, mulheres e vinho são “o sustento e a glória da humanidade”

    Pela pureza do vinho

    Nunca o personagem principal, mas sempre presente, o mais próximo que o vinho se torna de ser um protagonista é numa peça extremamente famosa: “La Cenerentola”, de Gioacchino Rossini. Em sua versão da Cinderela, o compositor italiano propõe uma cena em é oferecido a Don Magnífico, Conde de Montefiascone, o cargo de copeiro-mor do palácio real, caso ele consiga ficar são depois de provar 30 vinhos. Montefiascone, para quem não se lembra, é uma província no centro da Itália onde há a DOC de curioso nome: Est! Est!! Est!!! di Montefiascone.

    Bom bebedor, o pai das cruéis Clorinda e Tisbe e também pai adotivo de Angelina (Cinderela), superou a prova com certa facilidade e tão logo é nomeado para o cargo, decretou uma ordem que, nos próximos 15 anos, ninguém mais deveria diluir vinho com água, sob pena de ser preso e estrangulado: “Di più non mescere per anni quindici nel vino amabile d’acqua una gocciola, alias capietur e strangulatur. (Não mais misturar, por quinze anos, no vinho doce uma gotinha d’água, ou será preso e estrangulado)”. Por mais cômica que seja a cena, nesse quesito, damos razão ao bufão.

    Libiam

    Um dos mais célebres compositores de óperas da história, Giuseppe Verdi – que fez mais de 20 peças desse estilo em sua vida – foi reconhecidamente um apreciador de vinho e o colocou em diversas passagens de suas obras. Na última de suas 26 óperas, baseada na peça de Shakespeare, Falstaff, a bebida é um coadjuvante sempre em cena, nas mãos principalmente de Sir John Falstaff, um pândego inescrupuloso, que usa de suas artimanhas para continuar sua vida de farras. Logo no início do primeiro ato, por exemplo, ele está em um taberna e pede uma garrafa de Jerez e, vendo-se sem dinheiro, reclama com um empregado: “Ma quel risparmio d’olio tu lo consumi in vino (O que economizamos em óleo, você consome em vinho)”.

    Ao final, no terceiro ato, depois de ser jogado numa fossa, Falstaff aparece um pouco amargurado, esquentando-se com uma taça de vinho em uma ária melancólica e, ao mesmo tempo, cômica sobre seu estado de embriaguez:

    Buono. Ber del vino dolce e sbottonarsi al sole, Dolce cosa! Il buon vino sperde le tetre fole Dello sconforto, accende l’occhio e il pensier, dal labbro Sale al cervel e quivi risveglia il picciol fabbro Dei trilli; un negro grillo che vibra entro l’uom brillo
    Trilla ogni fibra in cor, l’allegro etere al trillo Guizza e il gicondo globo squilibra una demenza Trillante! E il trillo invade il mondo!...

    (Bom! Beber o vinho doce e ficar ao sol, doce coisa! O bom vinho dissipa a loucura sombria da tristeza, ilumina os olhos e pensamento, dos lábios vai ao cérebro e ali desperta pequenos trinados do ferreiro, um grilo preto que vibra dentro do homem embriagado, trina cada fibra do coração, o alegre éter no trinar treme e o globo alegre em demência se desequilibra trinando! E o trinado invade o mundo!...)

    Falstaff, contudo, não é o único personagem das óperas de Verdi com uma queda pelo vinho. No terceiro e último ato de “Rigoletto”, o Duque de Mântua, famoso por sua vida boêmia, chega a uma hospedaria e logo pede: “Una stanza e del vino (Um quarto e vinho!)”. Em seguida, canta sua famosa ária “La donna è mobile”, em que fala da natureza volúvel das mulheres.

    Verdi também usará o vinho em Otello, outro trabalho baseado em Shakespeare. Nela, Iago – que quer ver a ruína de Otello –, embebeda Cássio – o preferido do rei cipriota –, o que faz com que ele se meta em uma briga e perca o posto de tenente que o rei havia acabado de lhe conceder. Porém, uma das passagens mais conhecidas das óperas de Verdi (talvez a mais conhecida) tem o vinho e sua alegria como motivos. Em “La Traviata” – baseada no romance, “A Dama das Camélias”, Alfredo está apaixonado pela cortesã Violetta e declara seu amor em uma das árias mais cantadas de todos os tempos:

    Libiam ne’ lieti calici Che la bellezza infiora, E la fuggevol ora S’inebri a volutta’. Libiam ne’ dolci fremiti Che suscita l’amore, Poiche’ quell’occhio al core Onnipotente va. Libiamo, amor fra i calici Piu’ caldi baci avra’.

    (Brindemos em cálices jubilosos adornados de beleza e, nessa hora fugaz, inebriem-se de volúpia. Brindemos às doces emoções que inspiram amor, uma vez que o olhar segue para o coração onipotente. Brindemos o amor entre os cálices que acalenta os nossos beijos)”.

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    SicíliaóperaL’Incontro ImprovvisoJacques OffenbachIl vino bel canto

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