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Dicotomias

Saiba como uma mulher espanhola foi capaz de se destacar na enologia portuguesa

Susana Esteban parece nunca ter dado muita atenção às dicotomias e ingressou em um mundo essencialmente masculino


Nascida em Tui, na Galícia, quase na fronteira com Portugal, Susana Esteban parece nunca ter dado muita atenção às dicotomias. Sem receios, ingressou em um mundo essencialmente masculino – a enologia. Sendo espanhola, fez carreira em Portugal. Por fim, conseguiu ter sucesso tanto no Douro quanto no Alentejo.

Em sua curta, porém brilhante carreira, Susana se tornou um dos expoentes na enologia portuguesa. Ela deixou para trás dúvidas e preconceitos ao realizar trabalhos impecáveis em duas das mais tradicionais (e quase que diametralmente opostas) regiões vitivinícolas portuguesas. Hoje, mostra ao mundo o potencial do Alentejo para grandes vinhos – especialmente os feitos com Alicante Bouschet – ao mesmo tempo que continua com um pé no Douro, criando maravilhas em parceria com sua amiga Sandra Tavares, enóloga do Pintas.

Após se formar em Ciências Químicas pela Universidade de Santiago de Compostela, resolveu se especializar em enologia na Universidade de La Rioja. Tão logo ingressou na área, em 1999, sua trajetória foi retumbante. Começou na Quinta do Côtto. “Juntamente com Esporão, eram as duas marcas mais conhecidas em Portugal então”, lembra Susana. Depois, foi contratada pela Quinta do Crasto e viveu uma época efervescente no Douro – quando surgiu uma geração de ouro que revolucionou os vinhos locais, dando mais ênfase aos “tintos de mesa” do que aos clássicos Vinhos do Porto.

Depois de casar, foi morar em Lisboa e passou a prestar consultoria para vinícolas alentejanas. Quando percebeu o potencial do lugar, começou seu próprio projeto, em 2011, e montou uma vinícola na vila de Mora. Lá, novamente precisou lidar com dois conceitos antagônicos (calor e frescor) para poder criar o vinho que almejava. Resolveu a questão adquirindo duas vinhas distintas após muita procura (curiosamente este é o termo que dá nome ao vinho). Irrequieta, costuma convidar amigos para criar rótulos pouco convencionais em conjunto – em uma linha chamada Sidecar.

Por que você decidiu se tornar enóloga?

Foi por eliminação. Não tenho qualquer ligação familiar com vinho. Quanto tive que ir para a universidade, sabia o que não queria ser. Não queria ficar fechada num escritório. Queria trabalhar no campo, pois nasci e cresci no campo. Na época, mais ou menos em 1988, foi quando se criou a DOC Rías Baixas e havia muitos cursos e provas. Fiquei curiosa, pedi para fazer estágio nas vinícolas e decidi que queria ser enóloga. Mas acho que foi sorte, pois não tinha noção do que era exatamente.

E como foi sua trajetória na carreira? Como foi parar em Portugal?

Foi curioso. Sou espanhola, galega, nascida nas Rías Baixas. Na época, não havia curso de enologia na Espanha. Por isso, tive que fazer um curso de Engenharia Química e um mestrado em enologia em La Rioja. Precisei de sete anos para tirar um diploma. Uma das viagens na universidade foi para o Douro. Fiquei apaixonada. Decidi pedir uma bolsa. Estagiei na Sandeman. Entretanto, a Quinta do Côtto anunciou no jornal que estava à procura de um diretor de produção e eu respondi. Eles me contrataram. Foi meu primeiro emprego como enóloga, ou seja, foi como começar a casa pelo telhado. Foi um desafio muito grande, pois mudei de país – apesar de a Galícia ser relativamente perto do douro – e o Douro, na época, ninguém conhecia. Agora está na moda, mas, em 1999, era um lugar muito agreste, difícil. Porém, tive a sorte de coincidir com uma geração que contava com Jorge Serôdio Borges, Sandra Tavares, Francisco Olazabal etc. Começamos quase todos no mesmo ano e criamos um grupo.

