Rothschild

Philippe, herdeiro e gestor da família mais influente do mundo do vinho, explica como os Rothschild mantém a mística em torno de seu vinho


Roberto Silva
"Estamos nisso há mais de 150 anos e o mundo do vinho está se tornando mais e mais complexo. A grande dificuldade é manter-se no topo em termos de qualidade, imagem."

A família Rothschild dispensa apresentações. O que se pode dizer de um grupo histórico, cujas origens remontam à época da Revolução Industrial, ainda no século XVIII, e que foi responsável por estabelecer as instituições financeiras na Europa daquela época? Que diz-se ter possuído a maior fortuna do mundo durante anos a fio? Cujos ramos austríacos e britânicos foram elevados ao grau de nobreza e são barões até hoje? E que possui dois dos cinco Premier Grand Cru Classés de Bordeaux?

E o que dizer de Philippe de Rothschild? O que dizer do neto do lendário barão Philippe, que além de todas as inovações que implantou em Bordeaux, conseguiu mudar a histórica (e até então imutável) classificação de 1855 para que o Mouton Rothschild subisse de categoria? O que dizer do filho da baronesa Philippine, que seguiu com o empreendedorismo do pai e espalhou o mito do vinho de Rothschild, consolidando projetos como Opus One e Almaviva, só para citar dois?

Philippine de Rothschild e os filhos, Philippe e Julien

A presença de Philippe é curiosa, seu sobrenome obviamente o precede e, por onde ele anda, há uma espécie de aura mística que atrai os olhares, o mesmo tipo de aura que cerca seus vinhos. Antes de encontrá-lo para esta conversa exclusiva fomos avisados de que ele era muito formal e fechado, como compete ser um herdeiro da mais influente família do mundo do vinho (e não só do vinho). A conversa que começou focada no mundo do negócios e seus segredos, e que tinha hora exata para começar e terminar, após alguns minutos se tornou uma conversa aberta, franca e divertida.

Você representa provavelmente a mais influente e icônica família do mundo do vinho. Esta é uma grande responsabilidade, não?
[Risos] É, sem dúvida. Estamos nisso há mais de 150 anos e o mundo do vinho está se tornando mais e mais complexo. A grande dificuldade é manter-se no topo em termos de qualidade, imagem. Há 30 ou 40 anos havia quatro grandes mercados no mundo. Hoje passaram a ser 15, 20, 30 mercados muito importantes. E amanhã haverá ainda mais. Portanto, essa é uma responsabilidade que fica maior e maior.

O que isso altera a percepção e atuação de suas vinícolas?
Ser líder em um mercado é um coisa. Quando você lidera em quatro mercados, é outra. E liderar em 20 mercados é completamente diferente. Trabalhamos para liderar em quantos mercados pudermos. Quando nos colocamos nessa posição, é mais difícil, mas, por outro lado, é mais atraente, pois cada mercado é diferente e em cada lugar existem dificuldades peculiares, caminhos para assegurar que estejamos no topo. Isso se torna mesmo bastante complexo.

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"Esse é o grande luxo do mercado de luxo: produzimos o que acreditamos ser a qualidade top e a apresentamos ao mercado. Pautamo-nos pelo produto e não pelo mercado"

Os membros de sua família sempre foram bastante inovadores, criando novas imagens, engarrafando seu próprio vinho, rotulando com arte.
Isso começa com meu avô inovando em todos os sentidos possíveis. Ele passou muito tempo nos Estados Unidos, quando ninguém acreditava naquele mercado, porque ele queria que seus vinhos fossem aceitos e vendidos lá. Ele inovou no manejo de seus vinhedos e na gestão da companhia. E depois, quando passou a empresa para a minha mãe, ela também foi inovadora. Ela colocou em pé o que temos no Chile hoje. Ela impulsionou Almaviva e isso não era fácil. Hoje todos dizem que Almaviva é fantástica, mas o que vemos hoje é o resultado de 15 anos de trabalho. Essa é uma das dificuldades de compreender o vinho. Não estamos falando do mercado de massa, falamos do ultra-nicho e mercado altamente especializado, de cada vinho posicionado do jeito certo, com a imagem certa, preço certo e com a política correta. E Almaviva é um belo exemplo disso.

Don Alfonso Larraín disse o quão importante para Concha y Toro e para o Chile foi receber esse aval da produção conjunta de Almaviva.
Com certeza. A coisa boa é que a primeira experiência que tivemos foi com Opus One, e isso foi bem cedo, em 1976.

Ainda antes do boom do mercado norte-americano.
Sim, fomos bastante inovadores nisso. E essa experiência foi crucial para nosso sucesso com Almaviva, que depois de 15 anos de dedicação começa a entrar em seus bons anos.

