A Chardonnay de Coppo em Piemonte

Como a vinícola piemontesa Coppo criou brancos de Chardonnay longevos e revolucionou a Barbera

Arnaldo Grizzo Publicado em 10/03/2019, às 17h00 - Atualizado em 20/04/2019, às 15h53

Mesmo cheio de dedos, demonstrando respeito, Paolo Coppo, afirma: “É um vinho francês”, ao falar sobre seu Monteriolo, um dos Chardonnay mais cultuados da Itália. Apesar de ousar comparar seu estilo a um Meursault, ele reconhece que “a estrada ainda é muito longa”. “O nosso foco é a Borgonha, seu  modo de trabalhar. A codificação dos vinhedos e o conceito da Borgonha são únicos no mundo. Mas temos muito para aprender, então talvez o filho do meu filho começará a ver os benefícios do nosso investimento”, acredita.

Esse pensamento mostra um pouco da persistência da família Coppo, que hoje chega à sua quinta geração dedicada ao vinho no Piemonte. A história da vinícola familiar remonta aos fins dos anos 1900, com Piero Coppo, avô de Paolo, que fundou sua empresa em 1892 na vila de Canelli, em meio à região de Asti. Na época, a cidade era famosa pela produção dos “Moscato Champagne”. Esses foram os primeiros espumantes feitos na Itália com método copiado de Champagne (segunda fermentação em garrafa), porém elaborados com a uva Moscato, típica da região.

O pioneiro foi Carlo Gancia, que, por volta de 1850, teria trabalhado na casa Piper Heidsieck e, ao chegar a Canelli, tentou reproduzir o que havia aprendido na França. Apesar de suas primeiras tentativas terem sido com Moscato, logo ele partiu para Chardonnay (variedade já instalada na vizinhança) e Pinot Noir (cultivada principalmente em Oltrepò Pavese, que atualmente faz parte da Lombardia, mas que antes se chamava de Vecchio Piemonte – Velho Piemonte).

E foi com o espumante que Piero Coppo alavancou sua firma. Em 1913, ele casou-se com Clelia Pennone, herdeira da vinícola Pio Pennone, uma das mais conceituadas na época. Dessa união surgiu uma das empresas de maior prestígio do norte da Itália. A importância do espumante era tamanha que, na década de 1920, Piero comissionou o escultor Giacomo Manzoni para criar um símbolo para seus vinhos. Daí nasceu o cupido segurando a garrafa e, sob seu pé, o mote da família: Robur et salus (força e saúde).

Coppo foi fundada em 1892, em Canelli, onde foram produzidos os primeiros espumantes de método tradicional da Itália

Da França

A marca Coppo se tornaria mundialmente famosa graças ao espumante, mas também ao Moscato e à Barbera, variedades típicas da região. No entanto, em 1948, uma inundação do rio Belbo destruiu por completo a vinícola da família no centro de Canelli. Luigi, filho de Piero, assumiu a empresa e começou a reconstrução. Ao mesmo tempo, iniciou a importação de vinhos franceses para a Itália, especialmente de Champagne e da Borgonha, seus preferidos.

Coppo foi responsável por tirar a Barbera do ostracismo e criar um dos seus principais ícones, o Pomorosso, em 1984

 “Nossa cultura nasceu com grandes Champagne e Borgonha”, lembra Paolo Coppo, representante da terceira geração da família, que, juntamente com seus irmãos Gianni, Piero e Roberto, ajudou a criar uma nova vertente na história da Coppo. Degustando grandes vinhos franceses e experimentando com novas técnicas, eles passaram a uma nova fase na vinícola, buscando recriar no Piemonte o que provavam do país vizinho. “Não tenho que ter medo dos concorrentes. Os que produzem bem devem me dar um estímulo, não paura”, conta Paolo.

Assim, nos anos 1980, eles foram responsáveis por tirar a Barbera do ostracismo e criar com essa variedade, até então subestimada, um dos seus principais ícones, o Pomorosso, em 1984. Até então, Barbera era visto como um vinho simples. “Dois produtores são referência nessa transformação do Barbera: nós, com Pomorosso, e Giacomo Bologna, com Bricco dell’uccellone, em 1982. Depois disso, houve uma possibilidade extraordinária. Barbera é uma vinha exotérica, pode-se fazer um Barbera imediato, fresco, de aperitivo, pode-se fazer um Barbera frisante, e pode-se chegar ao Pomorosso, que tem uma grande estrutura, potência; e mostrou todo o potencial da variedade”, acredita Paolo. Seu Pomorosso (ou maçã vermelha – o nome se deve à presença de uma macieira que ficava no cume da vinha original) só é produzido em safras consideradas excepcionais, de parcelas minuciosamente escolhidas dentro de três vinhedos distintos.

Nos anos seguintes, diversos produtores chegaram a baixar o rendimento das vinhas de Barbera, acreditando que assim atingiriam o mesmo patamar do Pomorosso em seus vinhos. “Foi um erro tremendo. Na Barbera, quanto mais se produz, mais se cria acidez, tem-se menos cor, menos estrutura. Mas o declínio da produção por hectare foi uma estupidez enorme, porque a vinha tem um equilíbrio. Deve-se chegar a um ponto preciso. Não é verdade que quanto menos se produzir, melhor. O equilíbrio deve ser justo. Com rendimento muito baixo, só se traz estresse à planta e vinho com concentração demasiada e sem elegância”, atesta Coppo, que brinca: “Meu pai dizia que, no Piemonte, para fazer vinho ruim, é preciso se empenhar, tem que querer fazer ruim, pois temos uma terra extraordinária”.


