Análise do mercado e previsões


Todo período de transição para um novo ciclo é tempo de avaliar e planejar. E para planejar precisamos analisar o passado e tentar prever o rumo dos acontecimentos. Esta edição de Enobusiness será dedicada à análise do mercado de vinhos importados em 2007 e ao exercício da análise de alguns acontecimentos que podem afetar o preço do vinho que você aprecia.

O mercado de vinhos importados em 2007
por Adão Morellatto

O volume total de vinhos importados em 2007, contabilizando os três segmentos pesquisados (vinho, espumante e champagne), foi de uS$ 174.633.478,00, com crescimento de 25,23% sobre 2006 e de 19,38%, em volume. Tendo um consumo per capita da ordem de 0,322 ml.

Os principais players deste mercado manifestaram-se desta forma:

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CHILE - Mantém sua hegemonia desde 2002, com Market Share de 27,48% e Value Share de 31,11% em volume, com crescimento de 30,09%.
ARGENTINA - Consolida sua posição de segundo maior exportador com Market Share de 26,67%, Value Share de 21,58% e crescimento de 40,18%.
ITÁLIA - Reage de maneira surpreendente em 2007, observando que o segmento de espumantes (leia-se Prosecco) participa com 16,05%, conseguindo a terceira posição, com Market Share de 17,21% e Value Share de 15,17%. Cresceu 29,59%.
FRANÇA - A Contabilizando seu setor de Champagnes, que representa 39,25% de sua exportação, com Market Share de 6,29% e Value Share de 14,67%, totalmente justificável pelo alto preço do Champagne, algo como uS$ 17,56 por garrafa de 750 ml. Crescimento de 40,40%.
PORTUGAL - briga acirrada com França e Itália pela terceira posição, com Market Share de 11,03% e Value Share de 13,61%. Cresceu 24,69% sobre 2006.
ESPANHA - Menor crescimento observado entre os principais exportadores, apenas 5,05%, sendo um dos vinhos europeus mais caros importados pelo brasil, sua participação foi de 1,93 % em Market Share e Value Share de 3,26%. Estes seis países representam 90,61% em Market Share e 99,40% em Value Share.
URUGUAI - Crescimento espetacular de 117,56% em relação a 2006. Seu Market Share é de 2,00% e Value Share de 4,16%.
AUSTRÁLIA - Cresce acima da média, com 49,42%, Market Share de 1,01% e Value Share de 0,63%.
ÁFRICA DO SUL - D epois de anos de crescimento, houve uma ligeira queda na exportação, observada no crescimento de apenas 13,42%. Seu Market Share foi de 0,84% e Value Market de 0,67%.
ALEMANHA - Menor crescimento dos países europeus, com meros 2,09%. Market Share e Value Share de 0,41%.
NOVA ZELÂNDIA - D epois do Uruguai, é o exportador que mais se destaca em 2007, com 63,65% de aumento, Market Share de 0,08% e Value Share de 0,27%. Também é preciso destacar que são atualmente os vinhos mais caros importados pelo Brasil, com média de US$ 7,01 por garrafa.
ESTADOS UNIDOS - Único exportador com queda em valor de -6,37%, e participação de apenas 0,21% em Market Value e 0,14% em Market Share.

Em um simples comparativo deste mercado em relação a 2000, verificamos um impressionante crescimento de 140,27 % em valor e 96,72% em volume. Os volumes praticamente dobraram, tendo os valores crescido substancialmente.

Previsões de ADEGA
por Christian Burgos

Ao final de todo ano somos submetidos a um infindável número de previsões, algumas 100% certeiras, outras matreiras. Na minha opinião, as mais interessantes foram:

- O São Paulo Futebol Clube conquistará um título importante;
- Um grande escândalo político chocará o Brasil. Arrisco aqui minha previsão certeira:
- Pagaremos mais impostos.

Ou, mais ao estilo Nostradamus:
- Em 2008, o Leão está com sede. Usualmente pensamos nisto apenas em nossa vida profissional, mas neste ano poderá afetar muito nosso prazer de beber vinho. Algumas importantes alterações tributárias rondam nossos bolsos. No estado de São Paulo, o governo está implementando o regime de substituição tributária ao ICMS de bebidas alcoólicas. Uma confusão ronda o tema que seria implementado em 1º de Janeiro, mas, a pedido da FIESP, foi prorrogado para 1º de fevereiro, ainda envolto em dúvidas.