E você tem outros planos?
Temos muitas idéias na cabeça, mas, no momento, há muito a ser feito no Chile e em Almaviva. As pessoas, às vezes, não conseguem imaginar quanto trabalho é gerir Mouton Rothschild. Dizem: "Você está no topo, vende com os preços mais altos." É verdade, mas, por trás disso, há um volume enorme de trabalho para assegurar que a qualidade esteja correta, que os vinhos estejam nos lugares corretos. Não se pode fazer tudo. Em outras palavras, tentamos manter Mouton Rothschild no topo, trazer Almaviva para cima, e Opus One agora está em velocidade de cruzeiro. Provavelmente nos próximos anos tenhamos condição de pensar em coisas novas, pois gostamos de desenvolver novos produtos e estar em novos lugares.

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Roberto Silva

Os novos projetos contribuem com experiências e ideias a serem utilizadas na França, por exemplo?
Sim, é uma via de duas mãos. Nosso enólogo na França vai ao Chile, o pessoal do Chile vai à França. É uma permanente troca.

Seu avô demonstrou enorme paixão na gestão da companhia, na busca da liderança e seu posicionamento no topo. Sua mãe inovou expandindo os negócios, incrementando o conceito do mercado do vinho, desenvolvendo Almaviva e posicionando seus vinhos no chamado "mercado de luxo". Qual o seu objetivo pessoal?
Nossas prioridades até agora têm sido qualidade top e novos mercados. Mas, para ser muito honesto, não sei responder hoje quais serão minhas conquistas para os anos futuros. Você tem que entender uma coisa, o mercado do vinho vem passando por uma grande revolução nos últimos cinco anos. O mercado chinês, o russo, o da Índia se abriram, e o brasileiro está começando a crescer. Nos últimos quatro ou cinco anos temos estado muito, muito ocupados compreendendo como esses novos mercados estão se desenvolvendo, entendendo-os e nos posicionando. Como e onde queremos estar na China? Quantas caixas vender? A que preço? Essas são perguntas gigantescas. E se não as fizermos, outros farão em nosso lugar. Então, isso é uma questão de fazê-las e respondê-las rapidamente.

A tradição de vender através de négociants lhes mantém um pouco distantes do mercado e do consumidor?
Não. Os négociants fazem um grande trabalho em termos de distribuição e de ter o vinho certo no lugar certo. O que acontece é que o mercado quer ver a família. As pessoas querem relacionar o produto à história. Elas têm que entender o que estão bebendo. Como fazemos o vinho, qual o papel da família nisso, qual a imagem da família? Isso é o que as pessoas querem e o que queremos e gostamos de fazer. E é uma excelente maneira de entender como o mercado se move. Isso é fascinante no vinho e também muito complexo. Você pode fazer vinho em qualquer lugar e o perigo é perder o foco. É sempre melhor fazer um pouco menos, mas melhor.

E qual é o maior risco da perda de foco?
Você tem que entender que deixar seu projeto pronto e funcionando não demora dois anos, mas, sim, de 10 a 15 anos. Então, realmente precisa escolher onde quer estar, que sócio quer ter e o que quer fazer. Você não consegue fazer cinco projetos ao mesmo tempo.

E o que pensa a respeito de ser uma empresa familiar?
Uma empresa familiar é uma vantagem, pois você mantém uma cultura empresarial. E acredito que as pessoas gostam disso. Muitas vezes você se pergunta se deve continuar uma empresa familiar, mas quando vê como as pessoas são fascinadas em trabalhar numa empresa familiar.

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O mercado muda muito e algumas pessoas advogam que empresas profissionalizadas são melhores para períodos de grande crescimento e que empresas familiares são melhores para períodos conturbados...
Estamos aqui para o longo prazo e pensamos e agimos com foco no longo prazo. E por que temos esse foco, sempre digo à equipe de vendas: "Se vocês venderem 10 ou 20 mil garrafas a menos, não há problema, mas tenham certeza de que vocês posicionaram o produto corretamente, pois estamos aqui para o longo prazo. Não massacre o preço, nem o produto, nem a imagem".

Durante a crise, vimos as empresas reduzindo os preços em todo o mundo, mas a safra de 2009 teve preços recorde. Isso é incrível...
Perdão, mas vou desapontá-lo. Não é nada incrível [risos]. Nosso planeta está dividido e existe um mercado para o luxo. E esse mercado, não importa o que se diga, está crescendo. E esse é um fenômeno mundial. Além disso, vendemos um produto limitado. O número de garrafas de um Premier Grand Cru Classés varia entre 130 e 170 mil garrafas por ano. É muito pouco em relação ao tamanho do mercado mundial. A demanda cresceu e a oferta se manteve relativamente estável, e em alguns casos reduziu.
Há 20 ou 30 anos, produzíamos mais Mouton. Reduzimos e selecionamos ainda mais, e os preços subiram.

