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    Nas masmorras de Chillon

    A história dos vinhedos do famoso Château de Chillon, às margens do lago Léman, na Suíça

    Chillon

    por Arnaldo Grizzo

    Erguendo-se majestosamente sobre um rochedo calcário que emerge das águas cristalinas do Lago Léman, o Château de Chillon uma fortaleza medieval imponente, é um dos pontos turísticos mais visitados da Suíça. O conjunto arquitetônico impressiona: 25 edifícios interconectados, medindo 110 metros de comprimento por 50 de largura, culminando com uma torre de menagem de 25 metros de altura. De um lado, uma magnífica residência à beira do lago; do outro, uma imponente fortaleza voltada para as montanhas.

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    Mais de 400 mil visitantes por ano peregrinam até esta joia arquitetônica, mas poucos sabem que, além de da beleza estonteante de sua arquitetura, de sua história rica e de guardar segredos sombrios em suas masmorras, o castelo também produz vinhos: o Clos de Chillon, um Grand Cru, que reconecta essa fortaleza histórica com suas raízes vinícolas medievais.

    Localizado em Veytaux, a apenas três quilômetros de Montreux, na região vinícola de Lavaux – declarada Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO em 2007 –, remonta à conturbada história da Europa medieval e traz um pouco da tradição vinícola suíça, que aqui ressurgiu ali após décadas de abandono.

    A história do Château de Chillon confunde-se com a própria formação da Europa. Estudos arqueológicos revelam que o local foi ocupado desde a Idade do Bronze, mas foi entre os séculos XII e XVI que ganhou sua configuração atual, quando serviu como residência e lucrativa estação aduaneira dos Condes de Saboia.

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    Construído sobre um rochedo oval em posição estratégica, o castelo controlava a passagem entre a Riviera Vaudesa (acesso ao norte através da Alemanha e França) e a planície do Ródano.

    O prisioneiro de Byron

    A história mais famosa associada ao castelo está ligada a François Bonivard (1493-1570), um nobre eclesiástico e patriota genebrino que se tornou um símbolo da luta pela liberdade. Bonivard foi prior do mosteiro de St.-Victor, próximo a Genebra, e opôs-se a Charles III, Duque de Saboia. Em 1530, Bonivard foi capturado e aprisionado nas masmorras subterrâneas do Château de Chillon, onde permaneceu acorrentado a uma coluna por seis anos, até ser libertado pelos bernenses em 1536. A história de Bonivard permaneceu relativamente obscura até 1816, quando Lord Byron e Percy Bysshe Shelley, navegando pelo Lago Léman, visitaram o castelo.

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    Após percorrer a masmorra onde Bonivard esteve preso, Byron foi profundamente inspirado e compôs “The Prisoner of Chillon”, um poema narrativo de 392 versos que se tornou uma das obras mais famosas do Romantismo, inspirando até mesmo Eugène Delacroix. Futuramente, nomes como Goethe, Hemingway, Rousseau e Victor Hugo visitariam Chillon graças à fama conquistada.

    Do abandono ao renascimento

    Acredita-se que a vocação vinícola do Château de Chillon é antiga. Em 1260, Pedro II, Conde de Saboia, adquiriu um grande vinhedo na região de Preveruit, parte da paróquia de Les Planches, dedicado a São Vicente, padroeiro dos viticultores. Os registros de 1314 dos domínios de Chillon incluem detalhes sobre os gastos desse vinhedo, demonstrando sua importância econômica. Mapas do século XVIII mostram que quase toda a terra entre a vila de Veytaux e o lago já estava ocupada por vinhas. Parte desta área já era denominada “Clos de Chillon”.

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    Pragas, urbanização e crises econômicas levaram ao abandono gradual deste vinhedo comunal na primeira metade do século XX. Apenas 2.000 m² de Chasselas sobreviveram até 1965.

    A virada aconteceu quando os herdeiros da família Châtelain doaram o vinhedo à Associação para a Restauração do Castelo de Chillon, em 1965, para ajudar a preservar o monumento. A associação decidiu replantar a terra e comprar outros 2.000 m². A primeira parcela foi replantada em 1968, expandida em 1977. Desde 2010, a Fundação do Castelo de Chillon trabalha com a Badoux Vins para restaurar a vinificação nas adegas do castelo, retomando sua glória medieval. Atualmente, o Clos de Chillon abrange dois grandes lotes totalizando 12.000 m²: um nas margens do lago, onde crescem as variedades Chasselas, Gamaret, Garanoir e Merlot; outro sob as linhas ferroviárias, especialmente reservado para Chasselas.

    Vinhos nas masmorras

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    O castelo produz quatro vinhos, os Clos de Chillon Grand Cru, branco e tinto e o Chillon Castle Foundation Reserve também branco e tinto. Uma das características mais fascinantes do Clos de Chillon é seu processo de envelhecimento. Desde 2011, cerca de 40 barris foram instalados no primeiro dos subterrâneos do castelo, a mesma masmorra onde François Bonivard esteve acorrentado. Este Grand Cru, é envelhecido e engarrafado no castelo pela Badoux Vins. Cerca de 10.000 garrafas são produzidas anualmente e só podem ser degustadas e compradas no castelo.

    Nas palavras do próprio Byron, gravadas para a eternidade: “Chillon! thy prison is a holy place” (Chillon! Tua prisão é um lugar sagrado”) Clos de Chillon é uma ponte entre o passado e o presente, entre a pedra fria das masmorras e líquido dourado do Chasselas, entre a tirania que Byron denunciou e a liberdade celebrada a cada taça.

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