As análises preliminares levam a crer que se implementado em seu formato atual, fará você pagar mais caro os vinhos no estado de São Paulo, tanto nas lojas quanto nos restaurantes e bares. No meu ponto de vista, o mecanismo de substituição tributária é uma prerrogativa de que se vale o Estado para arrecadar impostos na fonte geradora, antecipando a receita, facilitando o controle e tributação e impedindo a evasão fiscal. São todos objetivos nobres que tencionam a eficiência do Estado, mas absolutamente danosos quando implementados de maneira equivocada.

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b S K/Stock.XchngAs razões a temer tal iniciativa residem em dois pontos:
- Para que o regime de substituição tributária tenha efeito, o Estado precisa arbitrar o mark up aplicado ao produto nas lojas ou restaurantes, penalizando os estabelecimentos que aplicam margens mais baixas do que as arbitradas. - A legislação poderá tratar o vinho dentro das mesmas regras das demais bebidas alcoólicas, excetuando-se a cerveja, que tem a característica de utilizar margens mais altas do que as aplicadas ao vinho, podendo encarecer o produto como um todo.

As primeiras informações apontavam para um mark up arbitrado de 128%, quando nossos levantamentos indicam a prática de mark up de 40 a 80% no mercado paulista. Isso beneficia o Estado e os estabelecimentos que praticam margens estratosféricas.

Porém, as novidades no campo tributário não se restringem ao Estado de São Paulo. Em âmbito federal, o consumidor de vinho pode ser vítima do pacote “de maldades” tributárias do governo federal para compensar a extinção da CPMF.

Aí temos duas medidas que afetarão os vinhos importados. O IPI sobre o vinho importado é cobrado no sistema quilograma/ litro, de forma que uma garrafa de vinho paga uma taxa fixa de IPI. No pacote, o IPI sofrerá um reajuste, encarecendo o custo do vinho. Em consulta ao mercado, constatamos que este valor não tem incremento há alguns anos e concordamos que um reajuste baseado na taxa de inflação seria justo.

uma segunda medida é a mudança do sistema de cobrança do imposto de importação sobre o vinho de ad valorem (ou percentual sobre valor) para quilograma litro. O problema reside no fato de que a taxa pode chegar a estratosféricos R$ 7,50 por garrafa de vinho. Se aplicado a seu máximo, tornará irremediavelmente caros os vinhos importados que custem até R$ 30,00, condenando à extinção este segmento da indústria e sacrificando a possibilidade do consumidor brasileiro ter acesso aos vinhos mais acessíveis dos diversos terroirs do mundo.

A medida publicada no fim do ano passado foi suspensa por manifestação do Ministério das Relações Exteriores porque contrariava os acordos do Mercosul.

A análise total mostra que a medida beneficiaria os vinhos importados acima de 40 dólares e a indústria nacional de vinhos mais acessíveis.

A indústria vitivinícola nacional tem sofrido fortemente com a competitividade dos produtos importados, o que é agravado pelo Real valorizado. Isso merece nosso apoio, mas o mecanismo utilizado pelo governo federal não foi estabelecido imbuído de boas intenções e carrega efeitos maléficos. O pior de todos é a desproporcionalidade da aplicação: quanto mais acessível o vinho ao consumidor brasileiro, mais afetado ele será em seu preço.

AdEgA não tem preferência por determinado vinho, procedência ou rótulo, como você leitor pode perceber em nossas páginas dedicadas ao terroir brasileiro e no resultado de nossas degustações às cegas. Nosso objetivo é que você, leitor, possa tomar vinhos cada vez melhores pagando menos.

Lutemos para que a competitividade da indústria nacional se dê através de ações benéficas ao produtor brasileiro sem prejudicar, porém, o consumidor de vinho. Mais impostos nunca é bom.

O ano de 2007 foi maravilhoso para a cultura do vinho no brasil e sei que o vinho nos fará ainda mais felizes em 2008, mas receio dizer que minha previsão já nasce certa: a cada gole de vinho, pagaremos mais impostos. Convido os leitores a se manifestarem em relação ao assunto com sua opinião, ajudando a esclarecer os impactos e acompanhando o andamento destes temas.

Christian Burgos E Adão Morellatto

Publicado em 7 de Fevereiro de 2008 às 10:27


Enobusiness

Artigo publicado nesta revista