Produção de vinho

Como funciona a viticultura de precisão?

Robôs, sensores, drones... como a viticultura de precisão afeta a “essência” do vinho


Essas tecnologias estão mudando a viticultura e ajudam a maximizar o potencial produtivo e de qualidade do vinho

Hoje é cada vez mais comum vermos máquinas de seleção, robôs de colheita, sensores climáticos, drones e outras tantas tecnologias em vinícolas de todo o planeta. Estaria, com isso, o mundo do vinho perdendo sua “essência”? Em um momento em que todos valorizam o mote da “mínima intervenção” estaria a viticultura de precisão indo no sentido contrário?

Primeiramente, vamos tentar entender o que se compreende por viticultura de precisão. Agricultura de precisão (a viticultura é um ramo, obviamente) é um termo que descreve um conjunto de práticas e tecnologias que visam otimizar o desempenho de uma plantação. Diz-se que a viticultura de precisão ajuda o produtor a entender melhor o seu vinhedo e alcançar o seu objetivo, que pode ser desde atingir um certo nível de qualidade nas uvas, passando por determinado rendimento e até mesmo um preço específico.

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Quando se fala em viticultura de precisão entende-se que o vinhedo, mesmo quando pequeno, representa um universo, um conjunto de microparcelas, ou mesmo uma singularidade de videiras. E, para analisar todas essas singularidades, podem ser empregadas diversas técnicas e tecnologias. Falamos então de geolocalização, sensoriamento remoto, análise por satélite, diversos tipos de sensores (térmicos, óticos, eletromagnéticos etc.), monitoramento de solo, de colheita, de rendimento, de clima, de maturação, de pragas etc.

Isso tudo somente em se tratando da parte agrícola e não propriamente enológica. No entanto, com tantas tecnologias atualmente, podemos extrapolar e também falar de enologia de precisão ligada à viticultura de precisão, com máquinas de seleção, tanques de temperatura controlada, controle de leveduras, macerações e outras tantas técnicas que tornam o vinho muito “preciso”. Isso graças à “revolução tecnológica” que vem sendo cada vez mais implementada na vitivinicultura.

“A tecnologia desde o final dos anos 1970 percorreu um longo caminho. Atualmente temos uma adega de última geração com aprimoramentos, como tanques de fermentação menores que são conectados sem fio para dar ênfase à enologia de precisão. Agora podemos monitorar e ajustar o vinho de praticamente qualquer lugar (com uma conexão sem fio, é claro). Muita coisa mudou à medida que novas tecnologias evoluíram. Mas, no fim das contas, a tecnologia não pode substituir o sentimento e a intuição”, afirma Bo Barrett, enólogo do Chateau Montelena, nos Estados Unidos.

As técnicas

 

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Robôs e drones nos vinhedos, uma visão cada vez mais comum na vitivinicultura mundial em que análises em tempo real são, muitas vezes, cruciais

Não é de hoje que ouvimos falar sobre tanques de fermentação com temperatura controlada, adegas feitas com sistema gravitacional, leveduras selecionadas, sistemas de prensagem mecanizados etc., mas, nos últimos anos, cada vez mais, temos visto e ouvido produtores falar sobre monitoramento do ciclo vegetativo por satélite, análises geotermais e afins; sistemas de gerenciamento de solo, microclima e morfologia.

“A viticultura de precisão visa a maximização do potencial agronômico em termos de produtividade e qualidade das produções, ao mesmo tempo em que aumenta sua sustentabilidade ambiental. Por exemplo, a viticultura de precisão aprimora a capacidade de ajustar as de cisões de manejo de nutrientes e desenvolve um plano específico do local para cada vinhedo e até mesmo para a única videira. Portanto, é possível evitar tratamentos desnecessários, que podem ser prejudiciais e poluidores, e reduzir custos. Como primeiro passo, a heterogeneidade em uma cultura deve ser identificada e então monitorada. Isso pode ser feito com várias tecnologias, como tecnologias de sensoriamento remoto (de satélite ou drones) ou monitoramento proximal, como estações meteorológicas microclimáticas ou outros sensores implantados no campo”, afirma o especialista Alessandro Matese, do Conselho Nacional de Pesquisa Italiano e do Instituto de Biometeorologia IBIMET.