Ultimamente as pessoas têm consumido os ditos vinhos de guarda mais cedo. Como isso afeta a maneira como o vinho é produzido? Vocês estão mudando o estilo para atender a esse consumo de vinhos mais novos?
Não, em absoluto. E esse é o grande luxo do mercado de luxo: produzimos o que acreditamos ser a qualidade top e a apresentamos ao mercado. Pautamo-nos pelo produto e não pelo mercado. Agora, depende das safras. Recentemente estive numa degustação em Hong Kong para uma vertical de Mouton e tínhamos um Mouton dos anos 1980, três dos anos 1990, um 2001 e um 2004. O 2004 era o que estava melhor, mais aberto e agradável. Então, depende das safras.

Então não se trata de mudanças planejadas no vinho?
Claro que não. Se você me disser para abrir um 2005 hoje, direi que não. Mas um 2001, 2002 e 2004 você pode apreciar agora. Outras, como 2000, 2005, 2006 e 2009 você deve aguardar mais alguns anos. Essa é a beleza do vinho. Também não deve se esquecer de que, mesmo sendo um produto de luxo, o vinho é um produto de consumo e você deve ser muito cuidadoso para não entrar no mercado especulativo. Pode-se ou não beber os vinhos jovens, mas deve-se bebê-los um dia. Você não deve passar a vida apenas colecionando rótulos.

Os rótulos artísticos foram muito importantes para sua vinícola e criaram uma nova geração de rótulos por todo o mundo. Mas isso não faz dos vinhos um item de colecionador ao invés de um produto de consumo?
Sim, isso os faz um item para colecionadores.

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Então devemos guardar as garrafas vazias? [risos]
Não! Você deve beber uma e guardar uma cheia [risos]. Não se esqueça de que o vinho é algo para saborear com amigos e família. Você tem que apreciar e compartilhar. Não é algo para tomar sozinho em sua adega. Acho que a questão do rótulo não é apenas para colecionar, é algo para compartilhar e conversar. Quando você abre uma garrafa de 1989, ano da queda do muro de Berlim, a conversa transcende o vinho. Às vezes as pessoas se esquecem disso e intelectualizam demais.

A qualidade do vinho médio está cada vez melhor. O que está acontecendo com os vinhos top? Estão sendo pressionados?
Acredito que se deve fazer a distinção entre duas coisas. Deve-se diferenciar vinhos que evoluem à medida que envelhecem e vinhos que são melhores quando bebidos rapidamente. Quando se compara alguns vinhos com Bordeaux jovens, digo para degustá-los novamente em 15 anos e ver o que acontece. E você deve ter uma coisa em mente quando fala em Bordeaux e Borgonha: capacidade de envelhecimento. Quando eles envelhecem, melhoram. Se você me diz: "Esse vinho chileno 2005 é similar ao Mouton 2005". Eu respondo: "Sim, mas vamos esperar 20, 30, 50 anos!". Vamos ver como eles evoluem. Você deve fazer uma distinção entre boa qualidade e capacidade de envelhecimento. E esse é o milagre do terroir.

Pensando em safras e rótulos. Qual foi a safra antiga que mais o surpreendeu e qual o seu rótulo preferido?
Na última reunião do conselho, em outubro, fascinei- me com um Mouton 1896. Foi uma surpresa incrível em termos de cor e sabor. Quanto aos rótulos, não vou dizer um favorito. Mas gosto muito do conceito da coleção, pois reflete o fato de fazermos o produto que queremos fazer. Fazemos o rótulo que queremos fazer, não importa o que o mercado diz. Por exemplo, o rótulo do príncipe Charles. Ele não é o melhor pintor do mundo e todos sabem disso, mas acredito que foi fascinante ter um rótulo pintado por ele, assim como o rótulo do John Huston, o famoso diretor de cinema, que, em princípio, disse que não conseguiria, mas que depois de três semanas voltou com o fabuloso rótulo de 1982.

Dessa forma, mesmo que presos à tradição no que tange ao vinho, vocês podem se expressar livremente nos rótulos?
Exatamente. Nem sempre tivemos os pintores que quisemos. Por exemplo, na época de meu avô, algumas vezes ele pediu a pintores famosos para fazer uma pintura e, quando o pintor a trouxe, ele disse: "Veja bem, gostaria de um pouco mais de vermelho aqui e ali." E o pintor disse: "Esqueça!" [risos] Dessa forma, perdemos um monte de grandes pintores. Mas não queremos fazer uma coleção dos maiores pintores do mundo, queremos uma coleção que realmente expresse nossa identidade familiar.

Christian Burgos

Publicado em 30 de Novembro de 2010 às 15:59


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