Uma conversa luso-brasileira

ADEGA colocou frente a frente um importante produtor português com um enófilo brasileiro. E a língua que eles falaram foi a do vinho


Brasil e Portugal têm muito em comum, e uma das coisas é a língua, trazida por nossos colonizadores e cultuada aqui. Muitas vezes, os sotaques enganam e fazem com que brasileiros e portugueses tenham um pouco de dificuldade para se entenderem. Contudo, se a língua em comum não basta para um perfeito entendimento luso-brasileiro, a paixão pelo vinho faz o serviço.

Sendo assim, ADEGA - que sempre trabalha para aproximar nossos amigos e leitores com o mundo do vinho através de nossas páginas - foi além novamente.

A exemplo do que fizemos quando da visita do australiano John Duval ao Brasil há alguns meses, decidimos compartilhar com nosso leitor, enófilo e publicitário Edson Cabrera Junior, a oportunidade de almoçar degustando e conversando com o produtor Paulo Cunha, cuja quinta Pinhal da Ponte é uma verdadeira referência na região do Tejo em Portugal. Paulo Cunha tem a invejável capacidade de criar analogias para interpretar o mundo do vinho, viveu no Brasil por 12 anos - onde fez grandes amigos - e voltou a Portugal para se dedicar a seus vinhos.

Com seu senso de humor refinado, define-se como um português "que gosta mais do Brasil do que muitos brasileiros, visto ter morado aqui por opção, ao contrário de muitos brasileiros que aqui ficam por falta de opção"

Diálogo comum

O diálogo solto entre produtor e consumidor inicia com a certeza de que uma das grandes virtudes do vinho é sua diversidade, bem ilustrada por Paulo ao dizer "que comer bife com batata frita todo dia é bom, mas é chato". E que, mesmo sendo 100% Portugal em vinhos, seria pouco inteligente se não reconhecesse a qualidade que o cerca no mundo.

O importante - concluem produtor e enófilo - é identificar o melhor vinho para cada ocasião e, acima de tudo, reconhecer que as boas ocasiões e boas companhias realçam os vinhos que as acompanham. Com esse estímulo, Junior relembrou vividamente um Sauvignon Blanc simples, mas que ficou marcado em sua lembrança ao ser degustado acompanhado de ostras frescas, no reencontro com uma amiga de longa data.

Diferenças

Como grande parte dos enófilos, Junior compra e guarda seus vinhos para evoluir, mas sempre pensando em beber, não guardar troféus. Já a família Cunha possui duas quintas diversas, Quinta do São João e Quinta do Alqueve, que separadas por apenas um quilômetro em linha reta, apresentam terroirs com personalidades distintas.

A diferença entre as duas é efeito da diferença de solo - uma quinta conta com terreno mais arenoso e outra mais calcário - e pelo fato de uma ter maior influência da proximidade do rio. Aliás, dentro do reordenamento na vitivinicultura portuguesa após o estudo Porter, a região do Ribatejo recentemente mudou sua denominação para Tejo - com o objetivo de facilitar o reconhecimento de seus vinhos do mercado mundial. Além de mais fácil de falar, Tejo gera uma identificação imediata e profunda com seu mais importante rio - que nasce em Madrid e deságua em Lisboa - e que (a exemplo do Rhône, Loire e Douro) passa a identificar uma região.

O incremento da qualidade no Tejo foi conseguido pela mudança do foco da região, de quantidade para qualidade, com o replantio dos vinhedos, nos últimos 20 anos, com castas melhores e mais adequadas ao clima da região.

A Pinhal da Ponte foi, há 18 anos, a introdutora do cultivo da Touriga Nacional na região, e apesar de considerar as castas autóctones um patrimônio de Portugal, teve a coragem de elaborar o primeiro corte de Syrah e Touriga Nacional do país, em que os aromas florais da Touriga se unem como uma luva às características aromáticas do Syrah.

O mandamento número um da vitivinicultura é o fato de a qualidade das uvas ser essencial e, diante desta consideração, Paulo Cunha ressalta o papel da genialidade humana - argumentando que os mesmos ingredientes geram risotos diferentes na mão de distintos chefes.

Um dos grandes diferenciais nos vinhos das Quintas do Alqueve e São João (que compõem a Pinhal da Ponte), é a utilização da Pisa-a-Pé no processo produtivo, pois Paulo Cunha ressalta que não existe nada mais suave para fazer a remontagem do que o pé humano, estimulando o contato das cascas da uva com seu líquido e a extração da cor e outros componentes químicos.

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Semelhanças

Muito mais que uma ligação semântica, o Tejo, junto com o oceano, marca profundamente o clima da região, amenizando o calor e tornando a acidez uma das grandes características da personalidade de seus vinhos.

Podemos catalogar o equilíbrio entre boa acidez e maturação, e os taninos elegantes, como traços perseguidos e alcançadas por Paulo Cunha em seus vinhos. Estas características são o segredo para a boa capacidade de envelhecimento destes vinhos, que são lançados ao mercado somente alguns anos depois de sua colheita, quando a evolução em barrica e garrafa já demonstraram seu potencial.

O estilo dos vinhos do Pinhal da Ponte é um contraponto aos vinhos com forte presença de açúcar residual e álcool que agradam boa parte dos consumidores mundiais.

Harmonia

Os vinhos com maior acidez, degustados junto ao prato certo, acabam trazendo à tona o tema da harmonização e o importante papel dos restaurantes como templo urbano para o consumo de vinho de qualidade.

O desafio consiste, sim, em encontrar o equilíbrio entre preço e volume, evitando os preços absurdos, aliado à possibilidade de o consumidor levar seus próprios vinhos especiais ao restaurante mediante pagamento de taxa de rolha.

Comparações

A comparação inevitável entre o Tejo e o Douro, suas características e potenciais, foi trazida à tona por nosso leitor e Paulo Cunha explicou que o Douro conta com grandes castas portuguesas (já adaptadas ao terreno) e com vinhas velhas e de baixa produção.

Ele lembrou que o Tejo, apesar dos entusiasmantes resultados em seus vinhos, está apenas começando, ao passo que o Douro vem aperfeiçoando seus excelentes vinhos há séculos e abrindo mercado com os Vinhos do Porto, em todas as regiões do mundo.

Em defesa de sua nova região, Paulo disse que a Malbec francesa foi descobrir recentemente seu melhor terroir na Argentina. Portanto, ainda podese estar para descobrir qual a melhor casta para cada região portuguesa.

A conversa se estendeu com um questionamento de Junior sobre o papel das regiões, ao que Paulo Cunha rebate que podemos encarar a região como numa família grande, em que não dá para dizer que todo mundo seja "gente boa" apenas por fazer parte da família, mas que em boas famílias os indivíduos costumam sê-lo.

Chega o café e Júnior - que ao início do almoço se confessou não conhecedor de vinhos portugueses - ao final já se tornara fã e estava ávido por aumentar seu conhecimento sobre os fermentados deste belo país.

Estudo Porter
Em 1994, um estudo encomendado por Portugal ao maior especialista em estratégia competitiva do mundo, Michael Porter, identificou 10 setores prioritários no país, entre eles o do vinho. Após a pesquisa, foi proposto um reordenamento do setor vitivinícola e do país e - ao contrário de dezenas de bons estudos que nunca são colocados em prática - o chamado Estudo Porter é considerado por muitos a base do grande impulso alcançado pelo vinho português nos últimos 10 a 15 anos
Christian Burgos

Publicado em 3 de Setembro de 2009 às 11:33


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Artigo publicado nesta revista