Ele explica que, atualmente, sistemas óticos terrestres, câmeras para monitoramento de temperatura, sensores infravermelhos e outros vários sensores podem ser usados para coletar dados, fornecendo informações detalhadas para caracterizar a variabilidade de uma parcela até a escala de uma única planta. “Existem muitos tipos diferentes de máquinas. Por exemplo, máquinas de colheita de taxa variável estão disponíveis agora, permitindo uma colheita seletiva por classes de qualidade da uva. Na França, foi desenvolvido um trator de poda que permite uma poda seletiva em função da biomassa verde de cada planta”, aponta Matese.

Veículos Aéreos Não Tripulados (UAV a sigla americana), muitas vezes chamados de drones, são cada vez mais comuns para esse tipo de análise da viticultura de precisão, pois possibilitam um monitoramento bastante flexível em tempo reduzido já que podem ser equipados com uma série de sensores, que permitem ampla gama de operações. Mas “as aplicações de sensoriamento remoto em viticultura de precisão são focadas principalmente na espectroscopia de refletância, uma técnica óptica baseada na medição de refletância da radiação eletromagnética incidente em diferentes comprimentos de onda, em particular na região visível, próximo do infravermelho e infravermelhos térmicos. A relação entre a intensidade do fluxo radiante refletido e incidente é específica para cada tipo de superfície. As classes mais comuns de sensores são capazes de detectar uma alteração da transpiração ou atividade fotossintética na superfície da folha”, diz Matese.

Com isso, os sensores térmicos são usados para medir remotamente a temperatura da folha, que aumenta quando ocorrem condições de estresse hídrico, por exemplo. Alterações na atividade fotossintética estão ligadas ao estado nutricional, à saúde e ao vigor das plantas, e também podem ser detectadas por sensores. Dessa forma, imagens aéreas são frequentemente usadas para estimar padrões na biomassa e na produção. 

Um vinho melhor?

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“A capacidade de entender qual é o estilo é primária, mas a capacidade de ajustar o plano para capturar os compostos delicados de aroma e sabor requer previsão, instinto, compreensão técnica e experiência

Todas as técnicas e tecnologias estão à disposição de produtores do mundo todo e, cada vez mais, com custos menores, o que possibilita a todos uma atuação mais rápida e direta em seus vinhedos quando percebem algo pode estar errado. Mas seria isso capaz de criar um vinho melhor?

“Na produção de vinho, como na ‘escultura’, a cada decisão, você perde algo que não ganhará de volta. Entender o que está sendo perdido me leva à minha abordagem ativa de vinificação, à vinificação de ‘precisão’. Mas um dos ingredientes é a adaptabilidade. Como não há duas pedras iguais, não há duas uvas ou colheitas iguais. Toda safra traz características e ferramentas únicas que funcionaram em safras anteriores, mas podem não funcionar em outras. Por isso, não acredito na fórmula de vinificação ou no adágio de ‘melhor’ na produção de vinho. Por exemplo, não existe o ‘melhor’ barril, mas existe o barril mais adequado para esse estilo em particular. Além disso, o momento da mudança é crítico, quanto mais tarde a mudança, menos impactante será. A capacidade de entender qual é o estilo é primária, mas a capacidade de ajustar o plano para capturar os compostos delicados de aroma e sabor requer previsão, instinto, compreensão técnica e experiência”, afirma o enólogo Marbue Marke, da Oceano Wines.

“Uma tecnologia produz um vinho melhor ou não? Quem sabe? Sua capacidade de interpretar as informações e mobilizar recursos para reagir a essas informações é equivalente. Se suas metas forem definidas, e você entender as expectativas e os possíveis resultados, então é sua responsabilidade determinar se as diferenças se traduzem em um vinho melhor”, resume Chik Brenneman, gerente de vinicultura e instalações da Universidade da Califórnia, em Davis.

Mas não pense que a “viticultura de precisão” se restringe aos países mais avançados do Novo Mundo. Não há grande château de Bordeaux, por exemplo, que não tenha seus vinhedos 100% mapeados e divididos em microparcelas identificadas em estudos de solo e morfologia. Em Champagne, cada vez mais as principais casas estão vinificando cada pedaço de parcela em tanques separados para criar cuvées específicas. Portanto, a questão talvez não seja se tecnologia é amiga ou inimiga do vinho, mas o quanto os produtores podem se beneficiar com ela e entender o potencial que a natureza lhes oferece.

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Arnaldo Grizzo

Publicado em 11 de Novembro de 2019 às 13:00


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