E como foi esse começo? Sendo mulher, em uma atividade e em uma região em que os homens predominam, não havia preconceito?

A Galícia é uma terra de matriarcado. Quem ficava cuidando da terra, gerindo as casas, eram as mulheres. E muitas enólogas dos grandes Albariños são mulheres. Para mim, como galega, era algo natural querer trabalhar com o campo. Quando fui a La Rioja, no mestrado, eles disseram: “Seu futuro é fazer analise em laboratório”. Pois são supertradicionalistas e as mulheres no vinho estão sempre abaixo de um homem. Fui para o Douro, que é um lugar superfechado, isolado, onde também era raro ver uma mulher. Mas, quando me candidatei para a Quinta do Côtto, a família Champalimaud – uma das famílias mais conhecidas e ricas de Portugal – deu uma oportunidade. Lembro que, na entrevista, Miguel Champalimaud disse: “Estou vendo dois problemas no seu currículo: ser mulher e ser espanhola”. Se para um agricultor já era exótico ser uma mulher, imagine ainda por cima ser uma espanhola? Mas, ainda assim, sou grata a ele porque confiou em mim e ofereceu minha primeira oportunidade. Foi difícil pela minha falta de experiência.

Em que teve mais dificuldade?

A dificuldade não foi tanto na adega, mas, na vinha. Tive imensa dificuldade para que executassem as ordens que eu dava. Na vinha há um feitor, um homem, que dá as ordens, e há as mulheres, que executam as ordens. Chega outra mulher a dar ordens? Eles faziam rigorosamente o oposto daquilo que pedia. Reparei nisso, então chamava o feitor ao meu escritório, dava a ordem e ele ia à vinha, perante as mulheres, e parecia que ele tinha dado a ordem. Tive alguns problemas, mas não era tanto por ser mulher, era mais pelo Douro ser um lugar fechado. Muitos dos meus colegas tinham dificuldade com seus feitores, adegueiros. Uma pessoa mais nova dando ordem? Eles achavam que nós não sabíamos nada. Essas quintas eram geridas por proprietários que viviam no Porto, que fica a mais de 100 quilômetros de lá. Imagine o tempo de viagem há 50 anos? Os proprietários não iam. Então, aquilo ficava na mão dos feitores, que faziam o que queriam. De repente, tem alguém no dia a dia a dizer: “É assim que se deve fazer”. E mais, eles estavam habituados a fazer só Vinho do Porto e nós começamos a fazer vinhos de mesa. Eram mudanças muito grandes. Tivemos dificuldade, mas conseguimos. Havia muito entusiasmo nessa geração. Éramos muito versáteis, não sabíamos nada, ajudávamos uns aos outros. Por isso, ficamos e ainda hoje somos muito chegados, quase uma família.

Depois da Quinta do Côtto, o que fez?

Fiquei três anos no Côtto e a família Roquette me convidou para trabalhar na Quinta do Crasto, que, na época, ganhava todos os prêmios – era onde todos os enólogos sonhavam trabalhar. Foi uma universidade. Tínhamos dois consultores, um australiano, Dominique Morris, para os vinhos do Crasto, e um de Bordeaux, Daniel Llose, diretor de todo o grupo AXA Millesimes, Château Lynch-Bages etc. Eram dois consultores de duas escolas completamente diferentes. Muitas vezes, eles tinham ideias completamente antagônicas e eu estava ali... O que um dizia, o outro dizia que tinha que fazer rigorosamente o oposto. Ainda bem que eram em vinhos diferentes, mas, para mim, foi uma escola incrível.

Quais as diferenças de trabalhar no Douro e no Alentejo?

