Mulheres de areia

Um panorama dos vinhos da arenosa região de Setúbal na visão da herdeira da Casa Ermelinda Freitas


Em uma região onde historicamente as marcas se tornaram importantes, não é à toa que Leonor Freitas seja quase sempre chamada pelo nome de sua mãe, Dona Ermelinda, que dá nome a uma importante vinícola das Terras do Sado, na Península de Setúbal, em Portugal. Ela, porém, não se importa e segue levando o nome de sua genitora e da Casa Ermelinda Freitas, uma das vinícolas que tem ajudado Setúbal a ganhar espaço no mapa da vitivinicultura portuguesa e mundial.

"Meu pai foi o único homem que realmente se ligou à vinícola, pois todos os outros morreram muito cedo. Sempre foram as mulheres que tomaram conta"

Nesta entrevista, Leonor dá um panorama da história e dos vinhos da região que é mais conhecida pelos seus rótulos com a casta Castelão (também conhecida como Periquita na região) e especialmente pelos deliciosos Moscatéis de Setúbal.

Seu pai certamente foi uma figura muito importante em Portugal, não?
Sim, minha família se dedicou muito ao vinho. Tudo começou com a minha bisavó, que deu origem a cinco adegas, embora só a nossa tenha tomado um caminho. Mas as outras também ainda insistem na região. Depois dela veio a minha avó, pois meu bisavô faleceu muito cedo. Mais tarde, o meu avô faleceu também muito cedo, minha avó tinha 38 anos e meu pai era o filho mais velho. Foi ele quem ajudou minha avó, investiu muito, era uma pessoa que já tinha preocupações com a qualidade. Quando vendíamos o vinho a granel, já o vendíamos classificado ou com a regional ou com a DOC. Quando o meu pai faleceu, minha mãe não tinha condições de continuar tocando tudo sozinha, e então eu cheguei.

Mais mulheres do que homens tomaram conta da Casa Ermelinda Freitas?
É uma curiosidade. Meu pai foi o único homem que realmente se ligou à vinícola, pois todos os outros morreram muito cedo. Sempre foram as mulheres que tomaram conta. Agora já temos a quinta geração. Tenho um filho e uma filha. Ele está mais voltado para as tecnologias e minha filha orientou toda a sua vida para dar continuidade à Casa. Costumo dizer que já temos garantida a quinta geração, mais uma vez com uma mulher. Quando penso nessa coisa das mulheres, acho que revela que somos mulheres fortes, e fomos transmitindo esse entusiasmo às outras. Cheguei lá com muitas referências do meu pai, é claro, mas também com bastante da minha avó. Ela era uma mulher de uma resistência física enorme, e não se cansava. Às vezes, quando estou exausta, lembro da minha avó e tento me animar.

Como começou seu trabalho na Casa?
Sou a quarta geração. Isso quer dizer que nós não somos mais uma jovem casa vinícola, mas, ao mesmo tempo, só engarrafamos vinhos há 12 anos. Então, nesse sentido, somos novos. As três gerações anteriores sempre tiveram vinhas, adega e faziam vinho, mas o vendiam a granel, sem marca própria. Foi assim até que eu, que era a geração que não estava prevista para ir à zona rural, fui a primeira que saiu para estudar.

Tive formação superior de assistente social, que nada tinha a ver com a agricultura, e, como meus pais eram pessoas muito novas, minha avó ainda era viva e trabalhava, eu pensava que talvez um dos meus filhos pudesse vir a gostar e entrar no ramo. Mas aconteceu de meu pai falecer de repente, aos 59 anos, e eu, filha única, não tive coragem de vender a Casa, porque achei que seria uma violência enorme à família. Eu vi todo o amor que eles tinham pela terra, a dedicação, e achei que, de fato, era uma violência. Costumo dizer que vim para o vinho por amor e continuo com paixão.

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fotos: divulgação

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E quais foram suas primeiras providencias no comando da Casa Ermelinda Freitas?
Comprei vinhas. De 60 hectares que tínhamos, passamos para 240. Fiz uma adega nova e criei as marcas, pois senti uma necessidade enorme de me identificar. Vendi vinho a granel até 2002, fazia uma parte para as marcas e vendia o resto. Quando a vinícola para onde eu vendia não precisou mais do vinho a granel é que nasceram todas as outras marcas e foi quando aconteceu o "arregaçar das mangas" e nós passamos a vender toda a nossa produção. No ano passado, por exemplo, produzimos 5 milhões de litros.

"Vejo o Castelão como um vinho equilibrado, que fica redondo muito cedo, o que é uma das grandes vantagens da região e que acredito que tenha a ver com os terrenos de areia"

Esse é um caminho sem volta?
Sim, tem tido muita competitividade, mas agradeço todos os dias o que aconteceu e estou muito feliz por não ter vendido.

Quando assumiu, houve apenas expansão no número de hectares, ou também de castas?
Dos 60 hectares, 55 eram de Castelão, que é a casta tinta da região, e os outros cinco de Fernão Pires, que é a casta branca da região. Quando comecei, chamei o enólogo Jaime Quendera, porque tinha consciência de que não sabia fazer vinho nem tratar das vinhas e precisava me munir de pessoas que soubessem. Com tudo isso, houve um investimento muito grande nas vinhas, e integramos algumas castas novas. A primeira foi a Touriga, depois a Syrah, Trincadeira, Cabernet, Alicante Bouschet, Petit Verdot. Nos brancos, reestruturamos vinhas, compramos outras e plantamos mais Fernão Pires, que é uma casta muito bem adaptada à região. Neste momento também temos Sauvignon Blanc, Chardonnay, Arinto e Moscatel, e estamos pensando em adaptar novas castas.

