Revista ADEGA

Começando por Cima

As novas regiões produtoras de vinhos em Santa Catarina querem se destacar com produtos de alta qualidade

Sílvia Mascella Rosa* em 28 de Maio de 2008 às 14:55

Vinícola Panceri, em Tangará

O helicóptero azul levanta vôo da cidade de São Joaquim, em Santa Catarina, em uma ensolarada manhã de março. Os campos abaixo, antes cobertos por araucárias, macieiras, pereiras e variados cultivares de grãos, hoje têm um colorido a mais: os parreirais. Ao sobrevoar as montanhas, a região serrana começa a contar um pouco sobre sua história recente.

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História compartilhada pelo o dono da Vinícola Pericó e membro da SBAV de Blumenau e do Clube dos Gourmets de Florianópolis, Wandér Weege, e o vinicultor e diretor da Associação Catarinense dos Produtores de Vinhos Finos de Altitude (Acavitis), Eduardo Bassetti e sua esposa Eliana. Todas essas funções, consistentes com a paixão pelo vinho, levaram Weege a montar uma vinícola para desfrutar durante sua aposentadoria. Além dele, na Acavitis se reúnem outros empresários como, por exemplo, o jovem João Paulo Freitas e sua irmã Daniela Freitas, da Cecrisa e da Villa Francioni; a família Binotto, da transportadora Binotto e Vinícola Santo Emílio; e Maurício Grando, da Vinícola Villaggio Grando. Ao lado de outros empresários/ produtores cheios de garra, esses homens de negócios, e de bom gosto, estão ampliando as áreas de produção de uvas viníferas e indo além das divisas conhecidas. Estão nisso pela paixão, é claro, mas também pela possibilidade de bons negócios.

Vinhedos experimentais em Campos Novos

Diferentemente do Rio Grande de Sul, com cultura centenária de vinhos e investimentos constantes em pesquisa para a melhoria das condições de produção, os catarinenses não têm praticamente nenhuma tradição cultural na qual se apoiar. Mas estão tentando compensar esse fato com a disposição de fazer os vinhos de maior qualidade no Brasil, não importando o custo desse investimento inicial. "Esperamos sempre que nossa próxima safra seja a melhor, pois queremos nos superar", afirma Maurício Grando, da Villaggio Grando, atual presidente da Acavitis e produtor (entre outros rótulos) do tinto Inominable.

Organizados desde 2005 nessa Associação, os produtores contam com a parceria do Sebrae de Santa Catarina para implementar variados projetos como o reforço da imagem dos produtos da região, a participação em feiras e o estabelecimento de um padrão de qualidade que norteie todos os vitivinicultores das três diferentes zonas produtoras do Estado. O projeto é ambicioso e nem sempre de fácil execução uma vez que, entre os 32 participantes convivem realidades muito diferentes.

Há um projeto novo, cujos vinhos estão sendo feitos pela primeira vez este ano, que reúne produtores em uma cooperativa em Campos Novos, centro-sul do Estado, com a parceria da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina. São uvas advindas de pequenas propriedades em fase de diversificação de seus negócios. No meio do processo, está a Panceri, empresa familiar e tradicicional nos moldes gaúchos. "Nossa maior dificuldade é a de vender o vinho, não de cultivar boas uvas e nem de vinificar corretamente", revela Celso Panceri, um dos sócios da empresa. Seu irmão, Luiz, que cuida dos campos, acredita que ainda assim as empresas precisam correr riscos e buscar diferenciação. Uma das táticas adotadas pela Panceri é a de fazer parte do Wines from Brazil, grupo que fomenta as exportações dos vinhos brasileiros.

No outro extremo desses projetos encontra-se uma empresa que conseguiu se consolidar com mais rapidez, a Villa Francioni. João Paulo Freitas, ativo membro da Acavitis e vice-presidente da Villa, acredita que o reconhecimento aconteceu por conta de um projeto bem-concebido e de uma equipe comprometida com a missão de excelência da empresa. "No futuro, queremos ser referência no Brasil e até mesmo no continente"revela.

Os novos terroirs de Santa Catarina, localizados em altitudes que podem chegar a 1.400 metros no Estado que registra as temperaturas mais baixas do País, têm vantagens para quem planta uvas viníferas. "Em regiões mais frias e altas, o ciclo da videira se desloca para mais tarde, e esse ciclo longo ajuda a concentrar açúcares e taninos, além de melhorar a sanidade dos grãos", explica Jean Pierre Rosier, um dos poucos doutores em enologia a trabalhar tanto em pesquisa quanto na iniciativa privada. Mas ele alerta para a desvantagem das altitudes: geadas tardias, algumas vezes até em novembro, que podem causar a quebra e a queima dos brotos em formação, levando a perdas significativas no campo.

Por conta disso, muitos produtores fazem uso de telas de proteção para cobrir seus vinhedos. Eficiente, o método custa caro. "Cada hectare plantado e coberto pode chegar a custar R$ 18 mil", esclarece Paulo Iida, diretor de Uva e Vinho da Cooperativa Agrícola de São Joaquim (Sanjo), que produz a linha de vinhos Núbio e o Maestrale. Ele conta que nem todos os seus cooperados podem arcar com esses custos e acabam por correr riscos nos campos frios da região.

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O português Nazário de Souza, junto de seus sete sócios paulistas da Quinta Santa Maria, planta uvas em patamares, como em Portugal, em uma região montanhosa de São Joaquim. Desse terroir, retira uvas para o primeiro vinho brasileiro fortificado de boa qualidade - o Portento, publicado há duas edições de ADEGA - e também para o vinho brasileiro mais caro, o Utopia, que pode custar até R$ 200. "Comprovamos, depois de muita experimentação, que aqui podemos fazer vinhos mais encorpados e de melhor performance do que em outro lugar do Brasil. Então, criamos um vinho tinto de guarda, longevo, das cepas Cabernet Sauvignon e Merlot, feito para descansar por dez anos em princípio", esclarece Nazário. "Claro que sabemos que esse preço também faz parte da utopia", completa.

A família Suzin, produtora de vários cultivares, decidiu dedicar dez hectares de sua propriedade para as uvas finas e lançou dois varietais neste ano, Merlot e Cabernet Sauvignon, somente com duas mil garrafas cada. A produção pequena de Suzin é mais um dos traços da região (as exceções são a Villa Francioni e a Panceri), que ainda aguarda a resposta do mercado para aumentar sua produção. Enquanto isso, eles dão tempo para que as vinhas evoluam mais no novo terroir e se aproximem do ideal de excelência que é o mantra dos novos produtores de Santa Catarina. Visto de cima, o panorama é belo e promissor. Provavelmente, vai garantir uma aposentadoria ativa e feliz para muita gente, não só para Wandér Weege.

*Direto de São Joaquim


Enobusiness

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