Destino traçado

O enólogo e consultor Paul Hobbs, consagrado por seus trabalhos em vinícolas sul-americanas, falou exclusivamente com a equipe de ADEGA, em recente visita ao Brasil. Confira!


fotos: Paul Hobbs Winery

Acostumado com um estilo de vida pacato e simples, o americano Paul Hobbs cresceu numa fazenda onde, ainda criança, trabalhava para ajudar no orçamento familiar que, na época, era apertado. O contato com o vinho aconteceu durante a adolescência, quando seu pai levou uma garrafa para casa. "Depois desse dia, me interessei muito pela bebida. Meses depois estávamos plantando uvas no quintal de casa", diz. O entusiasmo foi tanto que em 1975 Paul formou-se em enologia pela Universidade Notre Dame, Indiana.

Durante o último ano de faculdade conheceu um professor de botânica que trabalhava como produtor de vinhos em Napa Valley, Califórnia. "Ele me incentivou a estudar na Universidade da Califórnia, em Davis, onde fiz mestrado em enologia. Foi quando percebi que levava jeito para a coisa. Eu tenho o sentido do olfato aguçado, nariz grande", brinca. "Com a oportunidade de me mudar para a Califórnia e ainda trabalhar com vinhos, não tive dúvidas, arrumei as malas e segui viagem", completa.

Carreira

Dono de um estilo único de trabalhar, Paul diz ser um consultor de vinhos diferenciado. "Não sou um flyng wine maker, que atende todos os níveis de vinhedos e não se dedica a uma especialidade. Onde eu vou, fico! Faço da vinícola a minha casa; incorporo a cultura do país e tento ter a relação mais próxima possível dos proprietários", define. Para se ter uma idéia, Hobbs passou mais de oito anos trabalhando na vinícola argentina Catena, onde desenvolveu o menu da empresa e desde 1999 firmou parceria com a Viña Cobos, no Chile. Além de ter transformado, em apenas cinco anos, a vinícola Argentina Toso em uma das melhores do país e reconhecida internacionalmente.

A concentração de seu trabalho na América do Sul não é mera coincidência, mas afinidade com o local. "Acredito muito no potencial dos países latinos. Aqui posso desenvolver um trabalho pioneiro", enfatiza. Paul Hobbs também administra sua própria empresa, a Paul Hobbs Winery, localizada no vale californiano de Sonoma.

Tanta dedicação resulta num trabalho impecável. Os tintos e brancos que levam sua assinatura apresentam características próprias. Paul afirma que não pensa num vinho como uma mercadoria para atender a massa, mas como uma bebida para ser apreciada por quem se interessa. "Prefiro trabalhar com pequenas quantidades para o público que procura uma particularidade nos vinhos. Um toque de individualismo".

A harmonia com a natureza é o principal lema de Hobbs. Além de respeitar todos os sabores que o terroir proporciona e valorizar o sabor do mineral, ele procura retratar as pessoas envolvidas na vinicultura em seus produtos. "Mostro a verdadeira essência do vinho, não sigo um mesmo estilo; gosto de fazer vinhos particulares, com personalidade", afirma. Para isso, utiliza apenas leveduras naturais na fermentação, para obter um resultado original.

fotos: Paul Hobbs Winery
Paul administra seu vinhedo em Napa Valley, Califórnia
Tendência mundial

Paul diz não se importar muito com a popularização do vinho, mas com a perda da identidade que a bebida pode sofrer. "Com o tempo, os vinhos básicos serão eliminados do mercado. Só os bons se manterão", acredita.

Na visão do consultor, o Brasil é um dos mercados mais emergentes dentro do contexto mundial e está seguindo os passos de países vizinhos, como Chile e Argentina, mais maduros no assunto. "Em São Paulo, realizei um encontro com cerca de 130 sommeliers. Há alguns anos isso não seria possível. Mas mostra que o vinho está ganhando espaço no Brasil", conta. Além do Brasil, Hobbs aposta no crescimento das regiões do Leste Europeu, países asiáticos, Norte da Europa e do próprio Estados Unidos. "A tendência é dobrar o número dos consumidores de vinho no mundo".

Segundo Paul, a Europa já está praticamente toda "contaminada" pela arte do vinho os outros continentes também deveriam se aprofundar mais nesse universo. "O vinho diminui a velocidade da refeição, muda a dinâmica da situação e faz com que as pessoas se unam e fiquem mais tranqüilas. Além de fazer bem à saúde", diz. "Em vez de fazer guerra, as pessoas deveriam beber mais vinho".

Gabriela Pasqualin

Publicado em 10 de Novembro de 2005 às 16:31


Entrevista

Artigo publicado nesta revista