Como é o terroir da região?
Estamos na Península de Setúbal dos vinhos regionais e DOC Palmela, muito próximos de Lisboa, e lá os terrenos são de areia. Ficamos entre dois rios, o Tejo e o Sado, o que significa que recebemos bastante influência marítima. Temos um lençol freático que dá um equilíbrio na maturação e, de fato, há grandes amplitudes térmicas. Durante o dia faz calor e à noite faz frio, o que causa um comportamento diferente nas plantas.

Quais são as castas que estão se destacando?
Acho que estão todas bem, mas, de fato, a Castelão é única na nossa região, e depois dela estão muito bem a Trincadeira e Touriga. Outra que surpreende é a Syrah, o clone dela está muito bem adaptado ao terroir. Quando plantei a Alicante Bouschet, como é uma casta "tintureira", minha ideia era usá-la para melhorar alguns lotes de vinhos que estivessem com menos cor, mas ela se deu tão bem e está tão bem adaptada que acabamos produzindo vinhos a partir dela.

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fotos: divulgação
"Estamos na Península de Setúbal dos vinhos regionais e DOC Palmela, muito próximos de Lisboa, e lá os terrenos são de areia. Ficamos entre dois rios, o Tejo e o Sado, o que significa que recebemos bastante influência marítima"

Qual é a característica do Castelão das terras de areia?
Ele é robusto e ao mesmo tempo redondo. Vejo o Castelão com mais cor, sendo um vinho equilibrado, que fica redondo muito cedo, o que é uma das grandes vantagens da região e que acredito que tenha a ver com os terrenos de areia. Eles são vinhos de estrutura, com taninos equilibrados e macios.

Como é o potencial de envelhecimento dele?
Temos tido surpresas, porque pensávamos que seu potencial não era grande, mas, nesse momento, temos vinhos com oito, nove anos. Já provamos até com mais. O de 2001, o primeiro que fizemos, está espetacular. Portanto, penso que tem muito a ver com os diferentes Castelões e a estrutura da vinha, pois a que eu estou falando tem 60 anos de idade. Acho que esse fato tem influência sobretudo no Castelão.

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Historicamente, a região tem uma concentração em alguns grandes produtores. Agora vemos novos produtores engarrafando seus próprios vinhos e ganhando mercado. Como foi isso?
Havia duas grandes casas que ajudavam a zona porque elas consumiam todo o produto da região, e por isso as pessoas não sentiam necessidade de engarrafar seus vinhos. Mas a verdade é que nada é estanque e a região mudou. Começaram a surgir pequenos e médios produtores e acho que isso só vai ajudar, porque uma região consegue se firmar quando há vários produtores fazendo vinhos com qualidade. O importante é produzirmos com qualidade, tirar proveito das boas características da região, e temos que nos unir. Quando eram menos casas, as marcas é que eram conhecidas, e não a região. Se formos um conjunto produtor com qualidade, estaremos impondo a nossa região. Temos o exemplo do Alentejo, que soube fazer isso muito bem.

A Castelão é um exemplo disso, uma uva tão famosa que é utilizada muitas vezes como marca, não?
Isso mesmo. A Casa José Maria da Fonseca, que já tem 150 anos, lutou tanto para ficar com a marca Periquita que tivemos que mudar seu nome para Castelão. Em muitas zonas, ela ainda é chamada de Periquita. Muita gente a conhece assim, e nós, até pouco tempo atrás, púnhamos esse nome no rótulo, porque era permitido. Eles tinham todo o direito à marca, mas houve toda essa confusão. A região deve muito a José Maria da Fonseca, que foi a primeira casa que trouxe a Periquita, criou a Confraria do Periquita e, portanto, só temos a agradecê-los.

Existe uma política de investimento na marca Castelão?
Sim, todas as vinícolas estão investindo no Castelão. E todas também já começam a diversificar com outras castas. Mas agora é a vez da Castelão.

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"O Moscatel funciona para a zona de Setúbal da mesma forma como os Vinhos do Porto funcionam para a região norte. São diferentes, portanto, há lugar para todos. Mas é uma pena que nosso Moscatel não seja tão famoso"

Setúbal produz um dos vinhos doces mais maravilhosos do mundo, mas são ofuscados pelo Vinho do Porto. Alguns dizem que uma das razões pela qual a península de Setúbal não é tão reconhecida é que os ingleses não foram 200 quilômetros mais ao sul.
É verdade, acho que o Moscatel funciona para a zona de Setúbal da mesma forma como os Vinhos do Porto funcionam para a região norte. São diferentes, portanto, há lugar para todos. Mas é uma pena que nosso Moscatel não seja tão famoso. Os ingleses deram muita ajuda ao Vinho do Porto, mas a culpa também é dos produtores, que não tratavam muito bem o nosso Moscatel, desde a imagem, divulgação etc. Precisamos dar prestígio a ele. Fui à Londres há pouco tempo e foi interessantíssimo ver pessoas que não sabiam o que era. Conheciam o Vinho do Porto, mas "aquele outro" não, e, no final, gostavam. Portanto, acho que temos que divulgar o Moscatel e lhe dar uma imagem boa. Estamos caminhando devagar, mas esse é um grande vinho. Com características aromáticas únicas, principalmente o mel, a laranja. Ele deveria ser uma porta de entrada para o resto dos vinhos, ajudar os outros vinhos da região a se mostrarem.

Christian Burgos

Publicado em 23 de Janeiro de 2012 às 12:29


Entrevista

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