Mudanças de origem

Vale dos Vinhedos promove "Dia do Vinho" e concurso que contempla os desafios da nova DO brasileira


Sílvia M. Rosa

Dentro de poucos meses (provavelmente em setembro), o Brasil terá sua primeira região vinícola com uma Denominação de Origem - nos moldes das mais famosas regiões produtoras mundiais - o Vale dos Vinhedos, na Serra Gaúcha

O longo caminho percorrido pelo vinho brasileiro para chegar até este ponto é, de certa forma, bem mais rápido do que o de outros países, ao menos na região em questão. Para entender esse raciocínio, é necessário levar em consideração que a vitivinicultura de qualidade no País não tem mais de 15 anos e, embora a história do vinho no Brasil remonte ao século XIX, o padrão de produção e tecnologia necessários para estabelecer normas comuns a países com tradição de produção só foi atingido há menos de 10 anos.

As mudanças que trouxeram o País até este ponto, e que se multiplicaram por todas as regiões produtoras brasileiras - inclusive incentivando o aparecimento de novos terroirs -, incluíram desde a profissionalização dos enólogos e produtores, a compra de maquinário e o investimento na reconversão de vinhedos, até a participação em importantes concursos internacionais, que servem como bons avalistas da qualidade de um produto frente aos seus semelhantes internacionais.

Esta evolução atingiu até o calendário, pois no primeiro domingo do mês de junho foi celebrado, no estado do Rio Grande do Sul, o "Dia Estadual do Vinho" (e já corre em Brasília um projeto de lei para transformar essa data em federal) e, dentro do Vale dos Vinhedos (em Bento Gonçalves) e em mais cinco municípios da região, a data foi comemorada de forma muito especial. Vinícolas abriram suas portas em horários diferenciados, ofereceram descontos, brindes e cursos de degustação gratuitos. Os restaurantes brindaram seus clientes com taças de vinho e as atrações se multiplicaram serra afora.

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fotos: Sílvia M. Rosa

No entanto, apesar do tom de celebração, a Associação de Produtores de Vinhos Finos do Vale dos Vinhedos (Aprovale), aproveitou a data para apresentar coisas sérias. Uma delas foi a mudança do logotipo que identificava a associação desde sua fundação, 15 anos atrás. Segundo Deborah Villas- Boas Dadalt, que pertence ao grupo de trabalho e planejamento de turismo e mercado da Aprovale, a modernização do logo foi feita para que ele represente a maturidade da associação, assim como o alto padrão de qualidade dos produtos e serviços oferecidos aos visitantes.

Outra mudança interessante foi na segunda edição do prêmio "Vinhos do Vale dos Vinhedos", que visa evidenciar a evolução qualitativa dos produtos elaborados pelas vinícolas que integram o roteiro. Neste ano, o grupo de degustadores, reunidos no Hotel e Spa do Vinho Caudalie, já provou as 22 amostras de vinhos - tintos, brancos e espumantes - seguindo o padrão mínimo necessário para um vinho receber o certificado da Denominação de Origem.

Prêmio "Vinhos do Vale dos Vinhedos" deste ano avaliou vinhos que seguiram os padrões mínimos da nova Denominação de Origem brasileira

Dentro das normas
Até o momento foram divulgadas apenas as orientações gerais para a Denominação de Origem Vale dos Vinhedos (D.O.V.V.), que irá se sobrepor à atual Indicação de Procedência Vale dos Vinhedos, em vigor desde 2002. Assim que o Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) e o Ministério da Agricultura reconhecerem a DO, as regras estarão valendo. Entre elas, a delimitação da área de produção, ou seja, para o vinho ser DO, as uvas devem ser plantadas e vinificadas dentro do Vale, com limites rígidos de produção de quilos de uva por hectare, além da restrição das cepas permitidas nesse vinhos. São elas: Cabernet Sauvignon e Franc, Tannat e Merlot para as tintas, Pinot Noir para a base de espumantes, e Chardonnay e Riesling Itálico para vinhos brancos e base de espumante.

Para ser DO - varietal de uva Merlot ou Chardonnay -, o vinho deverá conter no mínimo 85% da cepa identificada no rótulo e, para os assemblages, 60% das mesmas uvas deverão formar sua base. Todos os espumantes deverão ser preparados no método tradicional (Champenoise) e o método deverá obrigatoriamente constar no rótulo, além de sua classificação como brut, extra-brut ou nature.

Nenhum vinho poderá receber adição de açúcar (ser chaptalizado), nem receber "chips" ou lascas de madeira no lugar da utilização de barris de carvalho - esse procedimento, sim, permitido pela legislação.

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Foram provadas 22 amostras que seguiram os requisítos mínimos da DO Vale dos Vinhedos. Miolo, Pizatto e Don Laurindo ficaram com a posse dos troféus (do artista gaúcho Bez Batti) neste ano

Desafios
Seguindo esses parâmetros, a premiação dos vinhos degustados neste ano ficou nas mãos da Miolo - com o Miolo Merlot Terroir 2008 -, da Pizzato - com o Chardonnay 2009 - e da Don Laurindo - com seu espumante Brut. Os troféus da premiação são itinerantes, ou seja, o premiado do ano anterior passa a escultura (do artista gaúcho Bez Batti) para o novo premiado. Caso uma vinícola ganhe o prêmio por três edições seguidas, ela conquista o direito de reter o troféu.

Para os próximos anos, que serão de adaptação às normas da DO, devem ser esperadas ainda mais mudanças dentro do Vale e os desafios só começaram a ser enfrentados. Entre eles, a possibilidade da presença de um condomínio de luxo na região (que descaracterizaria não somente a paisagem natural, mas a identidade cultural do Vale), a dificuldade de cooperação entre muitos associados e a comunidade local (moradores e vinicultores) e o reforço da - ainda controversa - cepa Merlot como sendo a mais representativa tinta do Vale.

Porém, os últimos 10 anos provaram que a superação de desafios é possível e só exige trabalho árduo. Os próximos 10 talvez contemplem o Vale dos Vinhedos não somente com a manutenção de suas belezas naturais, como com o reconhecimento da primeira Denominação de Origem dos vinhos brasileiros.

Silvia Mascella Rosa

Publicado em 30 de Junho de 2010 às 11:52


Terroir Brasil

Artigo publicado nesta revista