Grandes degustações

Bons vinhos de Grenache

Antes utilizada quase exclusivamente na composição de blends, a Garnacha mostra sua vocação também na produção de varietais. Atenta a essa tendência, ADEGA colocou alguns deles à prova


 

 

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Uma das coisas mais maravilhosas ao degustar vinhos é a surpresa e o sabor da descoberta. Após milhares de vinhos degustados, vamos nos tornando mais exigentes e a surpresa é cada vez mais difícil. Veja bem, uma coisa é nos encantarmos a cada garrafa (o que certamente faz parte do nosso dia-a-dia como apaixonados por vinho), a outra é nos surpreendermos; uma sensação quase ingênua atrelada à descoberta, uma capacidade, que como na vida, nos avassala quando crianças, e que vamos perdendo à medida que ganhamos experiência. A fim de revivermos essa sensação com amigos tão entusiasmados quanto nós, reunimo-nos para explorar uma das castas mais cultivadas no planeta: a Grenache – ou Garnacha, como é conhecida na Espanha.

 

AD 90 pontos - Ótimo
LA GARNACHA SALVAGE DEL MONCAYO 2009
Vintae, Ribeira del Queiles, Espanha. Tinto feito exclusivamente a partir de uvas Garnacha de vinhas velhas, com estágio de cinco meses em barricas. Apresenta cor vermelho-rubi e aromas de frutas vermelhas frescas lembrando framboesas e cerejas, bem como cativantes notas florais, de especiarias doces e de tabaco. No palato, confirma a fruta do nariz, tem taninos macios, médio corpo e final de boa persistência. A ótima acidez aporta vitalidade e frescor ao conjunto. Um Garnacha mais frutado, muito agradável de beber, indicado para acompanhar carnes vermelhas grelhadas. EM

A casta – que ainda leva o nome de Cannonau na Sardenha – é provavelmente oriunda do nordeste da província de Aragón, se espalhando, através da colonização extensiva ao sul dos Pirineus, até Roussillon, que foi governado pelo reino aragonês até meados de 1660. A partir daí, a cepa fez seu caminho até o sul do Rhône, onde se consolidou durante o século XIX. Ainda hoje, a França tem a maior área plantada de Grenache, perto de 100 mil hectares.

AD 93 pontos - Excelente
ZERBEROS FINCA 2006
Finca Zerberos, Castilla y Léon, Espanha. Defensor do biodinamismo, o enólogo Daniel Ramos decidiu iniciar seu projeto solo e escolheu a região de Cebreros para elaborar este tinto de pequena produção, exclusivamente a partir de uvas Garnacha de vinhas velhas, com estágio de 12 meses em barricas. Apresenta cor vermelho-rubi e aromas de frutas vermelhas frescas entremeadas por notas minerais e florais, além de toques de couro e de tabaco, que foram aparecendo lentamente após algum tempo na taça. Em boca, mostra-se frutado, muito equilibrado e com ótima acidez e taninos macios, mas intensos, e final longo e profundo, quase salino. Sem dúvida um grande vinho. Deve ir bem na companhia de carré de cordeiro grelhado ao molho de ervas. EM

Até algum tempo atrás, ela era considerada uma uva muito alcoólica, cujos vinhos não envelheciam bem e era mais útil na composição de blends. Hoje, porém, a variedade está em voga e muitos são os varietais de alta gama produzidos. Tanto é assim que, em 24 de setembro de 2010, foi instituído o “International Grenache Day”.

AD 91 pontos - Excelente
SECASTILLA 2007 
Viñas del Vero, Somontano, Espanha. A vinícola possui cerca de 40 hectares no extremo noroeste de Somontano, área reconhecida como ideal para o cultivo da Garnacha e pelas videiras de idade avançada. Tinto elaborado exclusivamente a partir de Garnacha de vinhedos antigos que foram recuperados pela Viñas del Vero, com estágio de 12 meses em barricas. Apresenta cor vermelho-rubi e aromas de frutas vermelhas e negras maduras, quase em compota, bem como notas florais, minerais e de ervas secas, além de toques de tabaco e de alcaçuz. No palato, reflete a nota mais compotada do nariz, com taninos finos e mais pronunciados, mas vivo e equilibrado devido à ótima acidez. Untuoso e suculento, tem final persistente. Excelente para as carnes de caça ensopadas. EM

