Vinho e câncer Com quem está a verdade?

O que diz o INCa (agência francesa contra o câncer) sobre o estudo que relaciona o consumo de álcool com a doença e o que, realmente, diz a pesquisa em que ela se baseia


Trish Hughes

Recentemente, a imprensa do mundo todo repercutiu a entrevista do presidente do Institut National du Cancer (INCa) da França, Dr. Dominique Maraninchi. A ele são atribuídas afirmações como: “o consumo de álcool, especialmente vinho, deve ser desencorajado para todas as pessoas”; “pequenas quantidades de álcool são mais prejudiciais para a saúde”; “não existe uma dose de álcool definida como segura para saúde”.

Afirmações como estas, ditas por pessoa que ocupa função tão relevante no sistema de saúde de um país desenvolvido, são impactantes. O INCa da França produziu recentemente um documento oficial de 60 páginas intitulado “Alcool et risque de cancer” (Álcool e risco de câncer). No entanto, nesse documento, não há nenhuma dessas frases.

Nele, consta que a incidência de alguns tipos de cânceres tem relação direta com a quantidade de álcool ingerida e não sendo encontrada diferença significativa entre as bebidas. Refere ainda que, por isso, o consumo de bebidas alcoólicas deve ser desencorajado – e também por não existirem estudos consistentes que comprovem a redução do risco de doenças cardiovasculares pelo uso de álcool.

Esta pesquisa utiliza como referência para essa afirmação um estudo publicado em 1996. As centenas de estudos com alto nível de evidência científica produzidas desde então – e que demonstram a proteção cardiovascular pelo álcool, e em especial pelo vinho – foram desconsiderados. Na bibliografia desse documento também não constam dezenas de estudos que encontraram efeito protetor do vinho em relação às neoplasias (desenvolvimento de tumores).

Reações da comunidade científica

Essas são as principais críticas que se fazem a esse documento. Muitos cientistas que têm como área de interesse os efeitos do álcool na saúde se manifestaram sobre esta entrevista no mundo todo. Para citar alguns: Dr. Arthur Klatsky, Dr. Eric Rimm, Dr. Curtis Ellison, Dr. Michael S. Lauer, Drª. Susan M. Gapstur, Dr. Roger Corder, Dr. Luc Djoussé e Dr. Yuqing Zhang. De uma maneira geral, todos dizem que esta questão, ao contrário de outras, não está clara e necessita de mais estudos. Acham que não é correto tirar conclusões e dar orientações baseadas em apenas um estudo.

Poucos dias após a entrevista de Maraninchi, o Journal of the National Cancer Institute publicou um dos mais importantes estudos feitos sobre esse assunto. A pesquisa coordenada pela Drª Naomi E. Allen, da Unidade de Epidemiologia do Câncer da Universidade de Oxford ,avaliou 1.280.296 mulheres de meia idade do Reino Unido. Ela constatou que com uma ingestão média de 10 gramas por dia de álcool (o equivalente a 100 ml de vinho a 12,5% de álcool) havia uma incidência significativamente aumentada de câncer de laringe, boca, garganta, fígado, esôfago, mama e cólon, mas significativamente diminuída de câncer de rins, linfoma não-Hodgkin e de tireóide.

No entanto, quando se analisou separadamente as mulheres que bebiam preferentemente vinho, viu-se que, para os cânceres de laringe, boca, garganta, fígado e esôfago, houve apenas uma tendência, sem significância estatística. Já para o câncer de cólon houve uma tendência à proteção, mas também sem significância estatística.

Este estudo foi reconhecido pela comunidade científica como de grande valor, principalmente pelo tamanho da população estudada. Mas, não ficou livre de críticas. Os principais pontos levantados são: ter sido feito apenas com mulheres; ser regional; ter considerado a média semanal de consumo de álcool.

O padrão de consumo de álcool parece ser importante. Consumir 70 gramas de álcool em um único dia da semana deve ser diferente do que consumir 10 gramas diariamente. Os dados foram obtidos por entrevista e há uma tendência de as pessoas informarem um consumo menor que o real. Também não foram corrigidos os fatores de confusão. Por exemplo: o câncer de garganta só foi aumentado para as mulheres que também fumavam. Afinal, é o álcool ou o fumo o vilão?

Novos estudos reafirmam a proteção

Será publicado nos próximos dias um estudo feito na França, pelo Centro de Medicina Preventiva de Nancy – o COLOR (Cohorte Lorraine) Study. Nesse trabalho, 98.063 pessoas (homens e mulheres) de idade entre 45 e 60 anos foram observados por 21 a 28 anos. Os dados foram analisados por um modelo de regressão logística e corrigidos para 12 fatores de confusão. A saber: idade, instrução, pressão arterial, colesterolemia, glicemia, hábito de fumar, índice de massa corpórea, atividade física, consumo de refrigerante, consumo de água, consumo de vinho e consumo de outras bebidas de álcool.

A conclusão a que chegaram é de que as pessoas que tinham preferência por vinho apresentavam um baixo risco de morte prematura por todas as causas, especialmente por câncer digestivo.

Por fim, alguns dos componentes do vinho (resveratrol, quercitina, procianidina etc) têm mostrado um importante efeito anticancerígeno em pesquisas de laboratório. Há a expectativa de que esses efeitos ocorram in vivo.

Com quem está a razão?

Estes foram apenas alguns exemplos de estudos conflitantes recentemente realizados. O que faz desta, definitivamente, uma questão em aberto. Ainda serão necessários algum tempo e muitas pesquisas para termos a resposta clara e definitiva sobre a relação vinho e câncer. Esse tipo de investigação é muito difícil, porque envolve muitas variáveis e fatores de confusão. Fatores que podem ser ambientais e pessoais, pois a constituição gênica é única para cada indivíduo. Muito pouco, ou quase nada, sabemos da modulação gênica de todos os constituintes do vinho. É muito provável que pessoas diferentes respondam diferentemente à presença de uma mesma substância.

Ainda temos muito o que aprender. Nesse assunto, tirar conclusões definitivas e dar orientações baseadas em apenas um estudo é, no mínimo, uma insensatez. Vinho, bebido de maneira responsável, não é medicamento. Tão pouco veneno. Ele é muito adequando para valorizar uma comida, uma conversa, uma companhia, um momento... E, por isso, ele é saudável, mesmo sem ser remédio.

Jairo Monson De Souza Filho

Publicado em 28 de Abril de 2009 às 09:21


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