É como mudar de continente. São duas realidades e mentalidades completamente diferentes. No Douro estava numa elite, numa realidade que não era nem a realidade do Douro normal e muito menos do Alentejo. Mas, quando comecei a trabalhar no Alentejo, não vou dizer que foi como começar de novo, mas foi um choque muito grande, principalmente pela mentalidade das pessoas. Comecei como consultora em cinco vinícolas e, em muitas delas, as famílias não sabiam nada de vinho. O Alentejo tinha uma mentalidade mais financeira, mais como uma empresa. Para mim, foi uma grande surpresa, porque eu desconhecida a região. Em Portugal, o Alentejo é líder de mercado, com 60%, mas, quando alguém quer comprar um grande vinho, pensa no Douro. E eu também tinha essa mentalidade. Pensei: “Nunca mais vou fazer vinhos como fazia no Crasto”. Estava convencida disso e, logo na primeira vindima, fiz três vinhos excepcionais. Estava completamente equivocada. Mostrei aos meus colegas do Douro, e eles: “O que é isso?” No segundo ano, foi a constatação. Outra vez consegui fazer bons vinhos e, de fato, um deles foi considerado o melhor vinho do Alentejo daquela colheita. E isso deu-me desejo para fazer meu projeto – vi que conseguia fazer vinhos com a mesma qualidade que faria no Douro.

Como chegou às duas vinhas que têm hoje no Alentejo?

No início, comecei a procurar uma vinha. Eu tinha o vinho que queria fazer na cabeça. Queria um bom Alicante Bouschet. Sabia que essa casta era fundamental para fazer um grande vinho no Alentejo. Ela pode fazer os melhores e os piores vinhos – depende da produção. Pode produzir 20 toneladas por hectare, ou 3 t/ha e aí está a diferença. Ela precisa estar muito madura, em um lugar relativamente quente, tem que ter uma produção muito baixa e isso é difícil de conseguir no Alentejo. Para mim, outra coisa muito importante nos vinhos é o frescor. Mas eram duas coisas um bocado antagônicas, pois precisava de um Alicante – que precisa de calor para estar maduro – e queria fazer, ao mesmo tempo, um vinho fresco. Comecei a procurar e então percebi que não conseguiria fazer um vinho com uma única vinha. Precisei de um Alicante num lugar quente, ao norte do Alentejo, na zona de Évora, e depois fui buscar o frescor e complexidade das vinhas velhas na Serra de São Mamede. Encontrei vinhas velhas inacreditáveis com castas só portuguesas e, ainda por cima, no meio das serras, a 300 metros de altura, o lugar ideal. As duas vinhas estão a 100 quilômetro de distância. É um projeto um bocado diferente do habitual. Normalmente, tem-se uma vinha e deve-se fazer o melhor vinho dessa vinha. Mas, às vezes, é uma questão de sorte, pois nem todas as quintas têm vinhas tão boas. No caso do vinho Procura, fui buscar um Alicante e uma vinha velha. No caso do vinho Aventura, queria fazer um vinho fresco, sem madeira, mas com personalidade. Fui buscar Touriga Nacional e Aragonês em Évora, pois a Touriga, para ser expressiva precisa ter calor. Mas vindimo quando está em 13,5%, não deixo que passe e misturo com 20% de uma vinha de Portoalegre. Fui buscar um pouco a mentalidade do australiano com quem trabalhei. Na Austrália, eles trazem uva de todo o país e o importante é o resultado final. Sou muito pragmática.

É possível fazer vinhos com frescor no Alentejo?