Descobrimos que explorar novos territórios gerou ainda o benefício de libertar nossos convidados do padrão reverencial, no que se tornou uma das mais interativas degustações especiais que tivemos junto aos empresários Alberto Lenz, Luciana Machado, Victor Hugo Ferreira, Rogério Garrubo, Marcelo Semeone e Gabriel Zipman, além dos executivos Marcelo Tabacchi, Irecê Andrade e Simone Nagai e da publicitária Maria Helena Tabacchi.

AD 92 pontos - Excelente
COLECCIÓN VIVANCO PARCELAS DE GARNACHA 2007 
Dinastia Vivanco, Rioja, Espanha. Fundada em 1915, a vinícola elabora este tinto exclusivamente a partir de Garnacha dos vinhedos Zorraquín e El Recuenco, com fermentação em barris de carvalho e posterior estágio em barricas 90% francesas e 10% americanas. Apresenta intensa cor vermelho-rubi e aromas de frutas negras lembrando ameixas e cerejas, bem como notas florais, minerais e de especiarias doces, além de toques de alcaçuz e de tabaco. No palato, é frutado, intenso, encorpado, equilibrado, tem ótima acidez, taninos finos e final longo e profundo, com um lado herbáceo que aporta frescor ao conjunto. Exibe perfeita harmonia entre potência e elegância. Para as carnes vermelhas mais gordurosas grelhadas. EM

Degustação

Iniciamos a degustação com um varietal de Ribera del Queiles, Aragón, na Espanha. As notas florais, boa acidez, taninos finos e macios do La Garnacha Salvage del Moncayo 2009 cativaram Luciana Machado, que o definiu como “um vinho redondo”. Irecê Andrade, por sua vez, ressaltou seu frescor.

AD 93 pontos - Excelente
CLARENDON HILLS ROMAS 2007
Clarendon Hills, McLaren Valley, Austrália. Fundada em 1990 por Roman Bratasiuk, a vinícola tem por princípio elaborar somente vinhos de vinhedos únicos, como este tinto de Grenache da seleção da parte superior do vinhedo Blewitt Springs, plantado em 1925, com estágio de 18 meses em barricas. Apresenta cor vermelho-rubi e aromas de frutas negras maduras lembrando cassis e cerejas negras, bem como exuberantes notas florais e de especiarias doces, além de toques de ervas como o tomilho. Em boca, confirma as frutas presentes no nariz, mostrando taninos doces, muita concentração, intensidade e suculência, tudo permeado por ótima acidez, terminando num final longo e persistente. Feito para ser grande. Experimente com queijos curados. EM

Em seguida, o grupo se deparou com um rótulo produzido em Castilla y Léon, também na Espanha. O biodinâmico Zerberos Finca 2006 foi, de fato, um dos preferidos. O tinto agradou em cheio o paladar exigente de Alberto Lenz, que destacou sua grande personalidade e excelente persistência. Marcelo Semeone, por sua vez, ressaltou sua evolução na taça, enquanto Gabriel Zipman afirmou categoricamente: “Pretendo reencontrá-lo muitas vezes”.

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A casta é provavelmente oriunda do nordeste da província de Aragón, se espalhando, através da colonização extensiva ao sul dos Pirineus, até Roussillon

O terceiro tinto escolhido também foi espanhol, porém da região de Somontano. O Secastilla 2007 esteve entre os vinhos que mais agradou Rogério Garrubo, devido ao seu equilíbrio e sua fruta de ótima qualidade. Além disso, sua evolução ao longo da noite não passou despercebida por Alberto Lenz.

Seguindo pela Espanha, o quarto vinho degustado veio da região de Rioja. O Colección Vivanco Garnacha 2007, que estagia em barricas de carvalhos francês e americano. Foi o vinho preferido de Luciana Machado, que o considerou “harmônico em boca”. Irecê Andrade o descreveu como “um vinho encorpado e de personalidade marcante, com elegância e frescor”, sendo que Marcelo Semeone assinalou que o percebeu bastante distinto do Rioja tradicional, “um exemplo das mudanças do vinho com o tempo”.

