Colocando em pratos limpos

Tudo o que você gostaria de saber sobre os brancos...

... mas tinha vergonha de perguntar. Dessa vez, nosso garimpeiro embarca em uma viagem pelo mundo do vinho branco, desvendando mitos e eliminando preconceitos


Qual a bebida ideal para um país na Linha do Equador, de espírito livre e despojado? Qual a melhor opção para acompanhar peixes e crustáceos em uma costa extensa, cheia de diversidade e criatividade culinária? Faça uma escolha versátil, capaz encontrar o ponto de equilíbrio com cada prato de um jantar, do início ao fim. Pensou em vinho branco? Pois é. Mesmo com os ventos soprando em favor, esse é um mar revolto, repleto de recifes e obstáculos que separam os brancos do copo do consumidor comum. Mas, já que o destino é o prazer e a liberdade, vamos abrir os caminhos.

 

Onda azul

Em nosso horizonte tupiniquim, azul é sinal de tempestade. É que, a partir do final dos anos 80, uma verdadeira Tsunami doce e sem graça tomou conta das taças brasileiras e tornou-se sinônimo de vinho branco. A tragédia veio da Alemanha, em garrafas escuras e nome cheio de consoantes: Liebfraumilch. Desde então, a idéia de um vinho branco com bossa e personalidade cedeu lugar a uma bebida limitada e enjoativa. Em festas, restaurantes e outros momentos que clamavam por um bom branco, as garrafas azuis estavam lá, quase onipresentes. Pra piorar, os Libs eram baratos e ganharam espaço em plena maré de estabilização econômica. No início dos anos 90, com dólar um pra um, esse tipo de vinho conquistou paladares jovens e algumas marcas ganharam destaque.

 

                                              

 

Com o fim da tempestade, restou a ressaca adocicada nas mentes e corações dos bebedores nacionais. Mesmo longe dos círculos sofisticados, esses falsos brancos continuam na memória do brasileiro médio. Daí o sujeito pede um bom vinho e dá de cara com uma bebida bem mais ácida, amarga e complexa do que o néctar alemão ao qual estava acostumado. Reação natural: melhor pedir outra bebida. Certo? Errado!

Os produtores de vinho branco devem ao oceano de consumo brasileiro um novo porto seguro. É preciso mostrar aos nossos navegantes, que os brancos podem ser especiais e adequados. Comandantes, uni-vos para desmistificar essa simples e delicada bebida.

Doces e enigmátivos

Um branco pode ser doce, agradável e dignificar suas origens sem tornar-se simplista e banal. Os mesmos ventos germânicos responsáveis pela onda azul que devastou nossos paladares, reservam vinhos doces inacreditáveis, seja pelo sabor, seja pelo preço. Também há exemplares doces entre os portugueses do Porto e por toda a Europa. No Novo Mundo, os doces podem vir acompanhados com a denominação cosecha tardia, indicando que a bebida foi produzida com frutas mais dos que maduras. Mesmo considerando que esses grandes doces podem estar nas cartas mais sofisticadas, as águas douradas do mundo dos brancos revelam nuances surpreendentes e reservadas aos marinheiros mais ousados.

Como as mulheres, os brancos têm um ar enigmático, que sugere atenção e carinho. Um exemplo é a Sauvignon Blanc. Normalmente fermentada em tanques de metal, esse tipo de uva costuma apresentar traços frutados e refrescantes. Pois bem. Outro dia, arrisquei-me em um exemplar chileno com a denominação fumé, que indica o atípico envelhecimento da Sauvignon Blanc em carvalho. Grata surpresa. Leve e perfumado, sim, mas também cheio de força e energia.

Da mesma forma, provei um exemplar incrivelmente barato da rainha das brancas, a Chardonnay. Essa uva se adapta ao contato com a madeira produzindo brancos mais encorpados, sobretudo na América Latina. Também do Novo Mundo, esse que experimentei tinha conhecido apenas o aço, nada de carvalho. Seu frescor conquistou meu coração em meio a um mar dos mais tortuosos, em uma feira de São Paulo.

Ainda na praia dos varietais, impossível deixar de lado o excepcional Chablis. Um vinho de respeito, cujas características históricas transcendem as correntes mais óbvias e elevam o espírito dos amantes do vinho. Entretanto, tormentas econômicas atrapalham a navegação e distanciam esses brancos tão especiais dos nossos desiguais oceanos e bolsos.

Outra uva que aos poucos reconquista corações e bocas é a Riesling. Fora do mainstream há décadas, parece que ela chega para quebrar expectativas e paradigmas, como a guarda, por exemplo. Ao contrário da imensa maioria dos brancos, os exemplares Riesling da Alsácia resistem a mais de uma década de repouso.

Aromas e misturas

Mas, entre os brancos, o coração deste navegante pende para o lado das misturas. As combinações de uvas brancas, quando feitas com critério, resultam em vinhos que são verdadeiras fragrâncias. Os exemplares australianos, sul-africanos e neozelandeses merecem lugar de destaque. Entretanto, cuidado: ao cruzar os continentes, eles ganham fama e preço.

Está em Portugal uma das maiores chances para os marinheiros brasileiros navegarem com segurança na direção dos brancos de primeira linha. Os confrades lusitanos - navegadores de mão cheia - revelam brancos incríveis com preços que estão caindo. Dos poucos países deliciosamente afetados pela queda do dólar, os nossos colonizadores apostam mais do que nunca na parceria com o Brasil, e os brancos pedem passagem.

Se o marinheiro que nos acompanha nessas águas geladas permite uma sugestão clássica, prove e compare o Pera Manca (diz a lenda que ele veio na mala de Cabral para o Brasil) com o top de linha da Esporão. Briga de peixe grande, por pouco mais de R$ 100, a garrafa. É branco para cruzar os sete mares!

Assim são os brancos. Um convite à descoberta, ao encontro, à paixão. Eles estão todos à espera de um momento corajoso. Diferente dos tintos, recusam o óbvio em aromas e sabores. Portanto, quando o assunto é vinho branco, não alimente expectativas! Aguce sua curiosidade! Permita-se descobrir um vinho a cada gole, e deixe que o branco faça o resto.

Ronald Sclavi

Publicado em 6 de Abril de 2016 às 12:07


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