Meus vinhos não têm nada a ver com os vinhos do Douro. E muitos dizem que eles são opostos aos vinhos do Crasto. No Crasto, eu me identificava muito mais com o consultor de Bordeaux, que fazia o vinho Xisto. Identifico-me muito mais com a escola de Bordeaux. Aprendi muito com o Daniel Llose. Ele foi uma pessoa determinante, pois todos cometíamos um erro muito importante no Douro, porque estávamos habituados a trabalhar os vinhos como no Vinho do Porto, em que se tem que extrair muito e as vinhas velhas são muito concentradas. No início, fazíamos vinhos com muito tanino, muita extração, muito álcool e o Daniel me ensinou o que era Bordeaux – aquele aveludado, aquela elegância, não dar tanta importância ao nariz, dar importância à boca, trabalhar bem os taninos – e isso foi fundamental para mim. Hoje em dia tento fazer esse estilo elegante e sofisticado.

Que coisas você aprendeu no Douro e aplica no Alentejo e vice-versa?

Não há uma coisa concreta que possa dizer: “Faço isso assim porque aprendi no Douro”. Muitas pessoas, que provam meus vinhos sem saber que são do Alentejo, acham que são do Douro. Não é algo que eu faça de propósito. É claro que aprendi no Douro e devo ter trazido ideias para o Alentejo. Acompanho muito a viticultura, como aprendi no Douro. Trabalho muito o vinho durante a vindima e depois não sou tão interventiva durante os estágios. Acho que trouxe isso do Douro, pois, no Alentejo, eles intervêm mais durante o ano.

E o projeto com a Sandra Tavares? Como surgiu o nome Crochet?

O nome foi dado por uma amiga designer. Queríamos algo ligado às mulheres e ela lembrou de crochet. Achei o nome brilhante, porque crochet é feito por mulheres e requer muita dedicação, é muito minucioso. Mas não faço vinho para mulheres, faço vinho para quem gosta. Tenho uma certa preocupação de não transmitir algo demasiadamente feminino, que um homem não queira pegar. Com o Crochet, apesar de ter um nome feminino, um rótulo que parece um pano, é um vinho consumido quase que 90% por homens – e não é nada feminino. Só fazemos uma cuba, pois não temos vinícola, nem vinha. Compramos uvas, mas sempre as mesmas, e depois vinificamos na vinícola de um amigo.

E de onde surgiu a ideia do Sidecar?

Sempre tive a ideia de que, quando tivesse uma vinícola própria, convidaria uns amigos para vir e fazer um vinho comigo, só para partilhar, porque é muito enriquecedor. A ideia é eles virem e fazerem o que quiserem, ou seja, eles é que guiam a moto e eu vou no sidecar. O primeiro convidado foi o Dirk Niepoort, pois é um grande amigo e porque temos visões muito diferentes. Discutimos muito sobre os vinhos e gosto desse confronto. O que ele acha que deve ser de uma maneira, eu acho rigorosamente ao contrário. Ele leva as coisas muito ao limite. Fizemos um vinho com uma vinha de Portoalegre, que ele escolheu as uvas. Ele é apaixonado pela Borgonha e fizemos quase um Borgonha alentejano com Alicante Bouschet e Trincadeira. Parece um Pinot Noir na cor, superfrutado, mas com Alicante. Ele mandou vir um tonel do Mosel com 50 anos para a minha adega. Fizemos 1500 garrafas. O legal disso é que fazemos coisas que separadamente não faríamos. Agora fiz um Sidecar com a Filipa Pato e seu marido, William Wouters. A Filipa lembrou de fazer um vinho em talha, que é o sistema tradicional do Alentejo, e eu nunca tinha feito. Mas os vinhos de talha do Alentejo ficavam prontos muito cedo e eram muito levezinhos. Achamos que precisava de algo para dar mais musculatura, então juntamos com uma talha feita por ela na Bairrada, de Baga. O próximo lote vai ser com um amigo das Rías Baixas, dono da Bodegas Zárate. Vai ser branco feito em uma ânfora especial. São brincadeiras enriquecedoras, mas que dão muito trabalho.

Arnaldo Grizzo e Eduardo Milan
Publicado em 21/07/2016, às 11h00 - Atualizado em 20/07/2016, às 16h36


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