As fontes do "Jardim da França"

A enogastronomia com os vinhos do Loire é uma viagem sensorial a um pedaço abençoado da terra


As ostras frescas harmonizam muito bem com vinhos da região, como “Vouvray Séc” ou “Muscadet”

Não é apenas pela proximidade com a capital francesa que os vinhos do Loire fazem tanto sucesso nos seus inúmeros bistrots, mas os parisienses amam acompanhar a gastronomia típica nacional com estes vinhos briosos. Deveríamos fazer o mesmo, mas infelizmente as exportações dos bons vinhos da região são muito restritas, resultado do baixo estímulo de demanda junto aos importadores. Fica aqui então a sugestão para quem tiver acesso de apreciar um Vouvray effervescent como aperitivo, com uma leveza e um frescor que escancaram o apetite, um “Vouvray Séc”, um teso “Cheverny” ou um estridente “Muscadet” com ostras frescas, e um “Anjou Sec Tendre” (branco com leve açúcar residual), ou um “St-Nicolasde- Bourgueil Rosé”, com os temidos aspargos frescos. Um “Escalope de Foie Gras Poêlé” se funde com um “Coteaux de L’Aubance” ou um “Coteaux du Layon”, espetaculares versões doces da Chenin Blanc, melhor se for proveniente das subzonas de Bonnezeaux e Quarts de Chaume. Estes néctares com profundos aromas a mel e maçãs desidratadas também se aconchegam a um queijo tipo bleu, salgado e com veios azuis. Falando em queijos, nenhum vinho me parece mais perfeito para um queijo de cabra mais seco, no estilo de um Crottin de Chavignol, do que um branco das regiões de clima mais continental como Sancerre ou Pouilly Fumé, este mais mineral, aquele mais cheio e sabendo a groselhas de espinho, mas ambos epítomes pungentes da Sauvignon Blanc.

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Os peixes de água doce, não somente as carpas, lúcios e luciopercas do Loire, mas de modo geral, sobretudo napeados com molhos cremosos, encontram enorme respaldo nos duradouros Savennières à base de Chenin Blanc, bem como nos Montlouis e Vouvrays, também originários da versátil Chenin.

Quando chegamos nos tintos, fico imaginando porque o mundo prefere se inebriar com um copo de um bombástico Cabernet Sauvignon de 14 ou 15º de álcool sem nenhuma referência de origem do que se deliciar com uma garrafa cheia de caráter regional e fruta pulsante com uma refeição saborosa e familiar. Os tintos do Loire, assentados sobre a Breton (nome local da Cabernet Franc), na região de Touraine, e sobre a Pinot Noir, no Loire Central, apresentam um amplo leque de possibilidades à mesa, de peixes de água doce, terrines, aves, vitela, rins e ris-de-veau, a queijos de cabra frescos e queijos de leite de vaca de massa mole não-cozida, como um Reblochon. Um Chinon de um bom produtor, envelhecido, chega a dialogar com um civet de lebre ou com um pombo recheado com foie gras.

Sempre que bebo um vinho do Loire, me sinto próximo do que prezo cada vez mais no mundo do vinho: a sublimação da enogastronomia e a viagem sensorial a um pedaço abençoado de terra.

Guilherme Corrêa

Publicado em 9 de Março de 2007 às 13:49


Harmonização

Artigo publicado nesta revista