Monteriolo é produzido somente com uma única parcela de um mesmo vinhedo, selecionada entre três possíveis localidades

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Napoleão e Meursault

Ainda em 1984, no mesmo ano em que nasceu Pomorosso, os Coppo decidiram também criar um Chardonnay de inspiração borgonhesa. À primeira vista, poderia parecer um contrassenso, no entanto, a presença e a boa fama dessa casta francesa na região já vinha, pelo menos, desde meados o começo do século XIX. Naquela época, durante a dominação francesa na Itália por parte do exército de Napoleão, o conde de San Marzano e Costigliole, Filippo Asinari, caiu nas graças de Bonaparte, que chegou a convidá-lo para ser embaixador em Berlim. Além de hábil político, Asinari mostrou-se interessado em viticultura e acredita-se que ele teria plantado mudas vindas de Montrachet na região de Asti. E elas se adaptaram bem ao solo calcário-argiloso local.

Em 1984, mesmo ano em que nasceu Pomorosso, os Coppo decidiram criar um Chardonnay de inspiração borgonhesa

Assim, eles criaram o Monteriolo. O nome deriva de uma pequena estrada que sai da vinícola e vai até a colina de vinhedos, trajeto que os pais de Paolo costumavam fazer. Na época, o vinho já era pensado para envelhecer por longo tempo e era feito com uvas de dois vinhedos. Hoje, com um conceito cada vez mais próximo da Borgonha, o rótulo é produzido somente com uma única parcela de um mesmo vinhedo, selecionada entre três possíveis localidades com exposições diferentes, e muito menos madeira.

“Foi tudo uma experimentação. No começo utilizava-se muita madeira nova, porque não sabíamos. Mas, de certo modo, foi bom. Houve modificações com o passar dos anos. A última foi o fato de haver três vinhas em posições diversas, o que nos permite manter um perfil, mesmo com as variações de clima”, atesta Paolo.

Orgulhoso de seu vinho, ele recorda um fato interessante que ocorreu há 10 anos: “O dono de uma grande enoteca de Roma é amigo de produtores importantes da Borgonha. Um dia me ligou e disse: ‘Fui para a Borgonha e o único vinho branco que encontrei em alguns produtores foi o seu Monteriolo’”.

Paolo Coppo acredita que o Piemonte e a Borgonha têm muito em comum. “Todos os vinhedos são uma história, todos os vinhos são uma história. Na mesma colina, na direita, é um vinho, na esquerda, outro. Essa é a grandeza do Piemonte. Quando se chega ao Piemonte, chega-se à universidade. É um outro mundo. Aqui e na Borgonha”, aponta.

Sua ressalva, contudo, é que, para se pensar em um verdadeiro conceito de terroir, os produtores piemonteses precisam se adequar a certos protocolos de vitivinicultura. Desde 2001, os Coppo aderiram ao que o governo italiano denominou como agricultura integrada, com práticas de baixo impacto ambiental. “Não usamos mais nenhum tipo de produto químico ou pesticida. É uma cultura natural integrada, como fazia meu avô. Tudo o que um bom camponês deveria fazer na sua terra”, diz Paolo, que, apesar de utilizar técnicas biodinâmicas, não se mostra um “xiita”.


As caves subterrâneas da Coppo são consideradas patrimônio mundial

Sem sulfitos

Se nos anos 1980 a família Coppo ousou ao apostar na Barbera e em brancos longevos de inspiração borgonhesa, hoje eles continuam pensando em novidades. Recentemente, passaram a integrar um grupo de vinícolas ao redor do mundo que colaboram com um projeto comandado pelo enólogo Ricardo Cotarella, chamado Wine Research Team. Esse time de empresas quer produzir vinhos sem sulfitos adicionados. Com isso, querem interpretar e expressar os terroir e ainda evitar possíveis problemas de conservação. “São uvas extremamente sãs, colhidas em caixas pequenas de 8 a 10 quilos, que devem ser perfeitas no aspecto de limpeza. As uvas permanecem no frio e, em seguida, são prensadas depois de 12/18 horas”, explica Paolo. O novo rótulo, feito com essa filosofia, é chamado de Cascina Gavelli, produzido com Barbera. Coppo aproveita e brinca: “Não pergunte quanto tempo pode durar esse vinho. Daqui 10 anos poderei dizer algo”.

Uma das empresas mais tradicionais do Piemonte, a Coppo se orgulha em ter construído sua fama em torno das uvas menos badaladas da região. Ainda assim, a vinícola, mesmo estando na região de Asti, produz um Barolo. “Produzimos porque meu avô produzia. Paramos nos anos 1980, mas fomos umas das poucas vinícolas a ter autorização para produzir Barolo fora da região de Barolo. Só três ou quatro podem fazer isso, pois temos um histórico. É um decreto”, conta Paolo, que celebra: “Tivemos a sorte de nascer na área vitivinícola mais importante da Itália”.

Patrimônio

Em 2014, a UNESCO reconheceu as caves subterrâneas de Canelli, escavadas à mão no século XIX, conhecidas como “Catedrais subterrâneas”, como Patrimônio Mundial. Entre as caves reconhecidas estão as da Coppo, com 5 mil metros quadrados que chegam a 40 metros abaixo do solo.

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