AD 95 pontos - Extraordinário
ESPECTACLE DEL MONTSANT 2005
Celler Laurona, Montsant, Espanha. René Barbier, Christopher Cannan e mais quatro amigos decidiram adquirir um pequeno vinhedo de Garnacha de mais de 120 anos na região de Montsant e elaborar este tinto. Produzido de forma única, todo mosto é vinificado somente num único tonel novo de carvalho francês de 4.000 litros, com posterior estágio de 14 meses nesse mesmo recipiente. Apresenta cor vermelho-rubi e aromas de frutas vermelhas e negras, bem como notas florais, minerais e de especiarias doces, além de toques herbáceos e de tabaco. Em boca, a fruta é de ótima qualidade lembrando cerejas, é untuoso, cheio e equilibrado, com viva acidez e impressionante estrutura tânica, que lhe proporciona grandiosidade e profundidade ímpares. Grande vinho, pautado pela perfeita harmonia entre concentração e finesse. EM

Saindo da Espanha, o quinto vinho degustado foi o Clarendon Hills 2007. Produzido em McLaren Valley, na região de South Australia, é um bom exemplo de que a Grenache pode demonstrar exuberância fora do Velho Continente. Não por acaso, Victor Hugo Ferreira o achou “diferente dos outros”. Sua intensidade e concentração de fruta surpreenderam alguns dos convidados. Para Irecê Andrade, “é um vinho para momentos inspirados”. Foi um dos destaques da noite. Marcelo Tabacchi resumiu sua impressão a respeito do vinho em uma frase: “ame-o ou deixe-o”. No seu caso, foi amor.

Antes, a Garnacha era considerada uma uva muito alcoólica, cujos vinhos não envelheciam bem e era mais útil na composição de blends. Hoje não mais

Depois de flertar com o Novo Mundo e provar um pouco de “Grenache”, os convidados foram novamente conduzidos à “Garnacha”. Foi o momento de visitar a região de Montsant, provando o espanhol Espectacle 2005. Vinificado em uma única barrica de carvalho de 4.000 litros, onde estagia por 16 meses, esse tinto tem estrutura tânica fabulosa, que lhe proporciona uma grandiosidade e profundidade ímpares. O campeão da noite arrancou suspiros e elogios de todos os presentes. Para Alberto Lenz, o Espetacle foi o rótulo mais equilibrado do painel. Para Simone Nagai “é um vinho especial”. Irecê Andrade o considerou fantástico e chegou a afirmar que “o tomaria todos os dias da vida”.

AD 90 pontos - Ótimo
FAGUS DE COTO DE HAYAS GARNACHA 2008 
Bodegas Aragonesas, Aragón, Espanha. Tinto elaborado exclusivamente a partir de uvas Garnacha de vinhedos de mais de 40 anos e rendimentos de menos de 1 kg por planta, com estágio de nove meses em barricas francesas. Apresenta cor vermelho-rubi e aromas de frutas vermelhas e negras mais frescas, bem como típicas notas florais e de tabaco, além de toques herbáceos e de ervas secas. No palato, é frutado, estruturado, redondo e suculento, tem taninos finos, ótima acidez, que aporta vivacidade e frescor ao conjunto, e final persistente e agradável. Gostoso de beber, pede a companhia de carnes vermelhas grelhadas. EM

Para fechar o jantar, o Fagus de Coto de Hayas Garnacha 2008 veio para representar Campos de Borja, também na região de Aragón. Suas notas de frutas frescas e ótima acidez se mostraram ótimas parceiras para acompanhar a massa ao ragu servida no jantar.

Balanço final da noite: uma grata surpresa para todos os convivas, a Garnacha demonstrou que uma boa seleção de seus varietais merece figurar com destaque entre os grandes vinhos do mundo. Isso tudo com o benefício de (ainda) possuírem preços muito bons quando consideramos a pequena produção desses exemplares de vinhas antigas e sua qualidade.

Christian Burgos E Eduardo Milan

Publicado em 14 de Março de 2019 às 15:00


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Artigo publicado nesta revista